O exemplo da inexistência de democracia no futebol moderno no SL Benfica

Francisco IsaacDezembro 3, 20189min0

O exemplo da inexistência de democracia no futebol moderno no SL Benfica

Francisco IsaacDezembro 3, 20189min0
Luís Filipe Vieira tomou a decisão sozinho de manter Rui Vitória, contrariando a restante direcção. O que significa isto para a democracia do SL Benfica? E que futuro para os sócios?

A GUERRA DESPOLETADA POR RUI VITÓRIA

29 de Novembro de 2018 será uma data lembrada como um momento em que uma parte dos adeptos do Sport Lisboa e Benfica sentiram o fim da “voz” dos adeptos e da sua opinião nas decisões do clube. A conferência de imprensa de Luís Filipe Vieira teve diversos apontamentos interessantes, com uma sequência de palavras a subir ao palanque das mais importantes:

“Havia uma decisão tomada mas discuto e ouço. Dormi no Seixal e meditei bastante. Dormi muito pouco e a pessoa que primeiro soube da decisão foi o Tiago Pinto, às 7h30, que ficou perplexo.”.

Contextualizando esta frase, o presidente da SAD e clube dos “encarnados” confirmou que decorreu uma reunião entre membros da direcção durante a noite de 28 de Novembro, sendo que ficou tomada a decisão de rescindir contrato com Rui Vitória, numa reunião que se seguiria na manhã seguinte.

Não se sabe quem esteve presente nesse debate privado entre membros, mas ficou subentendido que algum dos participantes passou informações à Comunicação Social sobre todas as possíveis decisões que estavam tomadas: saída de Rui Vitória, entrega a Bruno Laje do cargo como treinador-interino e que já estariam alguns nomes em cima da mesa, nomes esses que Luís Filipe Vieira confirmou na conferência de imprensa.

Ou seja, durante a noite de 28 e madrugada de 29, Luís Filipe Vieira terá percebido a existência de uma fuga de informação preocupante e que tinha posto a descoberto vários detalhes decididos no tal encontro da SAD. Numa mudança total de planos, o presidente dos “encarnados” tomou a decisão de manter Rui Vitória, surpreendendo tudo e todos invocando que esta decisão era só dele e que tinha um “feeling” no sentido de querer manter Rui Vitória.

A vontade de Luís Filipe Vieira foi imposta perante a dos restantes membros de direcção, assumindo-se quase como o único responsável pelas decisões de futuro do clube, não precisando da ajuda, conselhos e votos dos restantes membros da SAD.

Este tipo de discurso leva a uma parte dos sócios (e nisto é preciso ter cuidado em afirmar o que as maiorias querem ou vão deixar de querer) a sentir que o Sport Lisboa e Benfica não é um clube que tem as suas decisões tomadas por uma discussão entre membros da SAD, mas apenas por uma pessoa que tem um feeling e que inverte as decisões de colectivo perante aquilo que gosta, deseja e exige.

FUTEBOL MODERNO: VIRTUDES E VICISSITUDES

No futebol montado nos moldes actuais, os sócios têm pouco poder de decisão no futuro ou não do clube, de quais são os objectivos das diferentes modalidades, dos jogadores que entram, nos treinadores que assumem as equipas técnicas, etc. Contudo, os sócios efectivos (os pagantes de quotas) têm três poderes que podem colocar tudo em xeque em termos directivos: eleições para a direcção, aprovação de orçamentos e destituição de direcções.

Foi isto que aconteceu com Bruno de Carvalho muito recentemente, que viu ser convocada uma Assembleia-Extraordinária com poderes destituivos. A consulta à opinião de cada associado decidiria se o até então presidente continuaria ou não à frente do clube. Quando foram apurados os resultados, a larga maioria decidiu que Bruno de Carvalho tinha de ser destituído como presidente do Sporting CP.

Não houve volta a dar e os sócios fizeram valer o seu poder, para mal de um dirigente que queria se sobrepor a tudo e todos, mantendo um discurso agressivo, dotado de princípios ditatoriais em tempos modernos. Felizmente para o Sporting Clube de Portugal a decisão tomada foi no sentido de repor os valores no clube e de que a direcção tomada no último ano tinha de ser removida do clube. Democracia, o poder do povo e o uso do voto popular são princípios que os clubes ainda estão obrigados a velar, apesar das SAD’s ficarem completamente alheias a estes princípios.

Ao contrário do que alguns apregoam, o futebol moderno não vai deixar de existir e não é uma perversão total dos fundamentos capitalistas que distorceram a beleza do jogo. Sem as actuais estruturas, os atletas não teriam direitos para praticar o seu oficio em paz (ser futebolista não é um conto-de-fadas, não é uma brincadeira e acarreta custos emocionais, físicos e familiares) após o fim das suas carreiras (quantas histórias tristes existem de futebolistas entre os anos 20-70 de terem ficado na pobreza e que a maioria nunca se preocupou em ajudá-los).

Treinadores poderiam ser facilmente demitidos (como foram em várias ocasiões no passado) e sem receberem qualquer indemnização, lançando a sua carreira numa dúvida intermitente. Clubes poderiam ficar assentes numa base demasiado instável para aguentar as crises e fases mais difíceis.

Também é óbvio que existe o outro lado, do supra-capital desmesurado que não olha a meios para atingir os fins, de clubes que maltratam os seus activos quando é altura de “despachá-los”, de dirigentes que só querem saber dos cifrões e não de cultura desportiva ou sequer a do clube. As SAD’s detêm, por vezes, o poder total nas decisões clube, da equipa sénior e dos seus activos principais, assumindo-se como o ponto nevrálgico da “existência” desse emblema X ou Y.

O CLUBE DE TODOS OU DE SÓ DE UNS?

No caso presente do Sport Lisboa e Benfica é exactamente o que se está a passar. Luís Filipe Vieira sente-se completamente no domínio do emblema encarnado, tendo já feito uma série de declarações muito complicadas, uma delas proferida na última Assembleia-Geral em 2018,

“Tem de haver respeito pelos outros… cada um tem a sua opinião e o Benfica é um clube democrático mas, para os contestatários, só digo que vocês vão levar comigo muitos anos.”.

Verdade que a frase do líder das “águias” pode ser interpretado de diversas formas e que tem de existir algum cuidado para perceber ou não a gravidade ou profundidade das mesmas. Não é mentira alguma que o SL Benfica foi um clube associado a fases contínuas de instabilidade nos últimos 30 anos, passando pela era de Vale e Azevedo, para a fase de transição de Manuel Vilarinho e para finalmente desembocar em Luís Filipe Vieira. Contestação sempre existiu em alguns períodos, especialmente nas fases de maiores “ondas” de contratações e que no final não garantiam títulos.

Se a fase de Jorge Jesus atenuou a situação, com três títulos conquistados em seis anos, a de Rui Vitória pode ser completamente associada a uma fase instável e de difícil aceitação perante o discurso e qualidade exibicional do futebol. No andebol, futsal, hóquei em patins, futebol de formação, o SL Benfica não atingiu a hegemonia que Luís Filipe Vieira tanto desejava e apregoava, apesar de uns quantos grandes sucessos como a Liga dos Campeões em hóquei patins ou no futsal.

A Academia do Seixal tornou-se uma referência, com alguns atletas a singrarem tanto nas selecções nacionais como em alguns clubes europeus, tendo o clube retirado altos dividendos desse sucesso. Contudo, ainda está longe de ser também a hegemonia que o próprio líder “encarnado” tanto visualizava.

A contestação sob de tom para com a direcção dada por Luís Filipe Vieira ao tema futebol e esse facto parece estar a revelar-se como uma “espinha” do líder para com os associados do emblema lisboeta. Na declaração feita aos jornalistas no dia 28 de Novembro de 2018, o presidente da SAD e clube desculpabilizou a imprensa por ter divulgado informação sigilosa, dando a entender que realmente houve uma fuga propositada para afectar a actuar liderança do clube.

Ou seja, Luís Filipe Vieira sentiu-se novamente atacado depois da fase dos e-mails divulgados pela imprensa (e em especial pelo Porto Canal) e desta vez o ataque veio de dentro da estrutura e esta situação poderá criar uma maior barreira entre o presidente com os restantes membros e associados. Adicionar ainda que Vieira tem sido alvo de constantes ataques por antigos membros de direcção, como Rui Gomes da Silva, revelando pormenores da gestão errada da actual direcção.

Estes pormenores em conjunto fazem Luís Filipe Vieira sentir-se isolado (uma palavra proferida na conferência de imprensa com desdém) ou, melhor, com vontade de se isolar de tudo e todos no que toca à tomada de decisões para o Sport Lisboa e Benfica. É a ascensão do Rei Sol, do elevar ao máximo da expressão L’État, c’est moi (frase supostamente proferida pelo soberano Luís XIV, que elevou o poder monárquico em França a um expoente nunca antes visto) e do tomar controlo dos destinos do emblema em mãos, contra tudo e todos que se oponham às decisões.

Como pormenor, veja-se que o canal televisivo dos “encarnados” tem sonegado as acções contra-Rui Vitória invocadas pelos adeptos do Estádio da Luz, com alguns comentadores e analistas do canal a menorizarem e até a ironizarem, ridicularizando os contestatários à insignificância. Até que ponto o Sport Lisboa e Benfica deixou de ser um clube para todos os associados e adeptos e agora é só para aqueles que concordarem com a direcção escolhida por Luís Filipe Vieira?

Como nota final, lembrar que durante anos os adeptos e sócios “encarnados” ridicularizaram com os seus homólogos do Sporting Clube de Portugal pela excessiva inércia e de aceitarem certos comportamentos dos seus dirigentes. Todavia, os adeptos “leoninos” tomaram o controlo do seu destino quando dissolveram e destituíram a presidência de Bruno de Carvalho do clube há bem pouco tempo. Será que a coragem para desafiar Luís Filipe Vieira alguma vez existirá do outro lado da 2ª Circular?


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