Fernando Pessoa, carpe diem e o futebol brasileiro

João Pedro SundfeldAbril 9, 20215min0

Fernando Pessoa, carpe diem e o futebol brasileiro

João Pedro SundfeldAbril 9, 20215min0
A vontade de viver um presente glorioso resulta em diversas atitudes irresponsáveis que comprometem o futuro das equipas no Brasil

A partir do momento do nosso nascimento, passamos a ter apenas uma certeza: um dia iremos morrer. Não é um pensamento agradável, longe disso, mas é a realidade, e esta nem sempre vem para nos dar prazer. Com isso, cada um cria uma filosofia de vida, uma maneira de passar os anos que tem pela frente do jeito que entende como o mais apropriado, dado que, um dia indefinido, tudo irá acabar.

Carpe diem. Aproveite o dia. Se eu não sei se vou ter amanhã, tenho de aproveitar o presente. Ideia mais disseminada no mundo – e tatuada na pele de muitos. Na literatura, esta se faz presente. Um Fernando em outra Pessoa a aderiu, de maneira moderada. Prazer momentâneo. E, assim, fez suas obras, até sua morte fictícia, e influenciou milhões de leitores aficcionados.

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

E de modo similar vivem milhões. Alguns seguem a linha de Ricardo Reis, o poeta pessoano, de moderação no presente. Outros querem prazeres sem fim e exacerbados. O presente é bom, o futuro existe?

Existe, e é prejudicado por decisões exageradas e desnecessárias, que não o levam em conta. Aquilo que não é uma certeza, passa a ser uma realidade difícil e melancólica. E assim que vive o futebol brasileiro.

Os times buscam títulos, como toda grande equipe deve fazer. O São Paulo não vence desde 2012, quando foi campeão da pequena (para a história do clube tricampeão mundial) Copa Sul-Americana. O clube está errado em querer reencontrar o caminho das glórias? De jeito nenhum. Mas, para isso, a equipe gasta, gasta muito, e pouco pensa em como pagará.

O Cruzeiro foi bicampeão brasileiro em 2013 e 2014 e da Copa do Brasil em 2017 e 2018. Títulos importantes e boas arrecadações. Mas a corrupção, falta de bom senso e gastos além dos que o clube poderia pagar causaram o rebaixamento em 2019, a punição da FIFA em 2020 e a manutenção da equipa na segunda divisão brasileira. Uma das maiores, senão a maior, crise de um grande clube na história do país e do futebol brasileiro.

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Adeptos do Cruzeiro apreensivos no dia do rebaixamento (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)

Apesar disso, os outros não aprendem. Ano de pandemia, as receitas caíram e dívidas aumentaram. O poderoso Flamengo, que se destacou por diversas transferências de valores que nenhuma outra equipa do Brasil poderia realizar, reconheceu as dificuldades e optou por manter o elenco e não trazer grandes nomes. Atlético Mineiro, por outro lado, contratou Nacho Fernández e Hulk, além dos que chegaram na última época, como Keno, Vargas, Arana, entre outros. Tudo isso utilizando dinheiro de investidores e, no início de 2020, quase não tendo o suficiente para quitar a dívida de R$8 milhões por Maicossuel. Alguém pensou em como vão pagar estas cifras milionárias aos credores?

Outro time que age desta maneira é o São Paulo. Com um dos maiores salários do futebol brasileiro em seu plantel, sendo este o de Dani Alves, o Tricolor não consegue manter os compromissos com os jogadores em dia. Mesmo assim, porém, contratou – e contratou jogadores importantes. Miranda, Éder, Orejuela, Benítez. Com mais estes nomes, conseguirão pagar nas datas combinadas?

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O central Miranda foi uma das principais contratações do São Paulo para esta época (Foto: Divulgação)

A culpa não é só dos dirigentes que, certamente, são os detentores da maior parte desta. Os adeptos pressionam e se manifestam, buscando contratações e títulos para ontem. Pouco pensando se vencerão amanhã ou se, no futuro, se tornarão equipas insignificantes.

O Palmeiras quase não contratou para a época 2021. Anunciou apenas Danilo Barbosa, por empréstimo. Negociou alto com Borré, Atuesta, Taty Castellanos. Desistiu do primeiro e ainda não conseguiu fechar os outros. A torcida, nas redes sociais, se indigna. Entende, corretamente, que, com o plantel palmeirense atual, será muito difícil ter outro ano de glórias. Não pensam, porém, que o clube já está comprometido financeiramente – recentemente, a alta cúpula do Verdão fechou um acordo com um empresário sobre a compra do médio Wesley, em 2012, e terá de desembolsar R$48 milhões – e que, se investir pesado, como em anos anteriores, os resultados a longo prazo serão os piores imagináveis.

Mesmo com exemplos, bons e ruins, os clubes brasileiros mantêm a mesma filosofia que pouco se aplica a eles. O memento mori, como diriam os latinos, faz jus às pessoas, não instituições. Pessoas passam, as agremiações são eternas – e têm de lidar com administrações passadas e irresponsáveis. Esta maneira de administrar, pensando apenas no presente, gera resultados ruins, crises financeiras e falta de competitividade no longo prazo no futebol brasileiro. Mas eles não param de contratar.


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