O futebol brasileiro continua, mas a que custo?

João Pedro SundfeldMarço 27, 20216min0

O futebol brasileiro continua, mas a que custo?

João Pedro SundfeldMarço 27, 20216min0
Mesmo com o país vivendo o auge da pandemia da Covid-19 e ignorando os grandes riscos, o futebol brasileiro segue a todo o vapor

O futebol mundial convive, há mais de um ano, com a existência da pandemia da Covid-19 e, por isso, muitas mudanças ocorreram no esporte, assim como na vida das pessoas. Estádios estão vazios, jogadores são testados sem parar, adeptos não podem sair na rua para comemorar uma vitória, ou um título. Ninguém gosta dessa situação, times ficam sem uma importante receita, a testagem é desconfortável, as pessoas querem celebrar com os amigos, mas é uma unanimidade: a vida é mais importante.

No Brasil, porém, não é tão unanime assim. Sem vacinação, o isolamento é o caminho, mas pessoas importantes não pregam esta alternativa. Com casos crescendo a cada dia, mais de 3 mil mortes diárias, superando 300 mil no total, as coisas têm de mudar, em todos os espectros da sociedade. É saúde pública, é a prioridade. Deveria ser, ao menos.

O governo estadual anunciou, no dia 11 de março, o início da fase emergencial, que deveria ocorrer entre os dias 15 e 30 deste mês, mas que foi prolongada até 11 de abril, medida adotada para controlar a quantidade de casos da Covid-19 no estado mais assolado pela doença no Brasil – em São Paulo, no total, ocorreram quase 70 mil mortes. Sendo assim, o Campeonato Paulista teve de ser paralisado e, com isso, deu-se início à cruzada pela volta da competição, liderada pela Federação Paulista de Futebol (FPF), que não é tão violenta quanto as medievais, mas é igualmente desumana.

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Bola de futebol da final do Paulistão 2020
O Paulistão não pode ser disputado em São Paulo entre os dias 15 e 30 de março (Foto: Cesar Greco)

A FPF afirmou, em diversas oportunidades, que o futebol é seguro, afinal os jogadores são testados com enorme frequência e, com isso, o contagio é baixíssimo. Mas será mesmo? Palmeiras, Atlético-MG, Goiás, entre tantos outros, tiveram enormes surtos da doença em seus plantéis na última época, mesmo com tanta testagem. Na Série B, o Avaí contou com Valdívia por 45 minutos, até o resultado positivo chegar e o atleta ser substituído. No ‘seguro’ Paulistão da Federação, o Corinthians ficou sem 16 jogadores que testaram positivo, além de 11 membros da comissão técnica e diretoria.

Para piorar, foi revelado pelo médico e cientista Miguel Nicolelis, em entrevista ao Nosso Palestra, que cerca de 30% dos testes PCR dão falso negativo, possibilitando a presença de atletas contaminados em campo e, com isso, a transmissão da doença para seus companheiros de equipa, adversários, arbitragem, entre outros que têm contato com ele. Super seguro, não?

A Federação Paulista segue entendendo que sim. Deste modo, ela, de todos os jeitos possíveis, busca a retomada da competição, sem considerar a saúde dos atletas. Depois de muitas reuniões, a possibilidade de jogar em São Paulo antes da data determinada pelo governo foi descartada, com a entidade afirmando que as partidas iriam decorrer a partir do dia 31, logo após o fim da paralização. Ela, porém, buscou outras alternativas.

Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé, certo? Não podemos jogar em São Paulo, por que não ir para outro estado? Ideia de gênio. Se você ignorar que outros estados também vivem em colapso do sistema de saúde, claro. Belo Horizonte foi a primeira sede escolhida, e o confronto entre São Bento e Palmeiras chegou a ser confirmado. A cidade na qual, no dia 17 de março, 96,6% dos leitos de UTI estavam ocupados. Um dia após o anúncio do confronto, porém, este teve de ser cancelado, pois o governador Romeu Zema proibiu, corretamente, a realização de jogos de outros estados em Minas Gerais. Qual o próximo passo?

Aparentemente tentar outro local. A escolhida foi Volta Redonda, no Rio de Janeiro, que tem 89% dos leitos de UTI para Covid-19 ocup,ados. Mas não tem problema, a Federação garante a segurança do futebol. Não garante, porém, para onde um jogador que se lesionasse na partida seria enviado, dado que os hospitais estão lotados. Ainda bem que não aconteceu. Mas jogos ocorreram. Dois. Confirmados quase sem antecedência, alterações bizarras de horário, mas aconteceram. Isso que importa, nada mais.

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Jogadores do Palmeiras e árbitro antes do confronto contra o São Bento (Foto: Cesar Greco)

Para além disso, houve a informação, divulgada pelo Esporte News Mundo, de que as partidas só iriam acontecer, pois a FPF doou à cidade de Volta Redonda dez respiradores. A Federação, porém, explicou que os acontecimentos não estão interligados. Será mesmo? Fica a dúvida. E mais, por que a escolha pela cidade carioca, sendo que tantas outras em São Paulo, casa da entidade, sofrem do mesmo problema? O que importa é que as partidas aconteceram.

E não é só em São Paulo que o problema existe. No estado, sim, ele está em evidência, mas no país todo o futebol segue, inclusive a Copa do Brasil, que faz com que equipas pequenas viajem por distância inacreditáveis para jogar uma partida. É seguro também? Deveria ser, senão teria de ser paralisado. O Marília, porém, provou que não, dado que, após viajar mais de 2 mil quilómetros para enfrentar o Criciúma, a equipa paulista já contabilizou 18 casos positivos.

E assim segue o futebol em terras canarinhas. Federações fazendo tudo que podem para garantir a continuidade das competições. Mas a que custo? Dinheiro se recupera. Vidas não. Mas eles não entendem assim, precisam do capital. Os clubes têm surtos? Não tem problema, certamente são casos isolados, o esporte é seguro. Casos isolados em tantos times interligados. E a ganância e falta de humanidade seguem administrando o esporte brasileiro.

Já são mais de 300 mil. E contando…

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