A politização no futebol: vitória da Argentina divide adeptos no Brasil

Marcial CortezJulho 12, 20217min0

A politização no futebol: vitória da Argentina divide adeptos no Brasil

Marcial CortezJulho 12, 20217min0
A vitória da Argentina na Copa América, em pleno Maracanã, aumentou ainda mais o clima atual de polarização política no Brasil. Mas afinal, até que ponto devemos misturar política e futebol?

O filósofo Aristóteles certa vez disse, lá pelos anos 300 a.C., que “o Homem é um animal político”. No Brasil do Século XXI, esta frase é mais atual do que nunca. O país encontra-se completamente dividido e tudo é motivo para polarização. Na “terra brasilis”, ou você está do lado de cá, ou do lado de lá. O Brasil aboliu os tons de cinza e agora só existe o preto e o branco.

No futebol não é diferente. Conheço pessoas que deixaram de considerar como ídolos alguns ícones de seus times, simplesmente porque as declarações dos agora ex-herois não condizem com a mesma visão de seus admiradores.

Os casos mais emblemáticos são do ex-guarda-redes e, para alguns, ex-ídolo do Palmeiras, Marcos, campeão do mundo pela Seleção Brasileira em 2002. Suas declarações recentes nas redes sociais fizeram com que ele fosse acusado por muitos adeptos de ser machista e fascista, pelo fato de se manifestar a favor do Presidente Bolsonaro.

Alexandre, o Grande. Ivan, o Terrível. Neymar, o Patriota!

Outro caso mais recente é o de Neymar. O craque da Seleção acusou alguns adeptos de serem “não patriotas”, porque muitas pessoas reclamaram da realização da Copa América no Brasil nas redes sociais, no auge da curva pandêmica e com o país a atingir a infeliz marca de mais de quatro mil mortos por dia.

Neymar criticou brasileiros que torceram contra a Seleção. Foto: Evaristo SA / AFP

Neymar reclamou do fato de muitos brasileiros manifestarem sua torcida para a Argentina na final da Copa América. Estes cidadãos alegam que a camisola amarela não mais o representam, e sim a parcela do Brasil que apoia o atual presidente. Isso em parte é verdade. As manifestações de rua a favor de Bolsonaro são sempre lotadas de pessoas a utilizar a camisa da Seleção. No lado oposto ao Presidente, vestir a “amarelinha” tornou-se algo enfadonho e incômodo.

Mas o que leva o adepto da Seleção a não só não vestir mais a histórica camisa, como também a  chegar ao ponto de torcer contra a própria pátria numa final frente ao maior rival futebolista do continente?

A resposta não é simples. Tudo começa pela desorganização da CBF, que já cansamos de mostrar em vários textos de nossos colunistas. Eu me lembro de ter ido ao Maracanã ver um jogo da Seleção, lá pelos idos do início da década passada. Não havia UM jogador sequer que atuasse no Brasil. Todos os jogadores, titulares e reservas, atuavam na Europa ou em outros países fora de nossas fronteiras. Mal sabíamos o nome dos atletas. Era como se estivéssemos a assistir a um jogo de uma seleção qualquer, porque ninguém conhecia os jogadores.

Mas não é só esse fator que desperta o desinteresse do adepto brasileiro pela Seleção. Como bem observou o Filósofo, nós somos animais políticos e, como tais, estamos a ver os desmandos e a bagunça em que se encontra o Brasil nesse momento, não só com relação à desastrosa condução da pandemia, que permitiu a morte de mais de meio milhão de brasileiros, como também às igualmente desastrosas declarações de Bolsonaro a respeito dos mais variados assuntos.

O Presidente está acuado. Recente pesquisa mostra que mais da metade dos brasileiros o considera desonesto, falso, incompetente, despreparado, indeciso, autoritário e pouco inteligente. Em alguns desses adjetivos o descontentamento atinge 70% dos habitantes do país. Os restantes 30% que ainda o aceitam costumam ir às ruas mostrar seu apoio e para isso utilizam a camisola da Seleção.

A representação da histórica camisola do Brasil

Isso gerou um “ranço” pela camisa por parte daqueles que gostam de futebol e não querem ver a histórica camisola amarela ligada ao atual desgoverno do país. Há até alguns poucos movimentos a pedir a troca da camisa da Seleção, para desvinculá-la do bolsonarismo, mas a CBF não se manifestou a respeito. Fato é que muitos brasileiros já não conseguem mais vestir a amarelinha. Talvez, quando o pesadelo bolsonarista acabar, nós consigamos voltar a ter prazer em usar novamente a camisola do Brasil. Isso só o tempo vai mostrar.

Uso da camisola em manifestação política a favor de Bolsonaro. Foto: Roberto Sungi/Futura Press

Tudo isso culminou na polêmica da realização da Copa América no país, como vimos em nossos últimos artigos, e com o uso político do certame por parte do Governo. Muitos brasileiros decidiram torcer contra a Seleção, o que gerou reações em Neymar e outros jogadores. O time do Brasil reflete a situação do país, ou seja, na equipa temos jogadores e membros da Comissão Técnica a favor e contra o Governo. Enquanto Tite e os que não apoiam Bolsonaro são tachados de “comunistas”, Neymar e outros se manifestam a favor do Presidente, o que gera desconforto em grande parte dos adeptos.

A final da Copa América passou despercebida para grande parte da população por conta desse complexo cenário fora do relvado, aliado à proibição parcial de público nos estádios. A Rede Globo de Televisão não adquiriu os direitos de transmissão do torneio, o que também enfraqueceu o certame. O SBT do empresário Sílvio Santos, apoiador do Governo, foi quem o transmitiu. A Globo passou no dia seguinte a final da Eurocopa entre Itália e Inglaterra, que gerou muito mais interesse do que o jogo da própria Seleção Brasileira.

A internet revelou o mesmo resultado. No Brasil, o Google Trends revelou que o primeiro lugar nas pesquisas relacionadas a assuntos esportivos foi o Brasileirão. A Eurocopa apareceu em quarto lugar, bem à frente da Copa América, que ocupou o modesto 11o lugar, atrás de assuntos como Série B do Brasileiro e equipa de bola ao cesto do Palmeiras!

No relvado, o que se viu foi um Brasil lutador e uma Argentina bem postada tática e tecnicamente, que conseguiu aproveitar uma das poucas chances criadas ainda no primeiro tempo. Di Maria cravou 1-0 no placar e o Brasil não teve forças para buscar o empate e a vitória. Nos últimos minutos, Messi perdeu um gol incrível que poderia ter ampliado a conquista alvi-celeste.

A Argentina conquistou a Copa América 28 anos após sua última conquista, que ocorreu contra o México em 1993. Já o Brasil, que até então era o atual campeão, buscava a décima taça. A Seleção acumula mais um fracasso em seu próprio território, amargando o indigesto tabu que iniciou em 1950, na derrota contra o Uruguai na Copa do Mundo e culminou no vexame do 7-1 contra a Alemanha em 2014.

Parabéns aos argentinos, os legítimos Campeões da América do Sul!

Argentinos comemoram gol de Di Maria no Maracanã, na final da Copa América 21. Foto: Alexandre Schneider / Getty Images

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