“Underrated” ou simplesmente “esquecíveis”? – Ibson da Silva

Francisco IsaacAgosto 21, 20216min0

“Underrated” ou simplesmente “esquecíveis”? – Ibson da Silva

Francisco IsaacAgosto 21, 20216min0
Chegou a ser titular e deslumbrar no Dragão, mas acabou algo esquecido depois. Terá sido um jogador comum no FC Portou ou não?

Ibson da Silva, ou só Ibson, foi um dos médios que mais gostei de ver ao serviço do FC Porto, apesar de ter passado praticamente ao lado de uma carreira que poderia ter sido extraordinária, caso os astros se tivessem alinhado nesse sentido. Para os mais esquecidos, o brasileiro chegou ao Dragão após os dois anos de ouro baixo o comando de José Mourinho, acompanhado de Anderson, Diego, Ricardo Quaresma, Luís Fabiano, Thiago Silva (nunca jogou pela equipa principal, por mais estranho que pareça), Léo Lima, Pepe, Paulo Assunção e Rossato, sem falar do retorno de Hélder Postia após uma época não muito positiva pelo Tottenham, naquilo que parecia ser o esforço de, por um lado, reconstruir um plantel que tinha perdido alguns dos seus maiores activos, como de manter o domínio no campeonato nacional e continuar a ser uma potência na Europa, isto depois de ter conquistado a Liga dos Campeões.

Infelizmente, para Ibson e os restantes, a época de 2004/2005 foi um fracasso com só um título conquistado (sem contar com a Supertaça), a Taça Intercontinental, troféu que o brasileiro não participou porque só chegaria passado uns dias, no mercado de transferências de Inverno. Proveniente do Flamengo, o jovem médio foi contratado por 1,8M€ e tomou logo as rédeas do meio-campo azul-e-branco, somando 15 convocatórias em 16 possíveis, obtendo a titularidade logo após o seu 1º jogo, o que parecia anunciar algo de especial para a carreira de um jogador algo desconhecido dos adeptos do Velho Continente. Ibson era inteligência, mexia com os “cordelinhos” de jogo como poucos, ganhava os duelos não só pela arte física (não era um portento muscular, diga-se) mas por um poder de antecipação especial e que conferia confiança ao centro de jogo do FC Porto, um problema que nem Victor Fernandez ou José Couceiro conseguiram corrigir durante a passagem destes treinadores pelo clube da Invicta.

Tanto podia jogar como o médio mais recuado, a posição menos preferida do brasileiro, como tinha capricho para se apresentar no lugar do 8, gerindo a posse de bola e a coordenar as linhas-de-passe para assaltar a grande-área contrária ou meter “gelo” na intensidade ofensiva. Ou seja, Ibson parecia ter tudo à sua disposição para se afirmar como um dos titulares inabaláveis do FC Porto… porém, a chegada de Co Adriaanse e a agressividade táctica e de processos do holandês, para além de não dar grande espaço a segundas oportunidades (o caso Léo Lima por exemplo), acabou por iniciar uma bipolaridade da demonstração de qualidade do antigo médio do mengão. Relembrar que no Verão de 2005 chegou ao clube aquele que viria ser uma das maiores lendas do século XXI para o FC Porto: Lucho Gonzalez. Num plantel onde despontava Ibson, Raúl Meireles e Paulo Assunção, o ingresso do internacional argentino ia tornar a vida de tudo e de todos ainda mais difícil, sem falar de Jorginho, que tinha chegado em Janeiro passado, possuindo os dragões de um universo de opções de qualidade e requinte.

O sujeito analisado nesta rubrica começou até a época a titular, perdendo o seu lugar após uma derrota por 0-2 frente ao SL Benfica, em casa, passando a viver da rotatividade e das lesões que apareciam, optando o treinador holandês por Paulo Assunção, Raúl Meireles e Lucho Gonzalez no centro do terreno, e Jorginho já como um 10 atrás dos avançados, lembrando que Co Adriaanse gostava de ter os agentes do “miolo” a servir de falsos-extremos quando necessário. Mas Ibson tinha 22 anos, possuía o tempo necessário para se afirmar e voltar a ganhar o lugar, podendo até recomeçar do zero quando Jesualdo Ferreira foi anunciado como novo treinador dos campeões nacionais.

Contudo, todavia, mas, as conjugações que desejarem, o talentoso brasileiro com um perfil de vencedor, munido de dois pés bem calibrados e uma visão de jogo de fino quilate, voltou a sofrer do mesmo mal: bipolaridade. Começou no banco de suplentes no arranque da temporada, merecendo só a chamada ao relvado à passagem da 10ª jornada (tinha actuado 8 minutos na 2ª), mantendo essa utilização até à 21ª, desaparecendo mais uma vez da lista dos convocados. Dois factos valeram essa montanha-russa de jogar ou não jogar: lesões, como mialgias e pubalgias de esforço; e a lesão de Jorginho.

Jesualdo Ferreira viu-se obrigado a chamar Ibson, sem nunca oferecer aquela tranquilidade para que o médio voltasse a mostrar os seus melhores atributos de forma contínua e limpa, forçando assim um desgaste emocional que acabaria por significar uma saída prematura de Portugal logo após o fim da época de 2006/2007, com o Flamengo a conseguir o empréstimo do seu antigo atleta durante uma época, estendendo-se a duas (em 2009 foi campeão do Brasileirão pelo emblema do Rio de Janeiro). Em 2009 o contrato findou e saltou de Portugal para a Rússia, para passar ao serviço do Spartak de Moscovo, onde seria campeão russo logo na primeira temporada.

No decorrer da restante carreira, Ibson esteve em quase todos os principais clubes brasileiros, como o Corinthians (vencedor da Recopa, entrou aos 82 minutos) ou Santos, emigrando depois para o Bolonha da Serie A, e depois para o Minnesota United, atravessando o oceano Atlântico várias vezes, impondo sempre a mesma classe com a bola nos seus pés, apesar do físico e agressividade de atacar o adversário nunca mais ter sido a mesma em comparação com a sua primeira época no FC Porto.

Para a maioria dos adeptos portugueses, e principalmente os do FC Porto, este volante brasileiro de 1,78 passou ao lado da história do clube, com só 52 jogos somados em duas temporadas e meia, olvidando-se da expressão que Ibson conseguia dar ao meio-campo quando se sentia confiante, onde aquela riqueza de processos e leitura clarividente e suave permitia dar outra dimensão ao ataque e defesa de um clube que sempre apreciou boas unidades do centro de jogo. Duas exibições deste jogador moraram para sempre na memória daqueles que o seguiram com atenção: no empate a uma bola frente ao SL Benfica (jogou como falso extremo-direito durante um largo período do encontro) e a vitória por 2-0 ante o FC Boavista, criando uma combinação deliciosa com Lucho Gonzalez.


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