Os capitães de equipa: análise ao papel dos líderes no futebol pt.3

Fair PlayMaio 26, 202110min0

Os capitães de equipa: análise ao papel dos líderes no futebol pt.3

Fair PlayMaio 26, 202110min0
O ponto final nesta análise profunda ao papel dos capitães, recorrendo agora alguns dos casos mais emblemáticos do futebol mundial

Terceira e última parte dedicada ao papel dos capitães no futebol, depois de Paulo Meneses ter contado algumas histórias e experiências do seu passado enquanto treinador.

Ser Capitão

Ser capitão de equipa é a maior responsabilidade que um jogador pode ter. No entanto, a recompensa também é grande, o reconhecimento do seu mérito, da sua capacidade de liderança e, sobretudo, das suas qualidades que contribuem para que mereça a braçadeira de capitão.

Geralmente, os capitães são os homens fortes da equipa, os que possuem melhor sensatez e responsabilidade em campo. Devem ser homens de princípios e valores. E devem, na minha opinião, transmitir esses princípios e valores aos colegas. Os capitães de equipa são figuras que devem inspirar a todos os colegas e aqueles que detêm uma maior capacidade para tomar boas decisões, nos bons e maus momentos.

De seguida, apresentamos algumas das responsabilidades e funções que os capitães de equipa:

1. Decidem pelo grupo: Os capitães de equipa representam toda a equipa e possuem a responsabilidade de dar em a cara por todos e de tomarem decisões pelo grupo, sempre que necessário. Após ouvirem a opinião de todos, cabe-lhes sempre a tomada d decisão final e responsabilizarem-se pelas suas consequências.

2. São um exemplo para todos os elementos do plantel: Envergar a braçadeira da equipa é uma tarefa constante e diária, dentro e fora de campo. A conduta dos capitães devem ser irrepreensível, mesmo fora do balneário ou dos dias de jogos.
Têm a responsabilidade de manter e transmitir uma imagem de atletas empenhados e que fazem o necessário para manter a sua boa performance intelectual e desportiva. Não é comum ver os capitães em grandes noitadas, envolvidos em episódios de álcool ou drogas, pois têm de manter uma postura correta e seguirem um estilo de vida saudável para que seja um exemplo para os colegas.

3. Resolvem conflitos: Sempre que existam aversões ou rivalidades dentro do balneário, cabe aos capitães imporem a ordem. Possuem a responsabilidade de garantir o bom espírito de equipa e a camaradagem entre colegas. Sempre que se verifiquem um conflito deverão intervir e apelar ao entendimento de ambas as partes, para que as discussões, rivalidades ou egos não prejudiquem os restantes elementos do grupo.

4. Representam os colegas junto do treinador: Nem sempre é fácil a comunicação entre treinador e jogadores. Os capitães carregam a missão de apelar ao bom entendimento entre todos, ou seja, de ouvirem a opinião dos colegas e transmiti-la ao treinador e vice-versa. Estes representam o grupo, pelo que quando existem problemas de conduta entre os elementos da equipa, os capitães são os primeiros a ser chamado para abordar o colega problemático e conversar com ele.

Como só um capitão pode envergar a braçadeira de capitão, falaremos no singular nos pontos 5 e 6.

5. Representam os colegas junto do árbitro: Neste caso, nos dias de jogo, o capitão representa não só todo o grupo, mas também o grupo de capitães.
Em qualquer situação de jogo, o capitão é o representante do grupo. Tem a responsabilidade de conversar com o árbitro, onde irá defender a ação do colega ou reconhecer o seu erro. Quando ocorrem conflitos durante o jogo de futebol, o árbitro chama os envolvidos e os capitães das respetivas equipas têm a obrigação de acalmar os colegas ou de mediar junto do árbitro uma situação que considerem justa para a sua equipa.

6. Têm uma boa conduta em campo: Se o capitão de equipa cometer faltas, não respeitar o adversário, nem o árbitro e ainda cria conflitos durante o jogo, não é certamente um bom capitão. Este tem a responsabilidade de fazer exatamente o contrário, de promover um jogo limpo e de incentivar o fair-play.

7. Defende a equipa acima de tudo: Para o capitão, a sua equipa terá de estar acima de tudo. Este deve defender os colegas, promover o bom relacionamento entre todos e lutar pelos interesses de todos. Tem em mãos a responsabilidade de privilegiar o grupo e de reclamar qualquer situação que considera injusta para os colegas.

Muitas das vezes, os capitães de equipa são os “pais da equipa”, porque são eles que educam, também estão sempre disponíveis para ajudar a equipa e os colegas de forma individual – com questões desportivas e também pessoais.

No fundo, eles fazem de tudo para promover o bom trabalho e contribuir para um bom ambiente da equipa.

Mourinho e os capitães de equipa

José Mourinho fala nas diferenças entre capitão e líder. Para Mourinho, por exemplo Javier Zanetti, no Inter e John Terry, no Chelsea, eram exemplos de futebolistas que acumulavam ambos os atributos, eram capitães e lideres.

Também refere que no FC Porto, Jorge Costa, também era capitão e líder.

E conta que, “um dia estávamos a perder por 2-0 com o Belenenses ao intervalo, eu ia para o balneário e todos podiam ver que eu estava a fumegar. E o Jorge disse: ‘Espera dois minutos aí fora, por favor.’ Ele entrou, fechou a porta e fez o trabalho sujo por mim. Depois abriu a porta e disse: ‘Orienta-nos.’ Ele fez tudo o que eu iria fazer”, lembrou José Mourinho.

Acrescenta ainda que, Jorge Costa “era central, nunca marcava golos e marcou dois nesse jogo. Há uma grande diferença entre capitão e líder, não compras líderes, não crias líderes. Quando os tens, a tua equipa está um passo à frente, mas o futebol hoje está cheio de imagem e as pessoas dão mais atenção aos que parecem do que aos que são”, acrescentou Mourinho.

Além de Jorge Costa, ainda se referiu a Vitor Baía:

”Não é por estarem aqui os dois [Jorge Costa e Vítor Baía], porque falo com o presidente há muitos anos, mas é cada vez mais difícil ter um verdadeiro capitão de equipa”, disse Mourinho. “E nessa equipa, além do presidente, que era o que era e é o que é, tivemos dois verdadeiros capitães. Obrigado pelos elogios, aceito alguns, porque senti que também tive algumas responsabilidades na forma de ser da equipa, mas era fácil ser treinador tendo dois capitães como vocês na equipa. Éramos uma máquina”.

José Mourinho ainda refere, ”Tive capitães que não eram líderes. As pessoas olham para a braçadeira e pensam: este homem é o líder. Não. Muitas vezes o capitão não é o líder”, sustentou.

Alex Ferguson e os capitães de equipa

“Por mais que tentasse desenvolver as minhas capacidades de liderança e por mais que tentasse influenciar cada aspecto do sucesso do United em campo, assim que a bola começava a rolar, as coisas deixavam de estar sob o meu controlo. No campo, o responsável por garantir que os 11 jogadores agem como uma equipa, é o capitão.”

É o capitão que levanta o troféu – mas eu só queria um líder, ao invés de alguém que ficasse bem na fotografia. Ele é a pessoa responsável por garantir que os objectivos da organização são cumpridos. Cada capitão tem a sua maneira de liderar, podem apresentar traços de personalidade muito diferentes. Quando eu selecionava o capitão, eu procurava 4 virtudes principais:

1- Vontade de liderar em campo
2 – Queria alguém capaz de transmitir os meus desejos
3 – Queria uma pessoa que os outros jogadores respeitassem como líder e cujas instruções seguissem
4 – Também queria capitães capazes de se adaptarem a circunstâncias em constante mudança.

Como vamos ver de seguida, ao longo de tantos anos à frente do Manchester United, Alex Ferguson escolhia os capitães, independentemente da sua posição em campo:

“Bryan Robson – Não havia outro jogador que se equiparasse à sua determinação e garra ou à capacidade de avaliar um jogo. Era um capitão perfeito, que correspondia a todos os meus critérios. Confiava nele quando fazia ajustes nas posições durante o jogo; também era alguém que dizia o que lhe ia na alma – algo que eu valorizava muito.”

Roy Keane – homem cuja intensidade intimidava os colegas de equipa, mas era um grande líder em campo.”

“Peter Schmeichel – Não era só uma presença massiva, como também era capaz de transmitir a sua confiança e entusiasmo por todo o campo.”

“Entre jogos, muitas vezes solicitava a opinião dos meus capitães, mas todos sempre entenderam que era eu quem tomava a decisão final. (…) falava frequentemente com os capitães e com outros jogadores seniores sobre a maneira de abordar um adversário. Passei algum tempo a falar com o Peter Schmeichel e o Eric Cantona, para saber como deveríamos lidar com o Steve McManaman. Eric Cantona sugeriu que devíamos recuar o Roy Keane para controlar o McManaman na Final da Taça de Inglaterra contra o Liverpool. O seu conselho foi crucial, vencemos o jogo por 1-0. Não me importei que a ideia fosse dele e não de um elemento da equipa técnica ou minha. Fazia todo o sentido, nada mais. Eu não andava à procura de glória pessoal, nem queria ser a fonte da sabedoria. Só queria que a equipa vencesse.”

Conclusão

Finalizando este artigo, podemos afirmar que a questão de uma relação emocional, de uma liderança emocional ganha outros contornos e ganha importância entre treinador – capitães de equipa. Porque, considero que para haver uma influência positiva na equipa, tem que se começar pelo ambiente positivo que o líder tem que criar.

Vimos também que, para motivar uma equipa, muitas vezes deve-se primeiramente, motivar os capitães, trazê-los para o processo, fazê-los sentir importantes e participes do projecto. No fundo, se queremos obter altos resultados através da superação individual e colectiva, temos que liderar, para liderar com eficiência, devemos criar lideres dentro do grupo.

Mas também, e como vimos durante do artigo, há capitães que, pelas suas características, têm essa capacidade de iniciativa e esse dom de motivar a equipa, de não deixar cair em desanimo os colegas, ou seja, muitas vezes fazem o trabalho dos treinadores. E porque não falar, de quando são os capitães que continuam a apoiar e a motivar o treinador, principalmente quando as coisas não correm tão bem.

 


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