Andebol: Formar a ganhar ou formar para ganhar?

Nortberto CordeiroJunho 6, 20223min0

Andebol: Formar a ganhar ou formar para ganhar?

Nortberto CordeiroJunho 6, 20223min0
É uma pergunta delicada mas que tem de dar em debate para se apurar o melhor caminho do atleta do futebol, andebol, voleibol ou outra modalidade

É possivelmente um dos temas mais importantes e polémicos na formação, seja no andebol, futebol, hóquei em patins, ou qualquer outra modalidade. Por mais que, na teoria, muitos treinadores/formadores afirmem que não são adeptos da “campeonite”, a verdade é que, na prática, o que se constata semana após semana é o contrário. Continuamos a assistir, nos escalões mais jovens, miúdos que não participam no jogo com vista no resultado ou, para isso não acontecer com determinado adversário, assistimos a convocatórias curtas, que incluem apenas os melhores jogadores.

Podemos também falar das defesas fechadas, das equipas em que apenas “um atleta joga”, ou sobre “obrigar” o jogador adversário rematar porque é mais “fraco”, etc. Infelizmente temos um conjunto de situações em que a única coisa que importa ao treinador/formador é ganhar, mesmo que isso custe a desistência de muitos atletas da modalidade.

Mas será apenas culpa do treinador? Muitas das vezes não. Existe uma certa pressão por parte de alguns dirigentes dos clubes para ganhar, alguns pais também o fazem – certamente que os pais não deveriam ter influência efetiva – ou por uma ausência de um projeto/ideia do clube para o que quer no futuro. A Federação de Andebol de Portugal tem tentando sensibilizar os treinadores/formadores para várias situações relacionadas com a “campeonite”, infelizmente sem grande sucesso.

Na minha opinião, só com um conjunto de regras pedagógicas as coisas podem mudar. Por exemplo, a obrigatoriedade de jogarem todos os atletas um período mínimo de tempo (sei que não é fácil de controlar mas já seria uma forma de passar a mensagem a todos os envolvidos); usar determinada defesa na 1ª parte e na 2ª parte ser uma decisão livre; multiplicar o número de golos pelo número de jogadores utilizados, etc. São apenas algumas ideias, certamente mais se poderia fazer.

A única preocupação que o clube e treinadores/formadores devem ter nestes escalões de formação, é se o escalão corresponde às necessidades do potencial físico e/ou técnico do jovem atleta. Defendo que um atleta que marca por exemplo 15 golos por jogo num determinado escalão não está no escalão correto. O atleta deve sentir dificuldades para ser obrigado a encontrar outros recursos, que não necessita no escalão onde facilmente ultrapassa os seus adversários. Devemos adaptar o escalão ao atleta pelo seu potencial e não pela sua idade, mesmo que isso implique ele jogar dois escalões acima. A preocupação deve ser formar para ganhar no futuro, isso não significa que ganhar na formação esteja incorreto, apenas deve haver sensibilidade por parte dos clubes e treinadores/formadores para que ganhar não seja o principal ou o único motivo para o jogo.

É aqui que considero fundamental o papel do coordenador do clube, deve ser ele, em conjunto com os treinadores, que deve estabelecer as directrizes e objetivos de cada escalão. Se queremos formar mais “Kikos” não podemos olhar para o resultado no marcador, mas sim para o atleta. É com a base que se cria em baixo, nos escalões mais jovens, que vamos atingir o potencial máximo de cada atleta e com isso poder ganhar no futuro. Se queremos um andebol com futuro, temos de mudar a nossa mentalidade enquanto formadores. Inclusive na partilha de ideias, exercícios, treinos, jogos, etc. Não acredito em fórmulas perfeitas, mas se não procurarmos a perfeição, jamais vamos atingir a excelência.


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