Reconstruir, formar e ganhar: as bases de um novo Sporting CP feminino

Margarida BartolomeuSetembro 28, 20217min0

Reconstruir, formar e ganhar: as bases de um novo Sporting CP feminino

Margarida BartolomeuSetembro 28, 20217min0
A vitória por 5-1 do Sporting CP sobre o SL Benfica animou os adeptos e Mariana Cabral parece estar no caminho certo do refazer das "leoas"

Após a forma como terminou a época 2020/2021, com a derrota da equipa leonina, em Alvalade, contra as eternas rivais do Benfica, que impediu a (re) conquista do título de campeã nacional, e dada a “razia” que se registou na estrutura do Futebol Feminino do Sporting, com a saída da equipa técnica, diretora do Futebol Feminino e de 11 jogadoras, nada fazia esperar este arranque de temporada. Mas a verdade é que, em 3 jogos, as leoas somam 3 vitórias (duas delas contra as águias), e um título conquistado, a Supertaça. Mas o que será que mudou neste Sporting?

Bem, na minha modesta opinião, mudou tudo e, ao mesmo tempo, não mudou nada! E digo isto porque continuo a sentir que existe alguma falta de profissionalismo na forma como a estrutura diretiva do Sporting age no que às equipas de Futebol Feminino diz respeito. Continua a existir uma enorme falta de comunicação e transparência, alguma dela justificada pela Mister Mariana, após o jogo da Supertaça, uma preocupante falta de iniciativas que aproximem os adeptos da equipa (da equipa sénior, neste caso), muito embora o apoio às jogadoras seja constante, tal como ficou comprovado no dérbi do passado domingo. Mas, vamos focar-nos no que mudou.

As alterações na estrutura foram óbvias. Após o “fracasso” que foram as duas últimas épocas, deu-se uma mudança profunda na estrutura do Futebol Feminino do Sporting, que atingiu não só a equipa técnica, com a saída da Professora Susana Cova, da treinadora adjunta Joana Tilly, e praticamente todo o (pouco) staff técnico que as acompanhava, incluindo a diretora do Futebol Feminino, Maria João Xavier, como também as próprias jogadoras que, por uma razão ou por outra, acabaram por deixar a equipa.

Não falamos de 3 ou 4 jogadoras, mas sim de 11 (!) atletas do plantel principal, algumas delas peças chave na equipa, tais como Inês Pereira, Nevena Damjanovic, Tatiana Pinto ou Raquel Fernandes, entre outras. Qualquer equipa que perca 11 jogadoras no final de uma temporada, tem, à partida, um trabalho mais complexo na preparação da época seguinte, pois é obrigada a reconstruir um plantel, a criar novas dinâmicas entre jogadoras, novos laços, novas rotinas, e um novo sentimento grupal, daquilo que é a equipa, o clube e o ADN Sporting.

Mas foi aqui que o clube foi inteligente, sabendo em quem apostar para assumir o comando da equipa. Falamos de Mariana Cabral, jovem treinadora, e ex-jogadora do histórico 1º de Dezembro, que pertence à estrutura do Futebol Feminino do Sporting desde que o clube reativou a modalidade, em 2016, acumulando a função de treinadora e coordenadora da formação feminina. O nome mais consensual entre os adeptos, que há muito pediam a sua promoção para a equipa sénior. Além disso, a Mister Mariana fez-se acompanhar da maior e mais competente equipa técnica que me lembro de ver ligada à equipa sénior das leoas. Jovens, competentes, ambiciosos, e muito conhecedores do ADN Sporting, são alguns dos adjetivos que melhor os caracterizam.

O facto de a Mister Mariana ser um nome extremamente consensual dentro do universo leonino (estrutura e adeptos), deixa a equipa técnica pressionada para “apresentar resultados”, mas, ao mesmo tempo, mais à vontade, pois o facto de existir um maior apoio por parte dos adeptos traduz-se também (esperamos) numa maior aceitação dos momentos menos positivos que, certamente, existirão, pois estes fazem parte do desporto e da vida.

Esta aposta na “prata da casa” serviu também de boost motivacional e anímico para as jovens jogadoras do Sporting, quer as que já faziam parte do plantel principal, quer as jovens que ambicionavam a transição da equipa B para as seniores, pois todas estavam conscientes de que, na liderança da equipa principal, se encontrava uma equipa técnica totalmente conhecedora dos valores emergentes das camadas jovens, e que não tinha receio de assumir a aposta na juventude, tal como acontece na equipa masculina.

A verdade é que também a Professora Susana lançou e apostou em várias jogadoras da formação, isso não está em causa. Mas a verdade é que, sabendo de antemão que a capacidade de investimento do clube seria reduzida, e tendo consciência do espaço deixado pelas jogadoras que “abandonaram” o mesmo, as jovens leoas sabiam que a aposta nesta equipa técnica representava também uma oportunidade para lutarem pelo seu espaço na equipa principal. E esta consciencialização trouxe, a meu ver, um maior espírito de entrega de todas as jogadoras para com o projeto, notório durante toda a pré-época, dada a forma aguerrida e unida como abordaram o jogo da Supertaça.

A juventude da equipa técnica também me parece ser um fator determinante para o seu sucesso, pois não existe aquele “buraco” geracional, o que leva a uma maior proximidade emocional entre as jogadoras e os treinadores, uma maior compreensão mútua, que levam a uma maior facilidade para respeitar as decisões tomadas.

A nível de contratações, o Sporting foi cirúrgico e, embora o plantel ainda possa parecer algo curto em termos de qualidade, soube reforçar-se muito bem. Uma guarda redes muito experiente, mas ainda jovem, uma central imponente e experiente, uma média diferenciada, extremamente dotada técnica e taticamente, uma jovem talento emergente no futebol português, proveniente de um dos maiores rivais, uma das maiores figuras da Liga BPI da época passada, e uma jovem promessa chinesa, foram as contratações para 2021/2022, às quais se somaram diversas jogadoras da formação. Uma mescla de juventude e experiência, unida à volta de uma ideia, de um projeto, do ADN Sporting!

A capacidade de rápida integração das jogadoras contratadas, e a unificação do grupo em torno dos ideais do clube, sempre muito promovido pela equipa técnica, juntamente com a saída de alguns egos que pareciam condicionar a equipa, parece-me estar a ser determinante para o sucesso imediato do “novo” projeto. “Grandes jogadores ganham jogos, mas grandes equipas ganham campeonatos”. Não sei se esta equipa será campeã nacional, mas estou certa que este sentimento de união, pertença e entrega será determinante para o seu sucesso, mesmo que este não implique a conquista do campeonato. Sim, porque muito embora em alta competição, o sucesso seja medido pela quantidade de troféus conquistados, todos sabemos que existem muitas formas de vencer que são, muitas vezes, “mais” importantes do que qualquer troféu.

Por outro lado, o facto de as jogadoras estarem conscientes de que os adeptos apoiam a escolha da equipa técnica, contrariamente ao que aconteceu nos últimos dois anos, é um fator que potencializa a autoconfiança das mesmas, pois estas sentem que a tolerância ao erro, aos resultados menos positivos que possam surgir, é superior. Isso retira-lhes pressão e permite-lhes disfrutar do futebol que praticam, o que lhes permite potenciar toda a sua qualidade. A alegria que demonstram enquanto estão em campo é um reflexo desse clima positivo que se faz sentir, e que é transmitido desde as bancadas.

A equipa do Sporting encontra-se assim consciente de que esta é uma nova fase do projeto, uma fase de reestruturação, de “recomeço”, e sabe que também os adeptos estão cientes desta nova fase, desta nova realidade, o que lhes permite jogar sem a pressão acrescida que sentiam na época transata, e que acabou por ser um fator que condicionou o seu sucesso. Embora no Sporting se jogue “sempre para ganhar”, a verdade é que a vitória e a derrota fazem parte da vida.

O importante é que todos os adeptos, jogadoras, equipa técnica e estrutura diretiva, remem no mesmo sentido e isso parece, neste momento, estar a acontecer. Se se manterá? Só o futuro o dirá. Mas a verdade é que este grupo parece estar a reencontrar a alegria de jogar futebol e, quando somos felizes no nosso trabalho, o sucesso está apenas a um pequeno passo de distância.

Se algo mudou no Sporting? Mudou! Se é essa a receita para o sucesso? Não sei. Mas estou certa que toda a estrutura do Futebol Feminino do Sporting irá remar no mesmo sentido e lutar, com “unhas e dentes”, pela vitória em todos os jogos. É sempre “jogo a jogo”, de “3 em 3 a somar”!


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter