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Marcial CortezJunho 8, 20206min0

Com edições anuais desde 1973, o Estado do Amazonas realiza o “Peladão”: um campeonato de futebol surreal, no qual um concurso de beleza pode decidir o resultado. Conheça um pouco mais sobre este sensacional torneio.

O Dicionário da Língua Portuguesa define pelada como “partida de futebol praticada por amadores num campo improvisado”. Guardem essa informação. Agora imagine um campeonato gigantesco, que na última edição envolveu 700 equipas, mas já chegou a contar com mais de 1200 times. Este é o Campeonato de Peladas do Amazonas, nome oficial do popular Peladão, o maior torneio de futebol amador do país, que extrapolou todas as fronteiras do esporte-rei.

Organizar um certame com 700 ou mais equipas não é uma tarefa fácil. Então vamos explicar melhor como tudo isso funciona. O Peladão é dividido em categorias, a saber:

  • Principal, subdividido em masculino, indígena, feminino e homossexual;
  • Master, para atletas acima de 40 anos (masculino);
  • Peladinho, para garotos de 12 a 14 anos (masculino);
  • Rainhas, subdividido em mulheres e transgêneros. O Peladão costuma ditar as tendências, pois o seu torneio feminino já teve mais atletas inscritas do que a própria Copa do Brasil, torneio profissional oficial da CBF. O Concurso das Rainhas trans e a categoria Principal Homossexual também é uma inovação do Peladão a favor da diversidade.

Cada equipa do Principal Masculino, para participar do torneio, tem que apresentar uma candidata a rainha, que pelas regras precisa ser uma rapariga acima de 18 anos. E cada equipa do Principal Homossexual também deve registrar a sua rainha, que neste caso tem que ser um transgênero acima de 18 anos. Esse detalhe pode parecer estranho, mas por incrível que pareça, isso pode definir o campeonato.

Candidatas ao título de Rainha do Peladão, que leva sua equipa às eliminatórias finais Foto: Márcio Azevedo

As equipas são divididas em grupos e subgrupos com fases variáveis de classificação. Ao final, classificam-se 15 equipas para as disputas finais. Enquanto a bola rola no relvado, o Concurso de Beleza das Rainhas corre em paralelo, com fases eliminatórias semelhantes às dos concursos de Miss Universo. Selecionam-se as 16 raparigas mais bonitas, e inicia-se então um reality show, o Peladão a Bordo – programa no estilo Big Brother gravado num barco a navegar pelo Rio Negro, para definir a Campeã, que ganha o título de Rainha do Peladão.

A Rainha do Peladão leva sua equipa para a fase final da competição, independente do resultado no relvado. Ou seja, uma equipa pode ser previamente eliminada na bola, mas a Rainha pode salvá-la e levá-la para a fase final. Em várias edições do torneio, a equipa campeã chegou às finais pelo salvamento da Rainha.

Os concursos de beleza são válidos somente para as categorias Principal Masculino e Principal Homossexual, no qual concorrem os transgêneros. Em edições passadas, também ocorreram concursos na categoria Indígena, mas atualmente eles não são mais realizados.

Além disso, o Peladão conta com um Código Disciplinar próprio para definir questões jurídicas entre as equipas. Há um Livro Negro (em tempo – o colunista não concorda com este nome, mas é a forma como o Regulamento da Competição o define, infelizmente), que praticamente resolve todas as questões jurídicas envolvidas no Campeonato. E o Livro Negro não define apenas os problemas futebolísticos, mas também as regras relacionadas ao Concurso das Rainhas. Por exemplo, uma rapariga não pode encontrar o namorado ou mesmo seus familiares durante a competição. Se isso acontecer, o nome dela vai para o Livro Negro e a equipa é eliminada no futebol. A inclusão do nome no Livro Negro é uma penalidade temida por todos no Peladão, porque impede a participação do atleta  e/ou da candidata a Rainha nas edições futuras.

Definidas então as 16 equipas (15 jogando bola e uma levada pela Rainha), o Peladão entra na Fase Final, com chaveamento clássico de oitavas, quartas, meias finais e finais, até sair o Campeão, que leva como prêmio a Taça e um carro zero quilômetro. A Rainha ganha um prêmio no valor de 30 mil reais (cerca de 5.300 Euros).

Como se tudo isso não bastasse, o Peladão tem página no Facebook (https://www.facebook.com/peladaoacritica) e  cobertura completa da TV. A emissora A Crítica é quem organiza o futebol, o concurso da rainha, o reality show e tudo o que envolve o torneio. A TV A Crítica é a principal emissora de TV do Amazonas, e tornou-se nacionalmente conhecida por conta de um de seus âncoras jornalísticos, o folclórico Sikêra Junior, que graças ao grande sucesso assinou com a Rede TV! para ter seu jornal sensacionalista em abrangência nacional.

Os números impressionam e as regras são rígidas: são mais de 20 mil atletas inscritos, cerca de 3 mil partidas, 500 a 1000 equipas na disputa. O número de participantes só é conhecido no dia da abertura do Torneio. O Regulamento da Comissão Disciplinar elimina a equipa que não apresentar sua candidata à Rainha na festa de abertura da competição. Na última edição, 102 equipas foram eliminadas nesse quesito. Os jogos tem duração de 50 minutos, divididos em dois tempos de 25 minutos, e não existe impedimento!

O sucesso do certame inspirou Estados vizinhos a fazer o mesmo. Mato Grosso também tem o seu Peladão, porém não com a mesma força e fama que o pioneiro amazonense, apesar dos prêmios serem mais volumosos. O Peladão mato-grossense paga 180 mil reais para o campeão (cerca de 32 mil euros).

Manaus, capital do Amazonas, tem pouco mais de um milhão e meio de habitantes. O Peladão movimenta bastante a população e a economia do local. O Estado tem equipas profissionais de pouca expressão, como o Nacional, o Rio Negro e o Fast, que disputam (quando disputam) as séries inferiores do Campeonato Brasileiro. Assim, as equipas amadoras fazem  mais sucesso que as profissionais. A última final do Peladão contou com um público de cerca de 40 mil pessoas, maior que a soma de todos os públicos de todos os jogos das equipas profissionais na época. As finais de todas as categorias do Peladão ocorrem no mesmo dia.

Na finalíssima da época 17/18, por exemplo, a decisão foi para os pênaltis. O Cidade Nova venceu o Alvorada pelo placar de 17 a 16, numa sequência interminável de cobranças:

Agora repare bem na imagem acima e compare com o que diz o dicionário: “partida de futebol praticada por amadores num campo improvisado”. Isso é parcialmente verdade quando nos referimos ao Peladão: as finais são realizadas na Arena Amazônia, estádio padrão FIFA construído para a Copa do Mundo de 2014. O mesmo ocorre com seu homônimo no Mato Grosso, cujas finais ocorrem na Arena Pantanal, outro local que foi usado na Copa.

Como se vê, a definição do Dicionário precisa ser revista. É o Peladão a ditar as tendências novamente…

 

 

 

 

 


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