Marcial Cortez, Author at Fair Play - Página 2 de 2

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Marcial CortezAbril 20, 20206min2

A interrupção do futebol no Brasil, ocorrida no mês de março passado, impediu e/ou adiou a realização da partida entre Palmeiras e Corinthians, o maior clássico do país.

E nesse ponto, você deve estar a perguntar a si mesmo: como assim, o maior clássico do Brasil? Alguns dias atrás esta mesma coluna dizia que o Grenal era o maior clássico tupiniquim, um jogo tão importante que até patrocinadores conhecidos no mundo todo haviam trocado as cores de seus produtos para agradar às equipas e seus adeptos, e agora o colunista muda de opinião e diz que o maior clássico brasileiro é Palmeiras x Corinthians?

Pois é, vamos explicar detalhadamente esta questão para não deixar dúvidas. Começaremos com a definição de alguns pontos. O primeiro deles é a rivalidade. Para um clássico ser grande, é fundamental que exista rivalidade entre os adversários. E o Brasil, por suas dimensões continentais, apresenta muita rivalidade regional. E aqui já abordamos outro ponto: um grande clássico precisa de regionalidade. Porque é no âmbito regional que surge a rivalidade. É no âmbito regional que as equipas se enfrentam todos os anos, é no âmbito regional que o desejo de vingança cresce após uma derrota. Assim, não vamos falar das rivalidades inter-regionais, que existem, mas são efêmeras e transitórias. Já tivemos as épocas de ouro de Grêmio X Palmeiras, São Paulo X Cruzeiro, Flamengo X Atlético, Santos X Botafogo, Corinthians X Vasco e assim por diante.

Vamos focar na rivalidade entre vizinhos, e os exemplos são inúmeros: Remo e Paysandu, em Belém do Pará; Moto Clube e Sampaio Correa, no Maranhão; Ceará e Fortaleza, no Ceará; Bahia e Vitória, na Bahia; Coritiba e Athletico, no Paraná; e os mais conhecidos Cruzeiro e Atlético, em Minas Gerais, e Grêmio e Internacional, no Rio Grande do Sul. Em todos estes locais, a rivalidade é concentrada em duas equipas.

Maiores Clássicos do Brasil. Arte: GloboEsporte.com

Existem três Estados, no entanto, em que há mais de duas equipas com importância histórica: São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco. Nestes locais, temos várias rivalidades regionais diluídas entre os grandes clubes. Isso faz com que a briga citada nos primeiros Estados, por estar concentrada em somente duas equipas, a torne mais forte do que nos três últimos em que temos mais de duas equipas importantes na disputa. Em outras palavras, a rivalidade nos Estados em que há apenas duas equipas na briga é maior do que nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco.

Ora, então como Palmeiras x Corinthians pode ser o maior clássico do Brasil se não é a maior rivalidade do Brasil? Essa pode parecer a “pergunta do milhão”, mas é mais fácil de responder do que se imagina. Para ser o maior clássico do país, não basta ter uma grande rivalidade. Guarani e Ponte Preta, por exemplo, são clubes que não se suportam, são rivais extremos. No entanto, nenhuma das equipas tem repercussão nacional, e aqui entra o terceiro ponto importante para determinarmos o maior clássico do país: a repercussão. As equipas de Pernambuco não repercutem nacionalmente como as do Rio e São Paulo. Sendo assim, para determinar definitivamente qual o maior clássico do país, vamos focar nos dois principais Estados: Rio de Janeiro e São Paulo.

No Rio, o clássico entre Flamengo e Fluminense já ocupou o cargo de maior clássico do Brasil por muitos anos. Havia (e ainda há) rivalidade, regionalidade e repercussão nacional. Em muitas situações, utilizamos a expressão “Fla-Flu” para designar um embate entre duas forças antagônicas. Porém, aqui entra o quarto ponto importante para cravarmos nossa afirmação: a regularidade, ou seja, um clássico para ser grande tem que ser importante em qualquer época, em qualquer
momento da História dos clubes. E foi justamente nesse quesito que o Fla-Flu perdeu a força e o título de maior clássico do país. No final do século XX e início do XXI, o clássico Flamengo e Vasco superou o Fla-Flu, e hoje em dia é o principal clássico carioca. Peço aos adeptos que me perdoem, mas Flamengo e Vasco hoje é maior do que o Fla-Flu.

Vimos então que, para ser o maior clássico do país, o jogo precisa ter o que eu chamo de “os quatro erres” – Rivalidade, Regionalidade, Repercussão e Regularidade. O clássico que preenche completa e totalmente TODOS esses requisitos, sem dúvida, é Palmeiras x Corinthians, o maior clássico do Brasil.

O clássico é tão importante que possui algumas marcas históricas:
Já serviu para salvar o São Paulo da falência iminente, no que ficou conhecido como “Jogo das Barricas” em 1938;
Já serviu para apoiar o Partido Comunista Brasileiro em 1945, fato que virou livro (¨Palmeiras x Corinthians 1945 – o Jogo Vermelho¨, escrito por Aldo Rebelo);
Já foi citado no filme “Boleiros”, em 1998;
Já virou filme, “O Casamento de Romeu e Julieta”, em 2005, com Luana Piovani no papel principal. O filme foi distribuído não só no Brasil, mas em vários países do mundo.
Já definiu vários campeonatos paulistas, torneios Rio-São Paulo, dois campeonatos brasileiros e até mesmo um dos finalistas da Copa Libertadores da América em 1999.

O Casamento de Romeu e Julieta em versão alemã. Foto: Trigon-Film

Em 2020 as equipas vivem situações completamente opostas: enquanto o Palmeiras está em paz com seu técnico e com seus adeptos, precisando apenas de um ponto para se classificar às fases finais do Campeonato Paulista, seu rival Corinthians vê a vaga para os jogos decisivos cada vez mais distante, e está a correr inclusive o risco de ser rebaixado à segunda divisão do certame.

A interrupção do campeonato por conta da pandemia de Covid-19 ocorreu às vésperas da partida, portanto quando tudo isso acabar este será o primeiro jogo a ser disputado por eles. Será mais uma marca histórica do clássico mais importante das terras canarinhas.

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Marcial CortezAbril 8, 20203min0

Apesar do futebol estar parado em quase todo o planeta, a IFAB (International Football Association Board) continua seu trabalho a todo vapor. Na última terça feira, foram publicadas as novas regras da entidade, definidas no evento 134th Annual General Meeting realizado em Belfast, na Irlanda do Norte, na última semana de fevereiro, e que passarão a valer a partir do dia 01 de junho em todo o mundo. Vamos comentar as principais mudanças:

1. Nas cobranças de penalidades, os cartões amarelos e vermelhos aplicados durante o tempo normal e a prorrogação não serão considerados.

Aqui começa a primeira polêmica: então um jogador que eventualmente tenha sido expulso durante a partida poderá ser relacionado para bater uma cobrança na hora da definição por penalidades? Você considera isto justo? Imagine um jogador que tenha cometido uma agressão grave no decorrer do jogo e tenha sido punido por esta ação. Este jogador poderia se tornar um heroi nesta mesma partida, ao definir um eventual último pênalti decisivo.

2. Num pênalti, caso o guarda redes tenha se adiantado antes da cobrança e a bola bata na trave ou saia pra fora, a cobrança será validada. Somente se repetirá a cobrança se a bola tocar no guarda redes.

Outra polêmica. Sabendo dessa regra, os guarda redes poderão se adiantar à vontade para atrapalhar o batedor. Se eles não tocarem na bola e ela não entrar, isso vai favorecer a defesa. Ora, se o objetivo do futebol é o golo, essa regra tem tudo para não dar certo.

3. Infração por mão: o limite superior do braço coincide com o ponto mais baixo da axila. Ou seja, a região da manga curta da camisola é considerada válida. A IFAB cita como limite ¨o fim da manga da camisola¨.

IFAB considera manga da camisola como limite para validar mão na bola. Foto: Marcio Alves / Agencia O Globo

Essa regra, certamente, é a que mais vai causar problemas. Fabricantes diferentes confeccionam camisolas distintas. O comprimento de uma manga é diferente do comprimento da outra. Ora, como farão a definição do que é mão e o que não é mão? O VAR vai decidir? E se a camisola do fabricante X tiver a manga mais comprida que o fabricante Y? Aquela bola de lançamento longo que normalmente é matada no peito, poderá ter um ¨pequeno auxílio¨ do antebraço para o jogador fazer o domínio? Desde que a parte do antebraço esteja coberta pela camisola, a regra nova diz que isso será válido. Essa alteração poderá mudar radicalmente a forma com que o futebol é jogado atualmente.

 

Além destas regras, outras mudanças estão a ser estudadas pelo IFAB, entre elas a alteração da forma de medição do tempo de jogo, com paralisação do cronômetro em algumas situações, entre outras. Como se vê, o futebol está em constante evolução, mas nem sempre as regras mudam para melhor.

Vamos aguardar a bola rolar na relva para ver como estas mudanças ocorrerão na prática.

 

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Marcial CortezMarço 20, 20205min0

Hoje vamos falar de uma inusitada experiência que tive recentemente, quando pude assistir ao vivo um dos clássicos mais enigmáticos e emocionantes do futebol sul-americano: Racing X Independiente.

Nestes tempos de reclusão, quarentena e suspensão do futebol, nada como relembrar grandes histórias envolvendo este esporte que movimenta as multidões.

Quando se fala em Argentina, imediatamente o jogo entre Boca e River vem às nossas cabeças. Sim, é verdade, estamos a falar de um clássico gigantesco, que até já decidiu a Libertadores em terras europeias. No entanto, Boca x River não é o único clássico argentino. Há muito mais jogos interessantes nas terras portenhas do que sonha a vossa vã filosofia.

Racing x Independiente é um deles. A rivalidade começa na localização geográfica. Avellaneda, uma pequena cidade da região metropolitana de Buenos Aires, tem pouco mais de 30 mil habitantes, que se dividem em adeptos do Independiente (El Rojo) e do Racing Club (La Academia). Os dois estádios ficam a poucos metros de distância e a cidade respira futebol. No entorno das arenas, vários bares e restaurantes ficam lotados nos dias de jogos, que assim como nas principais cidades brasileiras, também contam com claque única (por questões de segurança, quando o jogo é no estádio do Racing, somente os adeptos do Racing o assistem, e vice-versa).

O estádio do Racing, conhecido como ¨El Cilindro¨, tem capacidade para 51 mil adeptos que lotam a arena em todas as partidas. É uma claque extremamente apaixonada pelo clube e conta com uma banda musical chamada ¨La Guardia Imperial¨, que comanda todos os cantos durante os jogos. No link https://www.letras.mus.br/la-guardia-imperial é possivel conhecer e ouvir os gritos de guerra e as letras dos coros dos adeptos do Racing.

E aqui começamos a fazer um paralelo entre as claques no Brasil e na Argentina. Há uma diferença fundamental entre as duas: enquanto os adeptos brasileiros costumam ¨jogar junto com o time¨, ou seja, se o time vai bem, a claque cresce, e se o time vai mal, a claque diminui o volume e costuma ficar tensa (isso ocorre com todas as claques de todos os clubes brasileiros), na Argentina o comportamento da claque parece ser independente do jogo ou do resultado do mesmo. Há um famoso vídeo no Youtube que mostra um jogo entre Racing e River Plate, no qual o River aplica uma goleada de 6 a 1 na Academia, e mesmo assim os adeptos continuam a fazer uma festa gigante, algo inimaginável nos estádios brasileiros.

Outro ponto que chamou-me muito a atenção foi que a maioria dos cantos das claques brasileiras são copiados dos coros argentinos. Muitas vezes, são apenas traduzidos para o português do Brasil e em algumas situações tem as letras adaptadas para adequação à métrica musical. Veja estes exemplos com cantos das torcidas de Palmeiras e São Paulo:

Fonte: www.letras.com.br

 

Em contrapartida, se nas arquibancadas os argentinos são melhores que os brasileiros, o mesmo não se pode dizer quanto à qualidade do futebol apresentado. As duas equipas estavam em posições intermediárias na tabela do Campeonato Argentino, com o Racing ligeiramente melhor e ainda a lutar por uma vaga na Copa Libertadores 2021 (ao final do campeonato, o Independiente ficou em 14o lugar e o Racing conseguiu a vaga para a primeira fase classificatória do principal torneio sul-americano).

E onde faltou qualidade, sobrou raça. O jogo foi Histórico. Assim mesmo, com H maiúsculo. Os donos da casa jogaram razoavelmente bem no primeiro tempo, até que aos 39 minutos o guarda redes Arias foi expulso. E na sequência, no início da segunda etapa, nos primeiros segundos de bola rolando, o jogador Sigali também levou o cartão vermelho, o que fez com que o Racing jogasse com apenas nove atletas durante todo o segundo tempo. E o que se viu a partir daí foi um verdadeiro massacre vermelho. O time do Independiente jogou o tempo todo no campo de ataque, acuando os donos da casa em sua grande área. Parecia um treino de ataque contra defesa. Mesmo nessa situação difícil, os adeptos do Racing não deixaram a energia diminuir, e a cada ataque do alvirrubro mais subia o volume e a temperatura nas arquibancadas.

Até que num desses momentos arrebatadores que só o futebol pode nos proporcionar, num contra ataque aos 41 minutos do segundo tempo, o avançado Chelo Diaz conseguiu fazer o único golo da partida, cravando a histórica vitória por 1 a 0. Desnecessário dizer aqui o que aconteceu nas arquibancadas. Foi uma festa de conquista de campeonato. O torcedor do Racing, que comemora até quando está a perder do River por 6 golos, explodiu numa alegria jamais vista, ao derrotar o arquirrival de camisola rubra em situação tão dramática. Ao Independiente, só restou lamentar a perda da oportunidade de fazer um belo resultado na casa do inimigo.

 

Foto: Marcial Cortez

Então siga a minha sugestão. Aproveite este tempo de quarentena e suspensão do futebol para assistir aos grandes clássicos deste esporte que tanto nos encanta. Garanto que não irás te arrepender. E mesmo sendo brasileiro, sou obrigado a concordar com os argentinos: no que se refere à festa nas arquibancadas, Maradona é melhor que Pelé.

 


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