19 Fev, 2018

As Crónicas do Sr. Ribeiro – A minha equipa

Fair PlayJaneiro 4, 20184min0

As Crónicas do Sr. Ribeiro – A minha equipa

Fair PlayJaneiro 4, 20184min0
O Sr. Ribeiro fala da sua nova família dentro dos campos de rugby e desta nova vida... A minha equipa, ou de como ser árbitro/auxiliar é se ser diferente

O treinador entrou no balneário quando já nos preparávamos para sair. Pediu calma no jogo, apelou à nossa capacidade de decisão, e, no derradeiro momento, lembrou “Acima de tudo, sejam uma equipa”.

Cumprimentámo-nos, desejámo-nos boa sorte e o “capitão” reforçou “Preciso da vossa ajuda, hoje temos de ser um”.

No corredor já estavam os jogadores e, todos juntos, subimos ao relvado.

Foi assim o dia das minhas primeiras vezes. A minha primeira vez numa equipa de arbitragem, a minha primeira vez como árbitro auxiliar e também num jogo da divisão de honra.

O Cascais recebeu a Académica e a mim foi-me dada a honra de pisar o principal palco do rugby nacional, para fazer uma coisa muito simples, auxiliar.

Sempre chamei bandeirinha, fiscal, ou um inglesado liner, descobri que é auxiliar, porque é o que se faz em campo. A função é apenas ajudar, tanto o árbitro como os jogadores.

No caso do meu primeiro jogo, como sempre com a sorte do meu lado, ambas as equipas estrangeiros tinham médios estrangeiros, o que me permitiu colocarem-me no meu lugar e explicarem-me em que podia ser útil. Em todas as touches e mellees que formavam uma linha defensiva, davam-se ao trabalho de confirmar comigo a sua posição.

Sim, eu sei que é simples, mas quem faz isso? Por um lado evita-se a falta, por outro coloca-se a responsabilidade da distância num dos membros da equipa da arbitragem, postura inteligente.

De resto, ser árbitro auxiliar é uma das funções mais engraçadas que desempenhei.

Além da vista privilegiada, no caso para um jogo bem bom, como a responsabilidade da decisão é sempre do árbitro, temos apenas de ir seguindo o jogo e dando aqui e ali uma mão.

O árbitro deu-nos as dicas dos pontos onde precisava de ajuda, e nós cumprimos o melhor que conseguimos. Além das touches, dos foras- de-jogo e das conversões dos pontapés, a proximidade de alguns lances fazem de nós os olhos do árbitro que confirma, em silêncio, uma ou outra decisão.

Claro, a lei 9! Estamos em Portugal, a lei 9 é aquilo com que temos de nos preocupar. Como auxiliares temos de estar sempre atentos ao sarrabulho e fazer o possível para evitar confusões.

Os nossos corpos fixam uma linha de fora de jogo, mas os olhos ficam presos no ruck, depois da bola sair. Perto da linha, tive de dar um passo para dentro de campo para me colocar entre dois jogadores, um verde e um preto, antes que se animassem, ficámos por ali. Mas a lei 9 é a ameaça no ar. Diz-nos o treinador, diz-nos o árbitro, lembra-nos o público com os seus “EEEEHHHHHHHHHHHH”. (Sabem como um árbitro mede a gravidade de uma placagem alta? Pelo som do público)

Ao intervalo reagrupamos, descemos ao balneário, como as outras equipas, falamos do que está bem e do que podemos melhorar. O árbitro pede-nos as situações reiteradas que ele não consegue controlar, eu falei da linha defensiva do Cascais que estava demasiado subida.

Qual não foi o meu espanto quando, logo depois dessa conversa, bateu-nos à porta do balneário o capitão da equipa da casa e perguntou em que podiam ajudar na segunda parte.

O árbitro avisou-o da linha e, muito ao contrário do que esperava, funcionou… Sempre um passo atrás. Viu-se um cuidado efectivo em cumprir as indicações pedidas.

Para mim foi uma experiência fantástica, cometi um erro gigante, mas que pouca gente reparou – tirando o nosso treinador.

Saí de campo com a certeza que, em primeiro lugar, há vontade de se arbitrar bem em Portugal. Trabalhamos com o que temos, mas trabalhamos. Estudamos, somos observados, reunimo-nos, preocupamo-nos.

Engraçado que nessa semana tive uma reunião com um treinador de árbitros da Austrália, que não acrescentou nem uma vírgula áquilo que eu ouvi no campo da Guia, e ao que me tem sido dito pelos meus observadores.

Dizem que temos uma arbitragem fraquinha, talvez, serei sempre suspeito para falar sobre isso. É evidente que no meu caso ainda é fraquinha, mas eu estou muito no princípio. De resto, acho que temos uma arbitragem proporcional à qualidade do jogo. Claro que erramos, mas à medida que a qualidade de jogo sobe, torna-se mais fácil arbitrar e erramos menos.

Eu já achei que esta frase era uma desculpa dos árbitros para falhar, mas a atitude do capitão do Cascais – e da sua equipa – vieram confirmá-la. Pelo simples facto do Cascais ter-se preocupado em ajudar-nos facilitou, muito, o nosso trabalho, principalmente o meu que se me lembrar do título, é auxiliar. Árbitro auxiliar.

Para mais Crónicas do Sr. Ribeiro no Fair Play siga este link 

Seja como árbitro principal ou auxiliar (Foto: Luís Cabelo Fotografia)


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