23 Out, 2017

(Manuel) Machado Letal: o fim da linha para o técnico?

Francisco IsaacSetembro 19, 201711min0

(Manuel) Machado Letal: o fim da linha para o técnico?

Francisco IsaacSetembro 19, 201711min0
O técnico vimaranense atravessa o seu momento mais crítico da carreira, com as passagens pouco felizes pelo Nacional e Arouca. Será o Moreirense mais uma "vítima" ou o treinador salva-se de qualquer responsabilidades pelos resultados?

Manuel António Marques Machado, técnico sénior desde 1993 (primeiro clube foi o Vila Real nas divisões secundárias do futebol português), enfrenta em 2017 uma situação complicada: um rácio de 24% de vitórias (média) nas últimas três temporadas e uma queda abrupta nos resultados obtidos. Com 61 anos, uma das caras mais conhecidas do CD Nacional, voltou a começar uma temporada com o “pé esquerdo”, nesta caso, contra o Moreirense.

Ao fim das primeiras 6 jornadas na Liga NOS, a equipa de Moreira de Cónegos consentiu três derrotas e dois empates, ficando-se com uma vitória por 2-0 contra o Estoril. Mas comecemos com uma frase, no mínimo, surpreendente, dita no início da temporada actual:

“Nunca despromovi equipa nenhuma e espero que não venha a acontecer este ano. Vamos tentar não deixar para a última jornada a permanência.”

A observação do técnico do Moreirense merece uma análise, curta, sucinta mas séria: em 2016/2017, Manuel Machado ocupou o cargo de treinador do Nacional e Arouca, que, coincidentemente, acabariam por descer de divisão no final da temporada.

Na formação que joga na Choupana, Manuel Machado conseguiu apenas quatro vitórias em dezassete jogos, três das quais na liga portuguesa, sendo uma das defesas mais batidas da Liga NOS com 25 golos consentindos em 15 jornadas. O plantel em si era pobre, mal construído e com falhas notórias, onde só se salvava Salvador Agra por exemplo (transferido no final da temporada para o SL Benfica e depois emprestado ao Aves) e pouco mais.

A saída da equipa madeirense, em Dezembro, poderia servir de alerta ou aviso para Manuel Machado, que precisaria de “repor” forças, refazer ideias e partir para uma nova temporada com outro vigor. Só que a 11 de Fevereiro, surgiu o convite do “europeu” Arouca, naquilo que poderia ser uma resposta de força do técnico vimaranense aos seus críticos… não o foi, infelizmente.

Bem, o destino tem destas coisas, e o Arouca passou de um sólido 10º lugar (27 pontos) para um questionável, mas ainda assim maneável, 13º (a dez pontos do penúltimo lugar da classificação). Sem qualquer ponto amealhado, só com derrotas atrás de derrotas, ante Chaves, Belenenses, Braga, Porto e Marítimo. Machado não conseguiu solidificar o Arouca e nunca encontrou algumas das “fórmulas” de sucesso que o seu antecessor, Lito Vidigal, encontrará em 2015/2016.

No final da temporada, tanto nacionalistas como arouquenses confirmaram a descida de divisão, com o “cunho” de Manuel Machado. Muito ao jeito de Luís Campos (que conseguiu estar envolvido nas descidas do Setúbal e Varzim em 2003), Machado, técnico natural de Guimarães (que chegou a treinar nos anos idos de 2004/2005, numa das suas melhores temporada em Portugal), que teve passagens pelo SC Braga, Académica, Guimarães ou Aris, pôs assim uma “nuvem negra” por cima de si e levantou sérias questões à sua qualidade como treinador principal.

Em termos de estatísticas o treinador teve a seguinte percentagem de vitórias nos últimos três anos: Nacional (15/16) 29,6%; Nacional (16/17) 23%; Arouca (16/17) 0%; e Moreirense (17/18) 28%. Números críticos para uma suposta referência da Liga NOS.

Mas o que há-de errado com o futebol de Manuel Machado? Ultrapassado ou estagnado? Teimosia pura de não querer admitir os erros ou assumiu/assume os erros dos departamentos de futebol e direcções dos clubes por onde passa?

No CD Nacional, o treinador dividiu as responsabilidades com Rui Alves, o presidente eterno dos alvinegros, tendo preparado um plantel de forma “estranha” e com pouca lógica, quebrando fisicamente e psicologicamente antes do final da primeira volta (se tiver em curiosidade de conhecer a performance dos alvinegros consulte em: aqui).

Em Arouca, talvez não teve as condições necessárias para conquistar mais cinco pontos e dessa forma garantir a manutenção, desde logo a manutenção. No seu tempo enquanto treinador dos aroquenses, nenhuma das referências assumiu um papel importante (Walter Gonzalez, Mateus, Nuno Coelho, Bracali ou Kuka). Causa ou consequência da chegada de Machado?

Todavia, como nos nacionalistas, Manuel Machado teve tempo suficiente para montar um plantel à sua imagem em Moreira de Cónegos, dentro dos moldes que tanto preza (equipa “pesada”, defensiva, que joga mais no erro do adversário do que produzir algo de positivo) seguindo a sua estratégia idílica e “confortável”. No entanto, ao fim de alguns jogos e seis jornadas da Liga, não conseguiu reproduzir algo “palpável” e agora volta a estar sob o foco.

Um plantel “transformado”, em relação a 2016/2017, o Moreirense recebeu bons reforços como Rafel Costa, Tozé, Mohamed Abarhoun ou até caras conhecidas como Jhonder Cádiz, que tinha sido seu atleta no Nacional. Ao todo 27 reforços (apenas 22 ficaram no plantel), para colmatar as variadas saídas (como Francisco Geraldes, Rebocho, Cauê, Nildo Petrolina ou Fernando Alexandre) da equipa que conquistou a Taça da Liga em 16/17.

Se no Dragão não teve qualquer hipótese ante um dos candidatos ao título, já o mesmo não se pode dizer das derrotas mais “humilhantes” ante o CD Tondela (0-3) e GD Chaves (0-3), duas formações que lutam, também, para fugir dos últimos lugares e, consequente, descida de divisão. Voltando ao jogo frente ao FC Porto, Manuel Machado lançou as seguintes declarações:

“Há razões próximas e distantes para justificar este resultado. (…) As razões distantes que falei inicialmente são outras. O presidente da Liga de Clubes, Pedro Proença, o presidente da Federação, Fernando Gomes, e o próprio secretário de Estado têm de reflectir sobre o que se está a passar. O futebol é um negócio, mas o que têm acontecido vai acabar com o próprio negócio. O que se passou ontem em Guimarães, o que se passou na Luz e o que se passou hoje aqui, como o que já tinha acontecido aqui na primeira jornada, resultados de 5-0, 4-0 e 3-0, merecem uma reflexão. Ou há um nivelamento maior entre os clubes ou o espectáculo vai acabar. Os clubes pequenos são carne para canhão. Os espectáculo perde interesse, os adeptos afastam-se dos estádios, os melhores jogadores saem para o estrangeiro, enfim, nada de bom vem deste desnivelamento, como é normal. Assim um dia o negócio futebol vai acabar.”

Uma “confissão” forte e agressiva, com várias (meias)”verdades”, Manuel Machado tentou “apaziguar” a goleada colocando as “culpas” não no seu futebol (pode consultar todas as declarações aqui) mas na diferença entre “Grandes” e “Pequenos”, entre orçamentos milionários e finanças a conta-gotas e entre internacionais destacados e jogadores pouco ou nada conhecidos.

Só que, as goleadas sofridas frente a clubes do mesmo patamar, levantam questões e metem, de certa forma, em xeque as declarações do técnico. Ou o Moreirense só fará campeonato contra uns quantos adversários? E não é minimamente estranho que estas grandes declarações de Machado venham ser após uma derrota (já em Dezembro de 2015, tinha “arrasado” com o futebol português após perder com o SL Benfica na Luz, relembre neste link).

O futebol de contra-ataque não funciona se não tiver extremos suficientemente sólidos e velozes e sem um médio-centro que consiga gerir o jogo de forma positiva e trabalhadora (algo que Francisco Geraldes fazia com toda uma classe cativante). Ao não ter essas “ferramentas”, o meio-campo fica minimamente exposto, pondo à prova a baliza, que não tem sido bem guardada por Jonathan (um dos reforços).

O par de defesas centrais já demonstram excelentes qualidades (agressividade e antecipação) como pontos questionáveis (jogo aéreo, velocidade para defender avançados mais ágeis), que deixam a crer que o leque de escolhas é reduzido. Voltando a Jonathan, o guardião dos cónegos, Manuel Machado optou pelo brasileiro invés de optar por Giorgi Makaridze. O georgiano até teve prestações bem positivas na temporada anterior, mas, ao que parece, não foram suficientes para convencê-lo (números do georgiano aqui), sendo que pode haver “mão” da direcção dos cónegos por via do guardião ter tentado forçar uma saída.

Um futebol “empapado”, com as linhas de ataque pouco “eléctricas” e um meio-campo sem o “iô-iô” necessário permite que aqueles adversários que gostem de aplicar uma grande pressão e um ritmo alto ganhem a frente rapidamente. Foi o que aconteceu com o GD Chaves, Tondela ou FC Porto. Nos empates contou com alguma “sorte” (faz parte ou não do sucesso dos treinadores?), já que contra o Setúbal foi uma sucessão de erros individuais da equipa sadina que comprometeu a vitória.

Uma leitura rápida ao GD Chaves-Moreirense poderá facilmente dar a entender os vários problemas dos cónegos: até ao 1-0 (através de penalti), o Moreirense conseguiu “aguentar” com o meio-campo mais organizado dos flavienses. Quando já se via em desvantagem a equipa, Machado apostou no contra-ataque, que acabou por “falhar”, pelo facto do meio-campo não dar a resposta necessária às recuperações de bolas do Chaves e pela ausência dos laterais como “força” de tampão. O 2-0 e 3-0 vieram com alguma facilidade, impondo, a 3ª goleada sofrida do Moreirense em 7 jogos.

Futebol muito pequeno, que acaba por ser de dimensões curtas e diminuídas mesmo quando joga frente a equipas que supostamente estão em pé de igualdade. Cruyff chamaria a este tipo de estratégia “cobardia” ou “tacanho”, uma vez que há um padrão em Manuel Machado em não ter equipas que se exponham ou arrisquem tanto num futebol mais ofensivo (no registo do Nacional, Machado foi responsável por duas temporadas de poucos golos como em 2009/2010).

E não deixa de ser preocupante a situação da equipa de Moreira de Cónegos, uma vez que ocupa um dos últimos três postos da classificação da Liga NOS e com quatro jogos de elevada dificuldade nas próximas quatro jornadas. Para além disso, fazendo jus e justiça a esta observação de Manuel Machado, então os “alarmes” já terão sido ligados após a 6ª jornada (ver total das declarações neste link):

“É um jogo muito importante, não é no fim que se decide a temporada, é ao longo da mesma nestes confrontos diretos.”

No meio disto, o Moreirense já ocupa o 16º lugar com um futebol sofrível, pouco motivador e, aparentemente, sem futuro… o fim da tabela será o destino final ou haverá “surpresa”, algo que Manuel Machado não tem conseguido replicar nas últimas temporadas. Segue-se a recepção ao Sporting CP, que atravessa um fantástico momento de forma com nove vitórias em nove jogos. Para contornar a estratégia de Jorge Jesus, Manuel Machado terá que ter uma contra-ataque mortífero nas poucas oportunidades dispostas, um meio-campo solidário e “raçudo” e uma defesa ágil e elástica o suficiente para fazer frente a Bas Dost, Bruno Fernandes e Gelson Martins.

Mas será que realmente o futebol de Manuel Machado está “ultrapassado”? Estará o técnico ao nível de Carlos Brito, José Mota, entre outros treinadores, que não conseguiram dar o salto qualitativo para ganhar “raízes” na Liga NOS? A frase eloquente do técnico em 2007 poderá servir agora de expressão máxima para o seu futebol actual e, também, como conclusão:

“Estamos cada vez mais monocórdicos no que concerne ao futebol e as suas nuances classificativas”

Relembre as palavras sobre o desequilíbrio e a diferença entre “Grandes” e “Pequenos”


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