20 Set, 2017

Diogo Miranda. “Ser Belenenses é único, e deve ser vivido como uma coisa única.”

Francisco IsaacAgosto 23, 201715min0

Diogo Miranda. “Ser Belenenses é único, e deve ser vivido como uma coisa única.”

Francisco IsaacAgosto 23, 201715min0
Diogo Miranda, antigo capitão da Selecção de 7's, emblemático jogador do Belenenses, falou sobre vários temas nesta entrevista em exclusivo para o Fair Play

A escola do CF “Os Belenenses” produziu não só grandes jogadores, mas também grandes valores do rugby Nacional. Diogo Miranda é um desses casos que vale a pena ficar a conhecer e perceber até aonde vai o seu “amor” pelo clube do Restelo. Campeão Nacional, internacional dos 7’s, onde chegou a ser capitão da Selecção, o médio-de-abertura/defesa fala sobre os mais variados assuntos, destacados na entrevista abaixo


Diogo… uma pergunta logo a abrir: o que é ser um Belenenses? E sentes que o rugby tem sido sempre bem tratado no Estádio do Restelo?

DM. Antes de mais queria agradecer o convite e a oportunidade de partilhar algumas das minhas ideias, opiniões e experiências sobre o rugby nacional. O Fair Play é uma rúbrica que acompanho e que tem feito um bom trabalho no acompanhamento da atualidade do nosso rugby, por isso desde já os meus parabéns.

Ser Belenenses é complicado de exprimir por palavras. As pessoas que, como eu, viveram e cresceram no seio do Belenenses sentem uma ligação, um afeto e uma dedicação ao clube que é difícil de explicar. O Belém é um clube com uma história bem vincada e com um contributo de relevo no rugby nacional.
Dirão os jogadores de outros clubes que o seu é único por esta ou aquela razão, mas eu garanto que envergar e representar a Cruz de Cristo é diferente de tudo!

A segunda pergunta tem rasteira, não tem? Ahaha! Como todos sabemos O Clube de Futebol “Os Belenenses” é isso mesmo, um clube de futebol. E sendo essa a modalidade principal do nosso país é compreensível que os recursos do clube sejam quase exclusivamente canalizados para o futebol. Mas a verdade é que sempre tivemos o nosso “espaço” dentro do clube, os adeptos do clube gostam de nós e reconhecem que somos uma das modalidades onde temos uma equipa mais competitiva.

Dentro de pouco tempo teremos o nosso “espaço”, literalmente!

Qual é o objectivo para 2017/2018? E como pensam em atingi-lo?

DM. Esta vai ser a minha 11ª época na equipa sénior e passei por várias fases no clube. A restruturação que aconteceu há 4/5 anos atrás, com a saída de uma dezena de jogadores mais experientes que eram o núcleo do Belenenses, obrigou a equipa a reinventar-se. Passámos épocas complicadas, mas os miúdos (que hoje estão em larga maioria, e ainda bem!) e os poucos graúdos que ficaram a aguentar o barco, conseguiram voltar a pôr a equipa no patamar onde o Belém tem que estar.

Posso afirmar sem medos que o Belenenses jogará para estar nas finais e disputar o título nacional! O ano passado ganhámos todos os jogos no Restelo, e a única equipa a que não ganhámos pelo menos 1 vez foi ao Direito, e foi só porque tivemos de jogar em casa emprestada e não no Inferno do Restelo… Vencemos os 2 jogos à Agronomia, finalista vencido. Acabámos por ser afastados porque como equipa jovem que ainda somos, os nervos não nos deixaram pôr o nosso rugby em campo naquela tarde contra o Cascais. Merecíamos muito mais, mas aprendemos com isso e não se voltará a repetir!

O novo campo é um aditivo emocional importante… o que significa para ti ter um campo próprio?

DM. O Belenenses Rugby Park será um marco na história do clube. Comecei a ouvir falar nele e ainda era sub-10… Olhamos para o lado e vemos a evolução estrutural, organizacional e competitiva que tiveram todos os outros clubes, pelo facto de terem o seu próprio campo. Temos jogado quase sempre no Restelo, mas os jogos têm que ser ao domingo às 15.00 que é quando não há futebol. Treinamos e sempre treinámos no Estádio Nacional, por isso o Restelo acaba por não ser “a nossa casa”.

Com o novo campo vamos ter uma base, um espaço só nosso, um sítio onde todos os Belenenses se vão concentrar, treinar e jogar. Vai permitir darmos outras condições aos nossos miúdos, que são o futuro do clube, e para nós mais velhos vai ser a concretização de um sonho. Confesso que não sei apontar a data concreta em que o campo estará pronto, mas gostava de ainda lá jogar. A ver vamos…

Será sem dúvida um ponto de viragem!

Diogo Miranda (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

Para ti qual o foi o momento mais alto enquanto jogador do Belenenses? E achas possível voltarem a levantar o título de campeões da Divisão de Honra em 2018?

DM. Sem sombra de dúvida que foi a conquista do campeonato nacional, em 2007/2008. Um momento único e inesquecível! Tinha 19 anos, e no início dessa época comecei a representar a seleção de 7s. Na semana seguinte à final dos seniores, fui campeão nacional pelos sub-20 também. Foi um ano de sonho!

Tenho a certeza. E está muito mais perto do que muitas pessoas possam pensar. Não vou acabar a carreira sem levantar o caneco de novo…!

Treinador que mais te marcou na tua carreira? E recordas-te de alguma temporada que gostasses que se repetisse num futuro próximo?

DM. Gostava que se repetisse a temporada de 2007/2008, e o Belém a levantar o troféu no fim!

Treinador, não posso referir só 1 porque estaria a ser injusto.

Começo pelo Bryce Bevin, o treinador neo-zelandês que nos conduziu ao título de campeão nacional. Era de outro patamar enquanto treinador, e tornava o rugby muito mais simples e eficaz.

Segundo, andei frequentemente às turras com ele porque me fazia vida negra na seleção.  e recentemente tive oportunidade de lhe dizer isto num jantar em que tivemos os dois, mas seria injusto não falar do Pedro Netto, até porque temos uma boa relação fora do rugby. Foi o meu primeiro treinador sénior, e acompanhou quase toda a minha carreira nos 7s. Ensinou-me muito e evolui imenso pelas mãos dele.

Por último, o Tomaz Morais. Foi com ele que comecei na seleção sénior (XV e 7s) e é um treinador com umas capacidades e um conhecimento que marcam um jogador.

Melhor jogo que realizaste pelo Belenenses? E melhor ensaio?

DM. O mítico jogo que deu origem ao título no jornal A Bola “Os 12 magníficos”, quando ganhámos com 12 jogadores contra 15 na Agronomia. Jamais me vou esquecer desse dia! Melhor ensaio… O primeiro!

Sentes que estão bem encaminhados em relação aos escalões de formação? Vês muito talento nesta nova geração de sub-18 que foram campeões nesta temporada que passou?

DM. Sem qualquer dúvida que sim. Os nossos escalões de formação continuam a dar cartas, e os jovens que têm subido ano após ano à equipa sénior têm muita qualidade. Obviamente que a adaptação não é fácil, e a parte mais difícil do processo é fazê-los perceber que já não estão nos sub-18 e a realidade é outra. Temos muitos e bons exemplos de miúdos comprometidos, que gostam de treinar e se dedicam ao clube, e é mesmo isso que precisamos. E ainda bem que vêm muitos, porque “os velhos” já não duram muito…!

O importante é nunca esquecer que os escalões de formação têm como objetivo principal formar jogadores para estarem em condições de representar a equipa sénior ao mais alto nível.

Sentiu-se algum peso o teu afastamento da equipa nos últimos anos? A que se deveu? E estás de volta a 100%?

DM. O meu “afastamento” acabou por ser mais vincado há 2 épocas atrás, quando estávamos em processo de qualificação olímpica. Todos os jogadores do core da seleção de 7s passaram por isso, e infelizmente acabámos por estar mais ausentes dos nossos clubes do que gostaríamos, em detrimento de uma missão  que foi a representação da seleção.

Por motivos profissionais já tinha decidido deixar os 7s em 2014, porque passávamos praticamente 3 meses por ano fora do país, mas quando me foi lançado o desafio da qualificação olímpica nem hesitei. Não atingimos o sonho olímpico mas não me arrependo de nada. Ter-me-ia arrependido para sempre se não tivesse tentado… Acabei por prejudicar a vida profissional, pessoal, familiar, e também por falhar ao meu Belenenses em alturas que teria sido importante. Por isso, depois destes anos de intensidade máxima de seleção, decidi dar de volta ao meu Belém tudo o que posso, se possível em dobro!! Foi o Belenenses que me formou, enquanto jogador e enquanto pessoa também, e no dia em que não puder jogar vou dar da maneira que for mais útil ao clube.

Pela Selecção Nacional em 2013 (Foto: Arquivo do Jogador)

A Selecção Nacional é um objectivo teu no futuro próximo? Queres voltar a jogar pelo XV ou preferes voltar a liderar os 7’s?

DM. Confesso que nem penso nisso. Tive uma experiência de 9 anos na seleção de 7s  que é algo que nunca irei esquecer, e isso não me podem tirar. Se acharem que eu ainda tenho valor para acrescentar à seleção e me convocarem, na altura pensarei nisso. Naturalmente se me derem a escolher, 7s sempre!

Tu foste um dos jogadores que nos últimos 5/6 anos que acumulou mais minutos nas World Series… qual é a tua memória? E a etapa que gostavas de repetir a presença?

DM. Se não estou em erro faltavam-me 1 ou 2 torneios para chegar aos 50 nas World Series… Fiquei perto!

Como disse antes, é uma experiência única que nos marca para a vida. Nos momentos difíceis cheguei a questionar-me porque é que sempre gostei tanto dos 7s… Mas isso é mínimo comparado com os ensaios, as placagens, os “bruaaaas” dos estádios com 30, 40, 60 mil pessoas… Para mim é o ponto mais alto onde um jogador português de rugby pode estar, e o mais exigente sem dúvida.

Por vezes incomoda-me os comentários que as pessoas fazem sobre alguns resultados ou prestações da nossa seleção de 7s. Inclusivamente, num desporto tão pequeno, existem blogs de rugby que só servem para dizer mal, destruir o valor do rugby nacional e fazer crítica negativa. Mas é como se costuma dizer nestas coisas, quem fala não sabe e quem sabe não fala 🙂

Acreditem, se fosse fácil estavam lá outros, e ninguém tem a mínima noção do que aquilo é sem o ter vivido por dentro!

Melhor jogador de 7’s que jogaste com e contra?

DM. Com: Sebastião da Cunha

Contra: muitos e bons… Talvez Tomasi Cama.

É mais fácil jogar XV ou 7’s? E consegues dar um conselho para as duas variantes aos mais jovens praticantes?

DM. São jogos completamente diferentes. E 7s tem muito mais tática do que parece aos menos atentos. O meu conselho aos jovens praticantes é que joguem 7s o mais que puderem, porque isso fará deles muito melhores jogadores de XV. Todos os skills básicos do rugby são muito mais trabalhados e de uma forma muito mais exigente nos 7s: placagem, o passe, a corrida com bola, gestão do espaço.

Não é por acaso que muitos internacionais All Blacks começaram nos 7s. Nós tivemos privilégio de jogar contra alguns eles: Israel Dagg, Charles Piutau, Julian Savea, Vitor Vito…

Achas possível ultrapassar o actual mau momento do rugby português? E tens alguma ideia para fomentar o rugby a nível local?

DM. É uma pergunta complexa e que exigia muito tempo para eu expressar a minha opinião sobre esse assunto. Vou tentar abreviar…

Quando subi a sénior a competitividade do campeonato nacional era muito mas muito superior ao que é hoje. Todas as equipas tinham muitos e bons estrangeiros, todos os jogos eram disputados e não se ganhava por 60 pontos. Assisti por dentro à mudança enquanto jogador, que foi ocorrendo de forma gradual. Sem dúvida que a descida de divisão da seleção de XV e a saída das World Series dos 7s foram pontos baixos na história do nosso rugby, mas com o rumo que as coisas tomaram seria apenas uma questão de tempo.

Era inevitável que as seleções que já eram fortes ficassem ainda mais fortes, e que as que se batiam connosco ou que eram inferiores iriam evoluir se houvesse investimento que fomentasse uma evolução sustentada. E foi isso que aconteceu. Portugal não foi capaz de acompanhar a tendência evolutiva, por vários motivos, e ficou para trás. Acredito que vamos dar a volta com certeza, e voltar ao patamar onde já estivemos, mas temos de recomeçar tudo da base e vai levar algum tempo.

Pela Cruz de Cristo na camisola (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

É muito complicado fazer a combinação entre jogador de rugby em Portugal e trabalhar a full-time? Já alguma vez tiveste de abdicar de algo na tua vida profissional ou pessoal para dar tempo ao rugby?

DM. Respondi um bocadinho a isso anteriormente, mas a verdade é que a minha vida pessoal/académica/profissional foi feita sempre com base nesta dicotomia com o desporto. Acabei os estudos no tempo certo e sempre consegui equilibrar as coisas, até à altura em que tomei a decisão de que seria altura de pôr um ponto final na carreira de seleção. Continuarei sempre a representar o Belém até conseguir!

Quem tem a paixão pelo rugby como eu tenho acaba por abdicar sempre de alguma coisa, seja a família, o trabalho ou outros… O desafio de equilibrar os pratos da balança ao longo da vida conferiu-me bastantes capacidades para ter um melhor carácter e ser melhor profissional.

Umas perguntas flash: colega de equipa (de agora ou do passado) que conseguia sempre animar os estágios ou pós-jogos?

DM. Pergunta fácil… Salvador da Cunha no Belenenses, Gonçalo Foro na seleção!

Melhor placador do CF “Os Belenenses”?

DM. Atual? Confesso que é difícil porque para mim somos das melhores equipas a defender no campeonato.

O melhor pkacador com que já joguei no Belenenses, Diogo Mateus.

Marcar um ensaio contra a Nova Zelândia em 7’s ou fazer um drop que desse o campeonato ao Belenenses?

DM. A resposta é óbvia! Viva o Belém!

Jogador adversário que mais respeitas?

Frederico Oliveira, porque é meu padrinho de casamento e meu melhor amigo, e Francisco Sousa Otto porque é irmão da minha mulher!

Willy Hafu ou Julio Farías: qual o melhor?

DM. Atrevo-me a dizer o Willy. Era um génio! Mas o Júlio era de outro planeta também, sem dúvida. Tenho saudades dos dois!

Para que colega farias um passe de hospital?

DM. Manel Bonneville, porque provavelmente fazia avant e não levava com ninguém em cheio. Se levasse também faz ginásio suficiente para se aguentar à bomboca.

Uma mensagem especial para os adeptos do Belenenses e do rugby Nacional?

DM. Aos adeptos, simpatizantes, aos miúdos, dirigentes e colegas de equipa do Belém, que valorizem e tenham um grande sentimento de pertença para com o clube. Ser Belenenses é único, e deve ser vivido como uma coisa única.

Para o rugby nacional… Não posso deixar de dizer que me entristece muito ver a forma como nos últimos anos alguns dirigentes dos clubes nacionais acabaram por promover a “futebolização” do nosso rugby. O rugby é um desporto singular com valores próprios e ideais de respeito, responsabilidade e honestidade. Jogadas de bastidores, telefonemas, aliciações e pressões não abonam nada a favor do rugby, e estão a descaracterizá-lo enquanto desporto.

Protejam e defendam este desporto que é nosso, que é de todos, não só em palavras mas também nas ações!

Um dos capitães dos Linces (Foto: Arquivo do Jogador)


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