Arquivo de Inter de Milão - Página 2 de 2 - Fair Play

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Fair PlayMaio 26, 201710min0

A parcialidade da imprensa, aliada à “venda fácil” e ao “manipular” da cultura desportiva tornam-se decisivos para um extremar de opiniões, abrindo uma divisão profunda entre adeptos do mesmo desporto. Tiago Estêvão convida-nos a olhar atentamente para três situações: Marco Silva, Renato Sanches e João Mário.

A influência dos media continua a ser de proporções enormes nos dias de hoje e a secção futebolística não foge à regra. A grande parte dos meios tem algum grau de parcialidade – algo inevitável – mas a sua grande maioria age como se não o fosse – algo evitável. Narrativas são forçadas e reprimidas consoante os interesses e influências.

Do outro lado temos o adepto comum de futebol em Portugal, que mantém ainda duas típicas caraterísticas: a falta de conhecimento e apreciação pelo jogo em si, combinada com uma gritante paixão pelas cores que defendem, na generalidade, sem pensar duas vezes. Esta combinação de fatores leva a duas situações constantes: adeptos a repudiarem qualquer narrativa e publicação de caráter negativo para com o seu clube e vice-versa.

Sabendo que não podemos simplesmente desligar e ligar grande porção da imprensa escrita em Portugal, vou analisar neste artigo três situações que levaram a inúmeras discussões durante a temporada que agora termina. Marco Silva, Renato Sanches e João Mário. Expondo factos, tenho como objetivo apenas a abertura de horizontes do leitor e a contextualização das situações em discussão.

MARCO SILVA

Todos os dias se tem questionado pela Internet a qualidade de Marco Silva como treinador – sendo o grande argumento de quem apoia tal opinião o facto da imprensa estar do lado do ex-treinador do Hull, sobrevalorizando as suas conquistas e reprimindo seus falhanços.

Olhemos para a sua carreira: chegou ao comando do Estoril com a época a decorrer, acabou campeão da Segunda Liga, conseguiu posição europeia na época de chegada à Liga NOS e de novo na seguinte. No panorama do futebol português é impossível fazer melhor – daí a receção apoteótica que teve no seu dia de apresentação em Alvalade.

Com os ‘leões’ conseguiu aquele que é ainda um dos únicos títulos da Era Bruno de Carvalho (só mais uma Supertaça para além deste) – tendo estado a minutos de deitar tudo por perdido na final, é certo, mas venceu. E se não tivesse sido a decisão errada de terceiros em Gelsenkirchen, tinha passado a fase de grupos da Champions com uma dupla de centrais composta por Maurício e Sarr – o primeiro agora quarta escolha do Spartak, enquanto Sarr acabou de descer da segunda para a terceira divisão francesa com o Red Star.

No campeonato acabou em 3º, num ano de pouco investimento (cerca de 10M€ + Nani), competindo com um FC Porto que tinha acabado de investir quatro vezes mais e um Benfica já em andamento. Na Grécia vence a liga com o Olympiakos – claro objetivo do clube –, bate recorde de vitórias consecutivas no campeonato e acaba 3º na Fase de Grupos da Liga dos Campeões, empatado em pontos com o 2º Arsenal.

Em Inglaterra aterrou numa equipa que muitos consideravam sem hipóteses de ficar no campeonato – no último lugar com 13 pontos – e tendo perdido os 2 jogadores mais influentes no balneário. O Hull passou de uma média de 0.65 pontos por jogo para um 1.16 com o treinador português, e passou a haver uma inesperada hipótese de sobrevivência para o clube. Pelo meio valorizou jogadores como Maguire e Clucas, tal como por cá tinha feito.

A verdade é que vacilou nos últimos três jogos, perdendo contra o já relegado Sunderland (que acabou a sua série de 51 jogos sem perder em casa) e Palace, antes acabar a temporada com o péssimo 7-1 frente ao Tottenham – dos 36 golos que sofreu, 13 foram nesses últimos três jogos. Culpar Marco pela descida do clube ao Championship é de loucos, já que a expetativa era zero. Que a equipa vacilou no último mês, talvez. Mas o seu histórico fala por si no que toca à sua qualidade como treinador – faltam-lhe os troféus e provar-se num clube que lhe dê recursos (até agora trabalhou mais com orçamento limitado – para seu bem ou não) para se poder colocar numa classe elevadíssima. Mas que tem qualidade, tem. Afinal, há razão para ter vários clubes da Premier League a tentar desviar a sua ligação ao FC Porto.

No que toca à sua relação com os media, tanto nos dias após pontuar frente a Liverpool ou United como depois de perder frente a Sunderland e Palace, teve o mesmo (pequeno) espaço nas capas de jornais.

A única exceção deu-se depois do 7-1 frente ao Tottenham, onde nenhum dos 3 grandes jornais noticiou o assunto na sua capa. A sua saída do Sporting foi extremamente controversa – nem sou ingénuo ao ponto de acreditar que tenha sido só aquilo que foi passado para fora –, a do Olympiakos também levantou algumas questões na Grécia, mas penso que não há informação suficiente sobre tal para fazeres juízos de valor ao seu caráter como pessoa – tenho sim mais que suficientes para dizer que sim, é bom treinador dentro de um contexto que beneficie as suas caraterísticas.

Marco Silva e pluralidade de opiniões (Foto: Getty Images)

JOÃO MÁRIO E RENATO SANCHES

As duas grandes revelações do futebol português transferiram-se por grandes quantias no passado verão e, após terem dificuldades nas suas novas realidades, agora servem de peões para discussões entre adeptos sobre quem esteve “menos mal”. Começar por dizer que cada situação é isolada, e só como tal se deveriam analisar.

Renato Sanches foi crucial para a conquista do campeonato pelo Benfica há um ano, com caraterísticas que se adaptavam na perfeição ao jogo dos encarnados. Entrou na equipa e não mais saiu, conseguindo depois também acabar por ajudar na conquista do Euro.

No entanto, ao serviço do Bayern fez apenas 800 minutos – LC + Bundesliga. Podemos começar por mencionar que Renato tem 19 anos e acabou de se mudar para um dos maiores clubes do planeta, e cada atleta tem um tempo de adaptação diferente, o que é compreensível.

Taticamente falando não faltavam opções à sua frente: Thiago foi um dos (para mim “o”) melhores médios da Europa esta época, Vidal tem lugar garantido e Kimmich já tinha sido muito rodado na equipa na época passada (era natural começar um passo à frente). Sem mencionar o Alonso (e até Javi Martinez por vezes) na posição de médio defensivo pois não é esse o papel de Renato, e relembrar ainda que quando revertiam para um 4-2-3-1 com Muller como segundo avançado se perdia mais um lugar no meio-campo.

Acho sinceramente que a saída de Renato se podia ter consumado, mas o Bayern foi uma escolha menos boa. Por muito que Ancelotti tenha dado o seu cunho à equipa, uma equipa pós-Guardiola irá continuar a incutir a sua verticalidade através do passe em oposição a uma verticalidade dada pela progressão com bola como acontecia no Benfica – e como acontece noutras equipas que se falavam interessadas no Renato.

Não é um jogador com capacidade de passe para substituir Xabi Alonso, nem lhe beneficiaria ficar preso a terrenos tão recuados e temo que, se o tentarem moldar demasiado, possa descaracterizar-se daquilo que já faz com qualidade.

Voltando ao assunto dos media: foram inúmeras as capas de jornais e a quantidade de propaganda ao Renato, pintou-se uma imagem desviada da realidade sobre um jogador humilde e com mérito pela época que fez – algo que não beneficiou o jogador que teve de lidar com pressão acrescentada e expetativas que não encaixavam com a realidade. Resultou numa invariável corrida dos colossos europeus cuja prioridade era garantir o “novo bola de ouro” antes que explodisse no campeonato europeu, e não necessariamente verificar até que ponto encaixava na sua equipa.

Pressão, pressão e mais pressão em Renato Sanches (Foto: Der Bild)

A situação de João Mário é algo diferente. Acho que poucos questionam a sua qualidade, mas a sua tomada de decisão ao ingressar no autodestrutivo Inter deverá ser questionada – se, como se reportou na altura, haviam outras equipas dispostas a pagar o mesmo. Mais um ano em que o Inter apresentou um projeto que lhes levaria “de volta aos tempos áureos”, mas no qual em novembro já De Boer tinha sido despedido. Enquanto Renato teve dificuldades em quebrar uma estabilidade constante da equipa do Bayern, no Inter foi a instabilidade constante que não beneficiou João Mário.

Quando finalmente a equipa entrou numa boa sequência já com Pioli – 11 vitórias em 13 na liga entre dezembro e março – o português era normalmente preterido. Num 4-2-3-1 em que Gagliardini e Kondogbia se tornaram âncoras do meio campo, na direita era necessária a largura dada por Candreva – algo que JM não sendo um extremo puro não consegue dar – e pelo meio surgia Banega em forma. Pioli acabou por liderar de novembro a maio, saindo depois dos resultados caírem a pique, mas não ajudou o facto de o treinador que treinou JM durante maior parte da época não ter sido quem decidiu investir 40M€ nele.

Apesar de tudo somou 2000 minutos na Serie A, 22 vezes titular, contribuiu com 3 golos e 5 assistências, e teve uma mão cheia de grandes jogos. Mas se pegarmos em todos os jogos nos quais marcou ou assistiu e ainda adicionarmos o 2-2 frente ao Milan no qual foi tão elogiado, temos 8 jogos. Façamos as contas: são três os grandes jornais desportivos portugueses que saem no dia seguinte. Se só contarmos os tais oito jogos em que João Mário teve direta influência, temos de avaliar 24 capas e, surpresa ou não, João Mário foi incluído em apenas uma, pel’A Bola. Enquanto isso, a Gazzetta Dello Sport se deliciava com a sua qualidade e questionava a Pioli a sua falta de tempo de jogo. Claro que as capas de jornais não significam tudo, mas são um bom indicador do que se passa na comunicação social portuguesa.

No fundo, se querem comentar e debater jogadores, pelo menos vejam jogos primeiro. A imprensa desportiva nacional padece de vários problemas, apesar de ter algumas virtudes… no caso de Renato Sanches, o excesso de “luz” dado ao médio-centro do Bayern acaba por criar uma “ilusão” e pressão desnecessária sobre o antigo jogador do SL Benfica. O crispar de opiniões, a divisão entre adeptos e o extremar de posições é proporcionado pela construção de notícias e capas de jornais que criam uma fantasia positiva ou negativa, não fundamentada ou pouco clara, que só prejudica a cultura desportiva em Portugal.

Artigo da autoria de Tiago Estêvão, analista de futebol português nas plataformas WhoScored e PortuGOAL.net.

Que futuro João Mário? (Foto: Pier Marco Tacca/Getty Images)
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Ricardo LestreNovembro 3, 20167min0

A capacidade de gestão dos dois gigantes de Milão nos últimos anos tem sido alvo de fortes críticas. Os resultados desportivos alcançados continuam a não reflectir o milionário investimento efectuado, inclusive, o das novas entidades asiáticas e reguladoras de ambos os clubes. Em particular, o caso do Internazionale tem sido bastante debatido porque, ao contrário do seu eterno rival na vigente época, não tem conseguido materializar todo o seu potencial técnico-financeiro numa saudável e próspera evolução.

A curta era Mancini

O regresso de Roberto Mancini ao banco dos Nerazzurri em 2014, depois da fraca réplica ao leme de Walter Manzarri, pretendia devolver a glória de tempos passados a uma instituição que continua a viver na sombra das conquistas de José Mourinho. Para além de um valor exorbitante despendido a nível de infraestruturas e expansão da marca, o reforço do plantel foi um dado essencial e assinalável que colocou, no imediato, o Inter de Milão num patamar altíssimo, aos olhos do resto do mundo. Mancini teve, de facto, um enorme leque de opções de qualidade à sua disposição.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O saldo final calculado entre as muitas compras/vendas no ano civil de 2015, sorriu aos cofres da direcção liderada por Erik Thohir. Na vasta lista acima indicada, o valor total corresponde a 90 milhões de euros divididos entre inúmeros empréstimos com opção de compra e aquisições em definitivo. Em contrapartida, o total de vendas atingiu um montante astronómico de 105 milhões de euros (!), o que, para além de demonstrar uma gestão aparentemente bem conseguida, sobretudo a nível financeiro, significou uma remodelação global do plantel.

O desafio não seria fácil. No entanto, e por muito que seja motivo de desacordo entre as massas, o palmarés de Roberto Mancini mostrava que este, como havia trabalhado no Manchester City, estava à altura do desafio. Com a queda do pano na Serie A 2015/2016, o Internazionale terminou num amargo 4º posto da tabela classificativa, a uma distância considerável da AS Roma e do Nápoles de Maurizio Sarri. Foi um ano de altos e baixos. A equipa demonstrou, por um lado, uma excelente coesão defensiva, com a dupla de centrais Miranda-Murillo em evidência, mas, por outro, uma certa dificuldade do meio-campo para a frente. Isto porque a criatividade produzida no apoio a Icardi só funcionou realmente em algumas partidas e o internacional argentino encontrou-se desapoiado de forma frequente. A indecisões tácticas de Mancini, variando entre os sistemas 4-2-3-1, 4-3-3 e/ou 4-4-2, foram, assim, o espelho da inconstância do polo azul de Milão.

Foto: Manchester Evening News
Foto: Manchester Evening News

Incessante procura da salvação em solo holandês

A degradação das relações internas de Roberto Mancini levou ao seu despedimento apenas a duas semanas do início do presente campeonato italiano. Para o seu lugar aterrou o já esperado Frank De Boer, após inúmeras épocas ao serviço do Ajax de Amesterdão. Com um plantel já formado e com uma discrepância gigante entre compras e vendas  (de 129 milhões para uns meros 12 milhões), ao contrário do ano anterior, o timing da apresentação do ex-internacional pela Laranja Mecânica não foi, obviamente, o ideal. Bem longe disso.

Imagem: transfermarkt.pt
Imagem: transfermarkt.pt

O reinado de De Boer foi longo em Amesterdão. Foram mais de 260 jogos divididos por 6 épocas, com 4 títulos da Eredivisie conquistados (tetra entre 2011 e 2014), mas o seu epílogo vestiu-se cores fúnebres, que o Ajax viu escapar os últimos dois campeonatos para o seu arqui-rival PSV. Em 2015/2016, aliás, tal sucedeu na última jornada, e mais precisamente nos últimos 20 minutos de uma longa época que agudizou ainda mais o desgaste (natural) de De Boer.

Ainda que com números interessantes – no último exercício, o Ajax esteve 18 jogos sem sofrer qualquer golo e assinou uma 2ª volta sem experimentar o sabor da derrota –, o técnico holandês era, não raras vezes, acusado de não ter o rasgo e agilidade necessários para ultrapassar os problemas que o seu robotizado 4-3-3 enfrentava num ou noutro momento. A turma de Amesterdão vivia sobretudo de um jogo marcadamente exterior, com grande intervenção dos extremos, apelando à superior qualidade individual em terrenos holandeses. Essa capacidade de desequilíbrio – em muitos momentos fruto, precisamente, de mais mérito individual do que capacidade colectiva –, aliado a uma capacidade para saber congelar o jogo com bola – muitas vezes, até, tornando-se uma equipa algo monótona nos seus processos – era praticamente garante de ascendente interno no país das tulipas. Lá fora, porém, com um upgrade da dimensão competitiva, no referido ciclo temporal de 6 épocas, não houve uma única campanha digna de realce na Europa da parte do Ajax, falemos da Liga dos Campeões ou de Liga Europa. A saída do comando técnico dos Ajacieden configurou, assim, como que um alívio para ambas as partes. Para o próprio clube/equipa, que precisava de soltar as amarras que, muitas vezes, Frank lhe impunha; e para o técnico holandês, desgastado (e quiçá desmotivado), depois de longas seis épocas e de já pouco ter a provar no contexto interno.

Em Itália, a aplicação dos mecanismos do seu tradicional 4-3-3 não surtiu efeito. O Inter rubricou exibições paupérrimas e saiu várias vezes do Giuseppe Meazza sob forte contestação dos adeptos. A pressão acrescida a que De Boer estava sujeito, não só pela elevada injecção de capital mas também pela crise de troféus que o clube atravessava e atravessa de momento, colocou o holandês prontamente numa situação instável. Posto isto, o seu afastamento premeditado conheceu a oficialização no pós-Sampdoria, encontro em que o Inter saiu derrotado por uma bola a zero no Luigi Ferraris, relegando a equipa para um inacreditável 12º lugar.

As ilações que se retiram da estadia de Frank De Boer são claras. Numa altura em que considerava a possibilidade de fazer um ano sabático, o convite do Inter assumiu-se como um verdadeiro presente envenenado. Pelo timing em que surgiu, após a saída de Mancini e a escassos dias do arranque da época; pelo facto da pouca (ou nenhuma) influência que teve na construção e formatação do plantel; e ainda porque o Inter continua a viver entre o limbo de uma gestão ilusória e de expectativas atraiçoadas.

Foto: quotidiano.net
Foto: quotidiano.net

Artigo elaborado em parceria com Filipe Coelho, redator do futebol holandês.


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