Arquivo de Eredivisie - Fair Play

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Filipe CoelhoJulho 26, 201713min0

Depois de um 2016/17 muito positivo, a nova época na Holanda traz consigo, por diferentes e diversos motivos, desafios de sobra. A Feyenoord, Ajax e Utrecht de nada valerá gozar os triunfos passados; antes, terão de se readaptar face a novos contextos, para que 2017/18 seja uma época ainda mais saborosa do que aquela que tão boas recordações deixou.

FEYENOORD

Kampioen van Nederland! Finalmente o enguiço foi quebrado, e, dezoito anos depois, o Feyenoord voltou a provar o doce sabor da conquista, coroando-se como o rei do território holandês. O bom arranque da época foi fundamental para o sonho ser alimentado e, enfim, para a concretização de um objectivo há tanto tempo adiado.

A travessia no deserto foi longa e contou com momentos verdadeiramente humilhantes, como seja a hecatombe às mãos do PSV, em 2010/11, numa derrota por 10-0! Os primeiros sinais de ressurgimento haveriam de aparecer na época seguinte – Ronald Koeman assumiu o comando técnico da equipa e foi o responsável por uma certa mudança de mentalidade em Roterdão, conseguindo, por exemplo, um 2º lugar em 2013/14.

Depois de bons indícios em 2015/16 – e da conquista da Taça da Holanda –, 2016/17 foi a época da suprema redenção. Mas não foi, de todo, fácil, tendo em conta que os pupilos de Giovanni van Bronckhorst somaram 3 derrotas nas últimas 10 jornadas, sendo que, aqui, a curiosidade prende-se com o facto de duas dessas derrotas terem sido às mãos dos rivais citadinos – Sparta e Excelsior.

Na corrida para a conquista do título, é fundamental falar em vários nomes que se revelaram decisivos (sobretudo na recta final). Botthegin (central algo inestético no seu jogo mas eficaz), VilhenaEl-Ahmadi (dupla equilibradíssima no miolo) e Jorgensen (trouxe classe e killer instinct, acabando como o maior goleador da prova) fizeram épocas notáveis, sem esquecer nomes como Berghuis (muito forte no drible interior, como que fazendo lembrar Robben), Toornstra (elemento sempre ligado ao jogo e com um pontapé de meia-distância temível) ou o keeper Brad Jones, que assinou, quiçá, o mais importante momento da época quando fez uma defesa monstruosa, no último suspiro do jogo de Eindhoven (vitória do Feyenoord por 1-0, diante do PSV), aumentando assim a vantagem pontual para 5 pontos, face ao então bicampeão em título, à passagem da 6ª jornada. O Feyenoord foi, aliás, o único conjunto a vencer a turma de Eindhoven por duas vezes em 2016/17.

Mesmo permanecendo durante toda a temporada como líder da Eredivisie, o libertar do champagne por parte dos homens do Feyenoord só pôde ser consumado na última jornada. E que bonito congregar de emoções! 3-0 no Heracles Almelo com um hat-trick de Dirk Kuyt, ele que, volvidas algumas horas, anunciava a sua despedida do futebol profissional. O homem que volvera a Roterdão com um objectivo bem definido na sua mente, dava, assim, numa bandeja, a maior alegria aos (seus) adeptos sedentos.

Foto: Goal.com

2017/2018

O desafio para o agora campeão holandês passa pela capacidade de ultrapassar um defeso extremamente movimentado e, sobretudo, pelo regresso à Champions, uma competição que o Feyenoord não frequenta desde 2002/03.

Kongolo (Mónaco), Karsdorp (Roma), Elia (Basaksehir), Berghuis (regresso ao Watford) e Kuyt (fim de carreira) são todos nomes de elementos muito importantes na fantástica campanha de 2016/17. Mas todos eles acabam de abandonar Roterdão. A verdade é que, ainda assim, Giovanni van Bronckhorst pode dar-se por satisfeito. Primeiro, porque os substitutos destes chamam-se Haps (AZ), Diks (empréstimo da Fiorentina), Boetius (Basileia), Amrabat (Utrecht) e St. Juste (Heerenveen) – todos muito jovens (o mais velho é Haps, com 24 anos) mas igualmente com rendimento comprovado e potencial ainda por descobrir.

E na categoria dos reforços podem ainda encaixar-se os nomes de Vermeer (um dos melhores guarda-redes da Eredivisie em 2015/16) e – ainda que não no imediato – Van Beek (central de 22 anos), dois elementos que sofreram graves lesões e que estão há muito arredados da competição. A esta boa noticia ainda se podem juntar as renovações dos contratos de Van der Heijden e Toornstra, dois jogadores bem mais experientes e tão utilizados quanto utilíssimos na época transacta.

Com a saída de cena de Kuyt, há a possibilidade de o Feyenoord deixar um pouco de lado o seu 4231, ensaiando uma aproximação ao 433, com o trio El-Ahmadi, Vilhena e Amrabat no miolo. E (ainda) sem uma alternativa válida a Berghuis do lado direito do ataque, deriva Toornstra para essa zona, ele que sabe vir para espaços interiores, robustecendo o meio-campo – uma opção sobretudo a considerar em jogos de maior dificuldade, como seja os da liga milionária.

De qualquer forma, se há sector a que os homens de Roterdão deverão acudir através de reforços é o sector mais atacante. Só Jorgensen é um elemento claramente acima da média; e, talvez por isso, Van Bronckhorst já tenha assumido que decorrem conversas em forma de sondagem a Robin van Persie. Será um remake do que foi feito com Dirk Kuyt na busca de um desfecho igualmente feliz…?

Foto: MySoccer HQ

AJAX

2016/17 não trouxe títulos para Amesterdão mas o Ajax terá de ser considerado como um vencedor. Primeiro porque voltou a ser extremamente competitivo internamente; depois porque retornou a uma final de uma competição europeia, enquanto culminar de uma campanha grandiosa na Liga Europa; e, sobretudo, porque voltou a ver-se um Ajax fiel a um estilo cruyffiano, com um futebol ofensivo, atractivo, enfim, apaixonante, e que fez a Europa do futebol voltar a olhar para a Holanda como palco a considerar.

O grandioso mérito pertencerá a Peter Bosz, treinador que pegou na turma ajacien e que a retirou de um certo carácter amorfo em que se havia envolvido nas últimas épocas. Bosz mudou e inovou, ainda que isso tenha custado alguns pontos na 1ª volta da última Eredivisie, até que todas as suas ideias ganhassem corporização no relvado. Fiel a um estilo de jogo cativante, vários foram os jogadores que se catapultaram – Onana, Sánchez, De Ligt, Sinkgraven, Schone, Ziyech, Younes, Kluivert ou Dolberg – numa equipa que viu o título fugir-lhe por um ponto e enfrentou um Manchester United minuciosa e estrategicamente montado para anular as suas virtualidades na final da Liga Europa.

Seja como for, o orgulho foi restaurado em Amesterdão, com a equipa a expressar-se num 433 muito ofensivo, assente num trio de meio-campo completamente virado para a frente e com unidades no último sector tecnicamente muito habilitadas. Para além disso, a marca Ajax ficou bem vincada igualmente no aspecto da média de idades – um conjunto tremendamente jovem, mas que, inevitavelmente, em alguns momentos, também revelou ingenuidade.

Se os indícios eram bons e 2016/17 se encarava como uma óptima base para o futuro, rapidamente essa percepção mudou. Bosz foi convidado pelo Borussia Dortmund e esse foi o rastilho suficiente para se perceber que nem tudo ia eram rosas em Amesterdão. Tornaram-se públicos os desentendimentos entre Bosz (e o seu adjunto Kruzen) e a outra facção da equipa técnica, encabeçada por Dennis Bergkamp. O comboio do Borussia passou na hora certa e o competente técnico holandês deixou a (hoje) Arena Johan Cruyff rumo ao Signal Iduna Park.

Foto: NRC.nl

2017/2018

O enorme desafio por que passa hoje o Ajax traduz-se na forma como irá ultrapassar a saída do seu treinador (Bosz), a transferência do seu capitão (Klaassen) e o trauma provocado pelo drama vivido por um dos mais talentosos elementos da sua base (Nouri).

O sucessor de Bosz foi encontrado em casa – trata-se de Marcel Keizer, ex-técnico do Ajax B, para além de ser também sobrinho de Piet Keizer, lendário extremo do Ajax e da selecção holandesa na década de 70. Também calvo como Bosz, Keizer destacou-se pelo trabalho na equipa secundária na época passada, ao terminar a 2ª divisão holandesa no 2º lugar, depois de passagens pelo Telstar, Emmen e Cambuur (este último já na Eredivisie). Não é crível que altere substancialmente a forma como o Ajax se apresentou na última época, até tendo em conta o bom legado deixado por Bosz.

Diferentemente será se o mercado lhe levar os seus diamantes. Dolberg tem sido associado ao Real Madrid, Sánchez ao Barcelona e Younes já teve abordagens da Bundesliga. Até ver, porém, ‘apenas’ Davy Klaassen saiu rumo ao Everton – um ‘apenas’ enganador, que o loiro médio era a voz de comando em campo, para além de ser um elemento preponderante na manobra ofensiva, com grande chegada na área adversária –, e deixando assim a braçadeira de capitão a Joel Veltman (também ele com aproximações de Inglaterra, mais propriamente do Tottenham). De regresso está Huntelaar – e aqui reside um ponto importante, que Kaizer poderá sentir-se tentado a buscar uma compatibilização entre Dolberg e o veterano avançado. Se avançar para isso, terá, necessariamente, de mexer na estrutura e nos comportamentos colectivos da equipa, o que comportará um risco considerável.

Finalmente, será decisivo perceber como, colectivamente, o conjunto de Amesterdão superará a tragédia que se abateu sobre Nouri. O médio de 20 anos era um dos elementos mais queridos da cúpula ajacien, pelo facto de ter feito toda a sua formação no Ajax e de ter sido eleito o melhor jogador do 2º escalão na temporada passada, revelando-se um dos maiores talentos da nova geração. Por tudo isto, eram-lhe reservadas enormes expectativas para a nova época na equipa principal . Que terão de ser digeridas e ultrapassadas por um balneário que, naturalmente, sentiu (e ainda sente) emocionalmente um episódio desta natureza. Fazer do trauma o combustível é aqui indispensável.

Foto: De Telegraaf

UTRECHT

Tal como em Portugal, na Holanda, há os 3 e “os outros”. E o vencedor dos “outros”, nas últimas duas épocas, foi o Utrecht. Em 2015/16, ficou em 5º na Eredivisie e chegou à final da taça; na época passada, terminou em 4º e caiu nos quartos de final da segunda competição do país. Em qualquer destas épocas chegou ao playoff interno de acesso à Liga Europa (mini-campeonato entre as equipas que ficam no 4º, 5º, 6º e 7º lugares da classificação) – no primeiro ano, perdeu na final diante do Heracles Almelo; agora em 2016/17 ultrapassou na eliminatória decisiva o AZ Alkmaar e chegou, finalmente, à Liga Europa.

O obreiro chama-se Erik ten Hag. Proveniente das camadas jovens do Bayern de Munique – já depois de uma passagem bem sucedida pelo Go Ahead Eagles –, Ten Hag construiu uma equipa de autor, com um modelo muito bem definido, logrando, em 2016/17, a 2ª melhor prestação do Utrecht num período de mais de 20 anos. O que lhe terá valido, inclusivamente, a cogitação para o comando técnico do Ajax e até uma alegada indicação para o assumir do cargo de seleccionador nacional holandês.

Jogando estruturalmente de forma diferente em relação à maioria das equipas da Eredivisie, o Utrecht dispõe-se num 442 losango, com demonstrada aptidão para privilégio de um jogo construído de forma mais pausada, ou variando, em alguns momentos, para um jogo mais directo, surgindo Haller como jogador-alvo, com aproximações imediatas da linha intermédia, para, assim, surgirem ligações e combinações com Kerk ou com o ex-sportinguista Labyad, atacando a baliza do opositor rapidamente.

Com um plantel tendencialmente equilibrado, torna-se indispensável, no entanto, destacar o papel fundamental de elementos como Janssen (capitão e elemento fulcral ao nível da bola parada) Ayoub, Brama, Amrabat, Haller, para além do jovem Troupée (lateral de grande propensão ofensiva) e do entretanto reabilitado Labyad.

Foto: voetbal.com

2017/2018

A nova época é um teste de fogo para os utregs: pelas importantes baixas que o plantel já sofreu e pela oportunidade de voltar a disputar uma competição europeia (com a inerente necessidade de gestão do esforço que esse contexto implica).

Perder o melhor marcador estrangeiro da história do clube não é um bom sintoma; porém, segurar Haller tornou-se uma missão impossível. O francês era muito mais do que um matador, sendo elemento vital nas últimas duas épocas de sucesso, pela forma como jogava e fazia jogar os companheiros que com ele coabitavam. E as saídas de Amrabat (Feyenoord) e Barazite (Malatyaspor) possivelmente também deixarão mossa. Caberá a Ten Hag recuperar a fórmula utilizada há cerca de um ano, quando então partiram Letschert, Ramselaar e Boymans.

Todavia, a abordagem ao mercado aparenta ter sido cirúrgica e com padrões interessantes de qualidade, com o recrutamento de elementos interessantes de plantéis de equipas menores (Twente, NEC, Cambuur ou NAC), para além das oportunidades dadas ao renomado Urby Emanuelson e ao ex-Benfica Bilal Ould-Chikh. Resta saber se Simon Makienok (Palermo) terá capacidade para fazer esquecer Haller. Em termos fisionómicos, dir-se-ia que sim; em termos técnicos, os primeiros apontamentos deixaram muito mais dúvidas do que certezas.

Depois de, na 2ª eliminatória de acesso à Liga Europa, ter ultrapassado o Valletta (Malta), segue-se, de imediato, o medir de forças diante de um adversário bem mais robusto como é o caso do Lech Poznan (Polónia). Muito daquilo que será a época do Utrecht terá uma definição já nas próximas duas semanas, o que apela a que haja uma rápida integração dos elementos que agora chegam. E quão bom seria se chegasse também… Wesley Sneijder? Ten Hag não confirma contactos, mas, na Holanda, garante-se que já houve aproximações na tentativa de persuadir o jogador mais internacional de sempre pela Laranja a jogar pelo clube da terra onde nasceu.

Foto: nrc.nlrd
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Filipe CoelhoFevereiro 7, 201710min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Depois de diagnosticadas as causas para uma campanha bastante abaixo do expectável, é altura de perceber por onde pode o PSV crescer para encurtar as distâncias para os dois primeiros – 8 pontos face a Feyenoord e 3 relativamente a Ajax – e, assim, sonhar com a intromissão na luta pelo título.

Balança de mercado

O mercado de inverno trouxe duas noticias relevantes. Por um lado, o retorno de Marco van Ginkel, emprestado pelo Chelsea, tal e qual como havia sucedido há um ano atrás. O médio holandês traz outra capacidade de chegada à área adversária, destacando-se pela notável veia goleadora.

Por outro lado, o PSV deixou partir Narsingh (Swansea) e Jozefzoon (Brentford). Ambos extremos, se o segundo pouca relevância e minutos apresentava na equipa principal, já o primeiro era figura constante e importante no onze titular. Estranha-se, por isso, que os Boeren, tendendo a canalizar uma importante fatia do seu jogo pelos corredores laterais, tenham deixado sair dois elementos que actuam nessa zona do terreno. Ainda mais porque Locadia continua a recuperar de uma grave lesão, não havendo ainda uma data definitiva para o seu regresso.

Da nuance ao dilema

Em virtude destas saídas, o próprio modelo do PSV tem sofrido, nas últimas semanas, algumas nuances. Se era relativamente expectável que fosse Steven Bergwijn – um jovem extremo puro de 19 anos, ainda mais rápido e imprevisível do que Narsingh, mas com notórios e naturais problemas ao nível da decisão, sobretudo no momento (ou não) de finalização – a assumir o papel interpretado, até então, pelo agora jogador do Swansea, Cocu tem optado por colocar Ramselaar na ala esquerda (com Pereiro na direita).

E isto apresenta implicações claras na forma como o PSV se predispõe a jogar. Contratado ao Utrecht no inicio desta temporada, Ramselaar tem sido, possivelmente, o jogador mais constante e consistente da turma de Eindhoven, destacando-se no centro do terreno pela forma como é capaz de acelerar o jogo com e sem bola, e quase sempre pelo chão. Um autêntico dínamo, que busca, dá, acelera e volta para dar linha de passe.

Colocar o pequeno médio holandês na ala e esperar que ele apareça em velocidade (à semelhança do que fazia Narsingh) é contra-producente. E é o próprio jogador que, pela sua intuição, procura o espaço central, não se deixando fixar na ala. Isto leva a que o PSV acabe por viver um dilema. Não pode estar tão dependente de um jogo directo, ainda para mais quando não tem extremos puros para ganhar as costas das defesas em profundidade.

Ramselaar a perceber as dificuldades da equipa e a ter sensibilidade para recuar. É neste espaço que pode realmente fazer a diferença.

Por outro lado, cambiar uma matriz de jogo tão enraizada não é fácil. Ainda para mais quando Luuk de Jong é o ocupante do espaço #9, destacando-se pela sua imponência física e pela forma elogiável como vence praticamente todos os duelos aéreos. Há, pois, um instinto natural de colocar a bola na frente de forma rápida e pelo ar, não se promovendo um jogo de conexões e apoios.

Isto leva a situações algo discutíveis em termos de eficácia. Tomando por referência a partida do Heerenveen, e numa altura em que o PSV se encontrava em desvantagem (2-3), a partir do minuto 79, os Boeren despejaram autenticamente 8 bolas directamente da defesa para o ataque, em menos de 10 minutos! Uma enormidade de passes longos, com um critério pouco racional, num momento em que não havia grande capacidade de largura no jogo da equipa, já que, depois de mexer, Cocu deixou Ramselaar e Van Ginkel nas alas. É certo que o conjunto de Eindhoven ainda consumou a reviravolta, mas não como consequência directa da opção por esse estilo de jogo mais primitivo.

Vejamos alguns lances que ilustram plenamente a forma como o PSV tenta atacar.

Sem grandes linhas de passe, Daniel Schwaab vai fazer um passe mal medido. O Heerenveen recuperará a bola e terá espaço e capacidade para ‘meter’ o ataque rápido.
Um minuto depois, idêntica situação: na zona central do terreno, onde há 4 jogadores do Heerenveen, um vazio de elementos do PSV.
Jogada-tipo do PSV. Passe longo (aqui de Moreno), disputa aérea, (neste caso de Pereiro), e recuperação para remate de Luuk de Jong (sinalizado a amarelo, tal como Propper). Situação de 3×2 em função de um mau posicionamento dos homens do Heerenveen.
Mais um lance da mesma estirpe, que acabará por redundar em golo. Passe longo de Moreno, três homens a atacar a profundidade e vai ser Propper a cabecear a bola na linha limite da grande área do Heerenveen (aproveitando um erro do keeper Mulder).
A circunstância do costume. Aqui haverá passe de Ginkel com a bola a perder-se pela linha de fundo.

De facto, muitas das dificuldades sentidas pelo PSV nesta temporada decorrem desse perfil de jogar. Perante blocos recuados e relativamente coesos, a reiterada opção pelo passe longo e directo tem uma eficácia tremendamente discutível. Assim, se os Boeren não pretendem uma mudança na forma preferencial como atacam, é pelo menos evidente que a 2ª linha tenha de estar mais avançada e mais junta, mais preparada para a recuperação da 2ª bola, não permitindo que o esférico ‘fuja’ do último terço ofensivo.

Por outro lado, e recuperando uma ideia atrás expressa, o recente arrastamento de Ramselaar para a esquerda – em Almelo, até começou à esquerda e acabou à direita – e a afirmação de Pereiro na direita, ambos com pés trocados em relação à faixa ocupada, acaba por levar a que aconteçam com mais assiduidade movimentos interiores destes dois elementos, o que, inadvertidamente ou não, torna a equipa mais ligada entre si.  

Comportamento e conexões estabelecidas entre os jogadores do PSV em três partidas recentes. Da esquerda para a direita, do mais recente para o menos recente, nota-se uma evolução, com os jogadores mais próximos entre si e suscitando, assim, maior número de ligações. (Fonte: 11tegen11)

A rectaguarda

Finalmente, o PSV, habitualmente uma equipa que sofre poucos golos, tem, nas últimas semanas, visto a sua baliza ser violada de forma reiterada. São 6 golos sofridos nos últimos 3 jogos, e ainda a sensação de que a equipa de Cocu é facilmente desmontável, pela frequência com que surgem espaços no corredor central (diante do Heerenveen isso foi recorrente).

No fundo, nota-se uma equipa que, em organização defensiva, tem problemas na coordenação na linha defensiva mais recuada, com distância excessiva entre os elementos que a compõem e um controlo nem sempre competente da profundidade. Por outro lado, até pela opção de fazer de Guardado médio-defensivo, vários são os momentos em que a cobertura do espaço central do terreno não é feita da melhor forma, surgindo clareiras evidentes. O mexicano é elemento fundamental na forma como inicia o processo ofensivo dos de Eindhoven, mas a amplitude da sua acção em termos defensivos está longe de ser o garante de noites tranquilas ao reduto mais recuado.

Evidentes duas situações. A fraca cobertura do espaço central, bem como uma distância desmesurada entre os elementos da linha mais recuada (sobretudo entre Arías, defesa direito, e Schwaab).
Uma equipa pouco fechada em si para melhor controlar os movimentos do adversário. Mais gritante ainda: o controlo deficiente da profundidade por parte da última linha defensiva, dando possibilidade ao jogador do AZ Alkmaar de surgir isolado diante da baliza.

Para diante

Em suma, a chegada de Van Ginkel aporta consigo mais um elemento de inegável qualidade ao meio-campo do PSV, hoje com maior capacidade de fogo e de … golo. Tem ainda o condão de possibilitar a derivação de Ramselaar para a ala esquerda. E aqui pode estar o maior dilema para Cocu. Tornar a equipa mais versátil e ligada no seu jogo, com outra capacidade de se espraiar em campo através de um jogo posicional mais evidente ou manter a opção pelo chamamento de Guardado como primeiro homem de potenciação de um jogo mais directo e de apelo à disputa aérea, mas já sem a velocidade de Narsingh para explorar. E finalmente o acerto dos mecanismos defensivos colectivos, algo que pode sofrer um input com a ansiada total recuperação de Jorrit Hendrix.

Os oito pontos de atraso face ao Feyenoord podem parecer uma distância demasiado longínqua, mas são ainda recuperáveis. Até porque o PSV terá de visitar a Banheira de Roterdão ainda este mês, tendo a oportunidade de relançar todo o campeonato. Para aquele que é possivelmente o plantel mais robusto da Eredivisie, ainda há tempo. Mas Cocu tem de fazer por potenciar algum talento que, por motivos vários, tem estado oculto ou negligenciado.

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Filipe CoelhoJaneiro 30, 20175min0

No clube com um dos equipamentos mais icónicos da Holanda actua um jovem loiro e sardento. Bastava esta mescla de imagens para suscitar interesse. Mas Sam Larsson, do Heerenveen, tem bem mais para mostrar – como tem mostrado. Aos 23 anos, é um dos jovens valores da Suécia e tem encantado na Eredivisie 2016/2017. Nada como conhecê-lo no Fair Play através do software da Talent Spy.

Portugal pode não conhecer Sam Larsson. Mas Sam Larsson certamente sorrirá de cada vez que ouve o nome do nosso país. O extremo sueco foi, afinal, um dos carrascos da selecção das quinas no último Europeu sub-21, em 2015. Ainda que não tenha sido utilizado na grande final, Larsson fez parte do lote que os suecos levaram até à República Checa, conquistando o troféu naquela categoria. É, aliás, esse, até ver, o grande momento da carreira de Sam Larsson.

Mas, com efeito, outros importantes momentos poderão estar à porta. O jovem loiro, alto e sardento tem apresentado demasiado rendimento para se poder continuar a encarar o Abe Lenstra Stadion (reduto do Heerenveen) como sua casa-mãe por muito mais tempo. É, no entanto, no clube dos trevos vermelhos que Sam tem vindo a destacar-se. Foi lá que, em 2014, aterrou proveniente do IFK Gotemburgo – clube da sua terra natal e onde fez parte da sua formação, a que se junta ainda uma passagem pelo modesto IK Zenith.

No Heerenveen, só as lesões atrapalharam o seu arranque; depois de ultrapassadas, Sam Larsson rapidamente se afirmou na equipa, tornando-se uma das figuras mais relevantes da mesma. Depois de épocas positivas em 2014/2015 e 2015/2016, tem sido nesta nova temporada que o jovem sueco tem confirmado, inquestionavelmente, todo o potencial que lhe era reconhecido.

Partindo o Heerenveen de uma estrutura a roçar o 433 (ou mais próximo do 4231 quando Schaars está ausente), Sam Larsson ocupa primordialmente o corredor esquerdo do ataque. No entanto, está muito longe de ser um extremo com um raio limitado de acção. Pelo contrário, a forma como surge, com grande frequência, em espaços interiores confere grande dose de imprevisibilidade ao seu jogo. Sobretudo, porque não se prende nos movimentos com bola do exterior para o interior – da esquerda para a direita, potenciando o seu carácter destro –, mas surgindo também no inicio das jogadas no corredor central, armando jogo e afirmando-se como municiador do ataque da equipa de Jurgen Streppel. No fundo, emergindo como o falso elemento do 433, com capacidade para desestabilizar as organizações defensivas contrárias, através do passe ou mesmo do remate.

Mas Sam também detém características típicas de um extremo. Destaca-se pela qualidade no drible, pela capacidade de acelerar (mesmo não sendo propriamente rápido) e pela habilidade na hora de cruzar. Tem vindo, ainda, a assumir preponderância na marcação das bolas paradas, designadamente na cobrança de livres directos.

A belíssima campanha do Heerenveen nesta temporada tem muito a ver com a performance de Sam Larsson individualmente, mas também pela forma como o sueco se conecta com os companheiros da frente de ataque Arber Zeneli e Reza Ghoochannejhad, dando génese a uma tríade de respeito. Aos 23 anos, o extremo também já envergou a camisola da equipa principal da Suécia, tendo marcado no seu jogo de estreia (2-0 diante da Hungria, em Novembro último).

De recorte técnico requintado, e com grande serenidade no seu jogo, Larsson peca apenas pela forma como transforma essas características numa certa dormência na sua acção, quase se alheando do jogo em certos momentos. Num contexto competitivo mais exigente, isso poder-lhe-á ser fatal. Se limar tais arestas, e pela forma inteligente e assertiva como joga e faz jogar, o jovem sueco poderá, a breve trecho, voltar a escrever um novo capítulo na sua prometedora carreira.

BOA OPÇÃO PARA…

Ajax – Com El-Ghazi na porta de saída, a equipa de Peter Bosz conta apenas com Younes e Traoré como verdadeiras e imediatas soluções para as faixas laterais. Pelo seu estilo de jogo, de toque e passe, com ligações constantes, e promovendo os movimentos interiores dos extremos no clássico 433, Sam Larsson não teria problema algum em encaixar na equipa, mantendo-se, ainda, numa realidade competitiva que conhece perfeitamente.

Sporting – Se, no actual 4132 do Sporting, há Gelson do lado direito, do lado esquerdo poderia haver Sam Larsson, replicando o perfil de actuação e movimentação de Bryan Ruiz, o costa-riquenho que tem rubricado uma época abaixo do seu nível habitual. Sendo diferente do standard de extremo, o sueco teria possibilidade de oferecer mais algum cérebro e qualidade na decisão à turma de Alvalade.

 

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Filipe CoelhoJaneiro 27, 20176min0

Oito meses depois da conquista do bicampeonato, são também oito os (muito) pontos de distância face ao líder Feyenoord. Sem outra competição para disputar que não a Eredivisie, a época ameaça ser amarga para Cocu e companhia. As causas da crise são várias mas a porta não está totalmente fechada – como pode ainda reerguer-se o PSV?

Era pouco expectável que, à entrada para o inicio da 2ª volta, e ultrapassado o interregno invernal, oito pontos separassem PSV de Feyenoord. Pelo menos da forma como a tabela está montada, com o bicampeão tão atrás do rival de Roterdão.

Mas vários factores parecem contribuir para uma época perfeitamente abaixo das expectativas. Com efeito, para além da distância a separar da liderança, o conjunto de Eindhoven está já fora da Liga dos Campeões (e não conseguiu sequer a repescagem para a Liga Europa, quedando-se pelo último lugar do grupo D da Champions, com apenas 2 pontos) e viu-se afastado da Taça da Holanda às mãos do Sparta de Roterdão (derrota contundente por 3-1 em Outubro passado).

A performance do PSV na actual Eredivisie. (Fonte: statoo.com)

A culpa certamente se poderá repartir por várias aldeias. É certo que o bicampeão holandês, mesmo ostentando tal estatuto, nunca foi o protótipo de equipa apaixonante, com um jogo ofensivo, dominador, agressivo ou enleante. Pelo contrário, a sua coesão, pragmatismo, versatilidade e profundidade do plantel foram fulcrais para o sucesso das temporadas transactas.

As coisas parecem ter-se alterado em Eindhoven. Não em termos tácticos – de sistema, princípios ou modelo de jogo. Cocu continua fiel às suas ideias, optando invariavelmente por um 433 com jogo tendencial pelas alas, com ataques lestos e sem privilegiar uma posse de bola muito elaborada (diferentemente do Ajax).

Assim, ainda que, da espinha dorsal, apenas Jeffrey Bruma tenha deixado Eindhoven – rumo ao Wofsburgo da Alemanha –, o PSV tem sofrido imenso com uma dupla incapacidade num duo relevantíssimo. A saber, Andrés Guardado – hoje em dia a jogar no espaço #6 à frente da defesa – tem sido propenso a lesões, apresentando, ainda, um rendimento bastante inferior ao que lhe é habitual nas vezes em que tem sido opção. De grande municiador do ataque dos de Eindhoven, o mexicano apresenta-se hoje mais lento na execução e aparentemente com mais dúvidas na hora da decisão, com efeitos imediatos na sua principal arma: o passe.

Por outro lado, outro dos elementos com uma queda abrupta no seu rendimento é Luuk de Jong. O capitão de equipa e melhor marcador da Eredivisie em 2015/2016 mantém intactas as valências ao nível do jogo aéreo (é fortíssimo na impulsão). Contudo, apenas conheceu o doce sabor do festejo por 5 ocasiões esta época, atravessando uma grave crise de confiança e com uma nítida incapacidade em ser o serial killer que a sua equipa tanto necessitava. E que estava habituada, diga-se. Está é, aliás, a principal pecha do PSV na actual temporada. Se os Boeren continuam a ter capacidade de criar oportunidades de golo – ainda que em menor número do que em 2015/2016 –, têm sido gritantes as lacunas na finalização.

E é a partir daqui que se conseguem explicar empates poucos admissíveis, como os cedidos diante de Groningen (em casa), Willem II e Roda – todas estas partidas terminaram 0-0 (número ‘assustador’, se pensarmos que, nas anteriores cinco temporadas, o PSV apenas tinha concedido um 0-0). E tal trauma adensa-se, que nem mesmo as grandes penalidades escapam. Nas últimas 21 ocasiões em que pôde converter um penalty, o PSV desperdiçou 13, num problema que, em abono da verdade, se arrasta já desde a última temporada.

Por outro lado, para além de Guardado, elementos importantes na caminhada para o bicampeonato têm também sido alvo de infortúnios ao nível das lesões, como são os casos de Jorrit Hendrix (unidade relevante no meio-campo) e Jürgen Locadia (veloz extremo esquerdo). Ao que se pode aliar, ainda, os nomes de Siem de Jong e Oleksandr Zinchenko – ambos centrocampistas, emprestados por Newcastle e Manchester City, respectivamente, mas também eles atrapalhados por lesões sem conseguirem, até ver, afirmar-se como verdadeiros reforços na nova temporada.

Quanto a Siem, aliás, a expectativa era grande, pela forma como o médio poderia vir a interligar-se com o seu irmão Luuk. Todavia, tal conexão tem-se ficado sobretudo pelos intentos. Uma das raras excepções viu-se na partida da Arena de Amesterdão, frente ao Ajax (1-1), em que a entrada do jogador do Newcastle a meio da segunda parte foi fundamental para a equipa capitalizar um estilo de jogo mais directo. Com ele em campo, o PSV forjou uma aproximação a um 442 clássico, com maior presença na área e, por conseguinte, maior perigo. E Siem marcou mesmo, num lance em que a reconhecida visão de jogo de Pereiro foi essencial.

A forma como o PSV se comportou em campo diante do Ajax. (Fonte: 11tegen11)

Seja como for, as dificuldades do PSV esta temporada têm sido recorrentes. Poucas são as vitórias inequívocas, e as perdas de pontos sucedem-se. Dentro do terreno de jogo, perante blocos baixos, compactos e minimamente organizados, os pupilos de Cocu revelam uma imensa imperícia, optando grosso modo por um jogo carrilado pelas bandas laterais e/ou através de passes por alto na busca da profundidade. É raro ver os Boeren com um jogo mais ligado, através de um futebol mais apoiado, com soluções entre linhas e com uma maior dose de racionalidade.

Não obstante, o timoneiro Cocu não atira a toalha ao chão. Ainda há dias referiu-se à experiência que o PSV tem na disputa e conquista por títulos, por comparação com o Feyenoord, há muito tempo arredado das grandes decisões. E não teve papas na língua ao afirmar que a não conquista do título significará o falhanço da época desportiva.

A porta não está totalmente fechada para a equipa de Eindhoven. Mas para que o tricampeonato seja uma realidade há um claro upgrade a fazer no jogo da equipa, com várias unidades que podem dar mais de si e com outras a poderem surgir, encaminhando o conjunto para uma maior consistência, fiabilidade e qualidade ao nível exibicional. É esse o objecto da parte II.

Odds actuais relativamente à conquista da Eredivisie (Fonte: 11tegen11)
Evolução das odds relativamente à conquista da Eredivisie. (Fonte: 11tegen11)
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Filipe CoelhoNovembro 7, 20166min0

De nove jogos temperados com igual número de vitórias a dois pontos em três rondas, o Feyenoord regressa ao limbo entre a ilusão (da conquista) e o fantasma (de mais uma decepção). Os bons feelings do óptimo arranque de 2016/2017 tiveram sustentação – mas serão eles capazes de se auto-alimentar para garantir o doce sabor do título que foge desde 1999?

Giovanni van Bronckhorst não viveu esse ano de glória – comandados por Leo Beenhakker, os vermelhos e brancos venceram a liga holandesa com 15 pontos de avanço sobre o Willem II –, pois que já havia saído para o Rangers no defeso anterior. Mas é este antigo lateral esquerdo um dos principais responsáveis pela ascensão e cada vez maior consideração que o Feyenoord acumula enquanto competidor pelo título.

‘Gio’, à semelhança do ano passado, tem optado por dispor a equipa próxima de um 4231. À estabilidade táctica juntou-se a permanência das unidades mais relevantes e acrescentou-se um trio que se tem revelado fundamental no upgrade dos donos do De Kuip: Brad Jones (ex-NEC, veio acautelar a ausência de Vermeer devido a grave lesão e é tremendamente competente na saída dos postes), Steven Berghuis (emprestado pelo Watford, aportou  criatividade e repentismo ao lado direito do ataque) e Nicolai Jörgensen (ex-Copenhaga, um ‘9’ que elevou o jogo associativo do Feyenoord, destacando-se pela sua veia goleadora – é o melhor marcador da Eredivisie, com 8 golos em 12 jogos).

Não sendo uma equipa brilhante, empolgante ou completamente dominadora – à semelhança da esmagadora maioria das turmas holandesas, apresenta défices no processo defensivo, com uma indesmentível tendência para a marcação H-H –, o Feyenoord tem vindo a apresentar um futebol mais pensado e ligado do que na época anterior. Há vários factores que confluem para essa evidência.

Por um lado, a afirmação plena do ‘velhinho’ Kuyt como elemento de ligação entre os sectores intermédio e avançado. É o homem de 36 quem ocupa esse espaço pelo corredor central, afirmando-se verdadeiramente como a alma mater da equipa, futebolística e espiritualmente falando. Mantém toda a sua entrega ao jogo e – ate pela sua experiência – sabe sempre o que fazer com a bola, oferecendo inteligência à criação ofensiva – ademais, preserva a capacidade de surgir em zona de finalização (3 golos em 9 jogos), ligando muito bem com Jörgensen.

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Dirk Kuyt (Foto: omroepwest.nl)

De facto, este avançado dinamarquês de 25 anos terá de ser visto como um plus em relação a Kramer. Alia a imponência física (1,90 m) e, por isso, a capacidade de servir como jogador-alvo (desde logo nas saídas de bola) a um à-vontade com a bola interessante, que potencia a capacidade que tem para recuar e se envolver no jogo colectivo, oferecendo destreza na movimentação, qualidade nos apoios frontais e fiabilidade na hora de segurar e esperar que a equipa se aproxime.

Finalmente, a dupla El Ahmadi- Vilhena tem sustentado muita da capacidade do Feyenoord de se superiorizar aos seus opositores. O primeiro destaca-se pela qualidade nas coberturas defensivas e pela segurança/tranquilidade que transmite no controlo do espaço central (revelando-se ainda muito equilibrado na integração no processo ofensivo) – fabulosa a forma como se exibiu na vitória no clássico diante do PSV, em Eindhoven; já Vilhena, de raízes angolanas, tem perfume no seu pé esquerdo, evidenciando-se pela qualidade de passe e pelo poderoso remate (a que acrescenta a skill da bola parada), sendo perceptível a nuance táctica que oferece à equipa com não raras trocas posicionais com Toornstra, um médio versátil muitas vezes utilizado a partir do flanco esquerdo. São estes dois homens que, nas costas de Kuyt, permitem que o Feyenoord tenha um jogo mais pensado, pausado e fluido do que em momentos precedentes.

Um perfil de jogo colectivo mais integrado e conectado – não se vê actualmente os fortes centrais em espaço aéreo Botteghin e Van der Heijden a libertar de forma directa a bola de modo tão assíduo quanto anteriormente, por exemplo – mas que mantém alguns vícios do passado, como sejam a (ainda) excessiva propensão para atacar pelas bandas (bons valores como Elia, Berghuis e o rato atómico Basacikoglu também assim o ‘obrigam’, para além da capacidade de galope por parte do lateral direito Karsdorp) e alguma negligência no momento defensivo (vislumbrada na recepção ao Roda JC, apesar da folgada vitoria, ou diante do Go Ahead Eagles).

Durante o exercício de 2015/2016, o conjunto de Roterdão guindou-se aos lugares de decisão mas uma queda considerável pós-interregno de Inverno (com derrotas consecutivas) voltou a adiar o longo sonho da reconquista da Eredivisieschaal. Agora o arranque com o registo interno de 9 vitórias em outros tantos jogos elevou o conjunto de Roterdão a figura principal, considerando que, tal performance, neste século, ainda não havia sido alcançada por qualquer outro emblema. Porém, tal élan parece desvanecer-se …

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A derrota diante do Go Ahead Eagles poderá ter reaberto feridas não totalmente cicatrizadas (Foto: Sportfeed)

Os dois pontos conquistados nas últimas três jornadas desbarataram uma liderança que aparentava ser sólida. E pior poderia ser caso os mais directos perseguidores não tivessem também eles tropeçado – o PSV conquistou 7 em 9 pontos (segue em 3º) e o Ajax logrou 5 em 9 (segue em 2º). Sobretudo nas duas últimas partidas observaram-se circunstâncias com que os rotterdammers ainda não se haviam debruçado: diante do Heerenveen, os pupilos de Gio depararam-se com uma equipa que quis jogar e ter bola, condicionando imensamente o jogo dos homens de Roterdão e ameaçando com propriedade a baliza de Jones; e na derrota diante do Go Ahead Eagles, ficaram expostas as debilidades de um plantel que não resistiu à ausência do duplo pivot El Ahmadi-Vilhena (para além do keeper Jones), sendo ainda tremendamente penalizado por falhas defensivas comprometedoras (como o erro individual de Van der Heijden) e pela inoperância em termos ofensivos para dar a volta ao contexto negativo.

A pausa para os jogos competitivos das selecções é assim recebida, em Roterdão, com tons de alívio. O Feyenoord necessita de reencontrar-se, e sobretudo espantar o espectro negativo que sempre se abate a cada ciclo – por mais pequeno que seja – de resultados negativos. Um aspecto que terá muito mais que ver com questões psicológicas e motivacionais do que puramente tácticas. Ainda que neste último campo também haja espaço para crescer. É que mesmo com um plantel inferior em termos de soluções relativamente aos crónicos candidatos Ajax e PSV, Giovanni van Bronckhorst deverá garantir o regresso da solidez exibicional evidenciada nas primeiras semanas de 2016/2017. E assim talvez a longa espera termine.

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Filipe CoelhoOutubro 13, 20166min0

Não foi só mudar; foi mudar e inovar. O arranque de época sinuoso do Ajax obrigou o seu (novo) técnico a deambulações. Mais do que tácticas, as alterações situaram-se no xadrez das peças, com Bosz a fazer de proscritos peças renovadas, úteis e versáteis.

Não sendo unânime, a escolha de Peter Bosz para suceder a Frank de Boer no comando técnico do Ajax foi recebida com o devido entusiasmo. Visto como sendo próximo de Cruyff numa certa visão sobre o jogo, Bosz tinha (sobretudo) como trunfo a impactante campanha realizada com o Vitesse na primeira metade da época transacta, período durante o qual a equipa de Arnhem praticou um futebol vistoso, atraente e de evidente vocação ofensiva – quiçá o melhor conjunto esteticamente falando da 1ª volta em 2015/2016.

O arranque em Amesterdão não foi, de todo, fácil. Em pleno Agosto, e em onze dias, o Ajax sofreu duas derrotas e empatou em mais duas ocasiões, caindo, desde logo, na Liga dos Campeões, diante do Rostov (o empate em casa, num jogo em que o Ajax teve um caudal de jogo ofensivo tremendo condicionou a 2ª mão, onde o descalabro em terreno russo foi total). Mais, o empate em casa diante do Roda e a derrota também em plena Arena de Amesterdão às mãos do Willem II tiveram contornos de humilhação, que estamos a falar, respectivamente, do último e antepenúltimo classificados da Eredivisie neste momento.

Todavia, a conjuntura mudou. Mesmo sem deslumbrar em várias partidas (como na vitória frente ao Vitesse por 1-0 ou no triunfo por 2-0 diante do Heracles), o Ajax parece ter encontrado um determinado fio condutor … na instabilidade, procurando a normalidade aqui mesmo.

Vejamos. Comparando a equipa titular que enfrentou o Sparta de Roterdão na 1ª jornada (vitória por 3-1) com aquela que derrotou o Utrecht por 3-2 na última jornada, só encontramos três repetentes! E dois deles a jogar em posições adaptadas. Nem sequer está aqui em causa a janela de transferências ainda em pleno funcionamento no momento do arranque da Eredivisie, que Milik já havia saído para o Napoli – perda significativa, inquestionavelmente – e apenas Cillessen – péssimo arranque de época, com culpas diversas em vários golos sofridos – haveria de deixar Amesterdão (rumo a Barcelona).

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Daley Sinkgraven (Foto: zimbio.com)

Bosz engendrou a mudança procurando tornar a equipa mais capaz de agredir ofensivamente, dotando-a de soluções de maior criatividade e levando-a a ser mais imprevisível no último terço do terreno. As alterações mais significativas aconteceram por via dos nomes de Sinkgraven e de Schone. Num duplo sentido: primeiro, porque nenhum deles fora considerado de forma relevante por De Boer na última temporada; e depois, porque foram introduzidos na equipa em posições e papeis que nunca haviam experimentado em momento anterior.

Sinkgraven é um médio criativo de 21 anos. Habituado a pisar os terrenos de um ‘8’, destaca-se pelo perfume do seu futebol, pelo toque de bola e pelo tom de criação e invenção que dá a cada movimento no jogo. Já havia sido testado também descaído sobre a faixa esquerda ofensiva do terreno, mas o novo técnico do Ajax quis mais – recuou-o, recuou-o, recuou-o, a ponto de o vermos agora estabelecido como o novo defesa lateral esquerdo do conjunto de Amesterdão. É ainda curto o espaço temporal decorrido para se perceber se tal opção dará frutos; o jovem holandês oferece grande qualidade do ponto de vista técnico à ala esquerda, para além de critério e repentismo, incorporando-se com sabedoria no momento ofensivo. Ademais, tem demonstrado capacidade em termos defensivos no duelo individual mas ao nível posicional as suas carências são óbvias e claras – um aspecto a que Bosz deve atender se vir em ‘Sink’ potencial para ser o defesa esquerdo da sua equipa.

Por sua vez, Schone é um jogador já feito. Aos 30 anos, o internacional dinamarquês passou a sua carreira a deambular entre a posição ‘10’ e a ala direita. Bosz, no entanto, tinha outros planos para ele – o trintão tem ocupado a posição de elemento mais recuado do trio de meio-campo e tem-se revelado uma agradável surpresa. Dotado de capacidade técnica e com qualidade de passe qb, é ainda um elemento muito compenetrado, e tem servido de elo de ligação ao jogo da equipa, com muita intervenção na fase de construção (a última partida perante o Utrecht foi um claro exemplo disso). Não se pode menorizar ainda o aspecto da idade – numa equipa tão jovem quanto o Ajax (a esmagadora maioria dos jogadores tem entre 19 e 24 anos), Schone traz consigo a experiência e a calma necessárias em muitos momentos. E acrescenta ainda no aspecto da bola parada ofensiva, não sendo, no entanto, de menorizar uma certa incapacidade para suster o ímpeto atacante do adversário pela falta de rotinas defensivas – algo que leva a que seja substituído em momentos em que as cautelas defensivas são redobradas.

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A influência de Schone e de Sinkgraven no jogo colectivo do Ajax, diante do Utrecht (Imagem: 11tegen11)

Mantendo o 433 que é quase a pele do Ajax desde há longos anos, Bosz tem mexido sobretudo nas peças utilizadas, com largas alterações em relação à época transacta. Dijks, Riedewald, Gudelj e sobretudo Tete, Bazoer e El-Ghazi têm visto o seu espaço diminuído consideravelmente, também em função da chegada dos reforços Sánchez, Ziyech e Traoré e da afirmação do jovem Dolberg.

Depois de um inicio titubeante, o Ajax estabeleceu-se já na 2ª posição da Eredivisie e poderá afirmar-se como a verdadeira concorrência face ao super Feyenoord (8 vitória em 8 jogos). Para além disso, depois da queda para a Liga Europa, os Ajacieden venceram os dois primeiros jogos da fase de grupos, uma marca que não era atingida desde 1995/96! No mínimo, inspirador. Tal e qual como o carácter inventivo de Peter Bosz. A ver se os frutos colhidos serão os desejados …


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