Um passo atrás para o judo e desporto português

João CamachoJaneiro 19, 20217min0

Um passo atrás para o judo e desporto português

João CamachoJaneiro 19, 20217min0
O novo confinamento vai impôr problemas ao desporto e judo português e João Camacho reflecte no que será este momento crítico

Estávamos a chegar ao fim de 2020 quando escrevi o último artigo do ano (que podem consultar aqui na nossa secção de judo) e ficava no ar a esperança de uma retoma progressiva e controlada da atividade desportiva, económica e social. Infelizmente, os cenários mais negros confirmaram-se, voltámos a verificar um total descontrolo da pandemia e o governo deu ordens para confinar, decretando a suspensão de toda a atividade física, à exceção do que respeita ao desporto profissional e aos atletas que competem no escalão sénior ou que representem as seleções nacionais.

2021

No fim do último artigo de 2020 questionava se o ano que terminava teria sido um ano perdido. Estava otimista e esperançado de que tudo iria melhorar, gradualmente, mas contrariamente às minhas expectativas, entrámos em Janeiro e temos o caos, novamente, instalado.

O desastre anunciado no que respeita ao desporto de formação é cada vez mais evidente. Estima-se que mais de 173.000 jovens abandonaram o desporto de formação, desde o início da época, em Setembro último. Repito, 173.000!

Para agravar a situação, este novo confinamento terá um brutal impacto nos jovens que ainda estavam em atividade e certamente este número assustador irá aumentar. Qual o impacto a médio e longo prazo? Está o governo a fazer tudo o que está ao seu alcance, quando é público, por exemplo, que problemas como a autoestima ou a obesidade são dos que mais crescem nos jovens Portugueses e o desporto é de crucial importância para os combater?

Deveremos fazer uma reflexão, não só porque se trata de um problema de saúde pública, mas também porque temos que compreender qual será o efeito deste abandono precoce do desporto no futuro da prática desportiva federada, e até que ponto porá em causa os resultados nacionais e internacionais que poderiam ser alcançados caso este abandono em massa não tivesse ocorrido.

Merece séria reflexão, até porque, sem dúvida que, para além do problema de saúde pública, temos também de perceber ou tentar prever qual será o impacto do abandono deste impressionante número de jovens, terá no futuro do desporto Português e na qualidade e excelência dos resultados que foram alcançados nos últimos anos.

Abe Vs Maruyama

Um dos momentos mais significativos no final de 2020 foi o combate que, no dia 13 de Dezembro, decidiu a vaga Olímpica da equipa Japonesa na categoria masculina dos 66Kg. Colocou frente-a-frente os japoneses Hifumi Abe, Campeão do mundo de 2017 e 2018, e Joshiro Maruyama, atual campeão do mundo desta categoria.

O mediatismo à volta deste combate, compreensível e expectável para quem conhece a cultura Japonesa e sabe a importância e a promoção que dão a este tipo de eventos, com muito drama, emoção e lágrimas à mistura, foi claramente um excesso.

Numa equipa tão rica em talentos e, acima de tudo, muito bem orientada por uma vasta e competente equipa técnica, liderada pelo antigo campeão do Mundo e Olímpico Kosei Inoue, não seria difícil, aliás, seria lógico, a equipa técnica chamar a si esta decisão. Qualquer um dos atletas reúne condições de conquistar o ouro Olímpico. Relembro que no último mundial, em 2019, num dramático combate na meia-final, entre os dois, foi Maruyama quem levou a melhor.

Desta vez, foram necessários mais de 24 minutos (4 minutos regulamentares e 20 de golden score), duração nunca vista a este nível, para decidir quem iria ocupar a vaga na equipa Olímpica do Japão, e foi Abe quem levou a melhor.

Analisando o combate, os árbitros estiveram longe da excelência e da qualidade que caracteriza a arbitragem Japonesa. Para além do combate ter excedido, em muito, a duração que efetivamente deveria ter tido, assistimos a muita permissividade na falta de atribuição de castigos, onde a preocupação evidente foi que ocorresse uma projeção que resultasse numa vantagem técnica e assim evitar que o combate fosse decidido por castigos.

A projeção que acabou por permitir a Abe carimbar a passagem para os Jogos Olímpicos, foi envolvida em muita polémica, porque de acordo com as regras de arbitragem em vigor, o judoca tem de ter a pega feita (Kumi-kata) para que lhe seja atribuída uma vantagem técnica. Tal não aconteceu no movimento técnico que acabou por atribuir a vantagem de Wazari que decidiu o combate a favor de Abe.

Polémicas à parte, creio que Maruyama parece ser um Judoca mais consistente e imune à enorme pressão que será combater em casa, perante uma multidão de mais de 15.000 pessoas, que, caso seja permitido, e esperamos sinceramente que assim aconteça, irá encher a emblemática arena Nippon Budokan para a competição Olímpica de Judo.

Masters Doha

A Federação Internacional de Judo (FIJ) apresentou um calendário para o ano de 2021 com muitas novidades, mas acima de tudo, tentou que fosse realista face ao cenário pandémico que vivemos a nível global. Destacamos a realização do campeonato do Mundo, entre os dias 6 e 13 de Junho, na capital da Hungria Budapeste.

Pela primeira vez teremos Campeonatos do Mundo em ano de Jogos Olímpicos, e relembro que estes terão inicio aproximadamente um mês depois dos Mundiais. Será curioso ver qual será gestão das diversas seleções, porque muito dificilmente teremos atletas em pico de forma em datas tão próximas.

O calendário arrancou com uma das mais importantes provas, o Masters, que reúne o top 32 de cada categoria de peso. Esta importante etapa, decorreu entre os dias 11 e 13 de Janeiro, na capital do Catar, Doha. O Masters é a etapa que mais pontos atribui aos atletas, só superada por Campeonatos do Mundo.

Estiveram presentes 398 atletas, 215 masculinos e 183 femininos, representando um total de 69 países. Portugal terminou na 20.ª posição com 3 quintos lugares correspondentes a quem é derrotado nos combates pela disputa das medalhas de bronze.

Destaco Catarina Costa nos 48Kg, Telma Monteiro nos 57Kg e Jorge Fonseca nos 100Kg. Ficou, mais uma vez, evidente o excelente momento de forma da equipa Portuguesa a que não é alheio o forte investimento que a Federação Portuguesa de Judo tem feito na promoção de estágios semanais para os internacionais Portugueses, cumprindo um rigoroso protocolo de testagem e de segurança para evitar potenciais contágios. Estes estágios semanais, que duram e média 4 dias, já tiveram a visita de diversas seleções, das quais destaco as seleção do Brasil, Bélgica, Suécia, Porto Rico, Itália, Espanha, entre outras.

Faltam três meses para o Europeu de Judo Lisboa 2021. Espero, sinceramente, que o público Português já esteja desconfinado e possa marcar presença no Altice Arena, entre os dias 16 a 18 de Abril. Apesar de apreensivo, face ao estado atual da pandemia no nosso país, acredito que existirá público, fator fundamental para os atletas, para quem gosta de judo e para ajudar a que os jovens ganhem alento para retomarem a sua atividade desportiva. Vamos todos fazer por isso!

Telma Monteiro no Master (Foto: FPJ)

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