Um 2020 para esquecer para o judo português e mundial?

João CamachoDezembro 20, 20208min0

Um 2020 para esquecer para o judo português e mundial?

João CamachoDezembro 20, 20208min0
O judo português batalhou para manter viva a sua chama apesar das dificuldades causadas pelo covid-19. João Camacho revê o presente e lança o futuro

O ano de 2020 está a terminar e é hora das típicas retrospetivas e de balanços no judo. No entanto, este ano teve algo de especial e, ao contrário do que antevíamos em 2019, foi um ano irremediavelmente marcado pelas consequências da crise pandémica global que afetou o nosso planeta.

Quando, no início de Março, a Federação Internacional de Judo suspendeu o circuito Mundial, estávamos longe de ter noção da hecatombe que se avizinhava. O planeta parou, a atividade económica ficou brutalmente condicionada, a população confinada, viagens e deslocação de pessoas suspensas, Jogos Olímpicos adiados e praticamente toda a atividade desportiva interrompida. O que nos espera 2021? Sinceramente, é impossível prever. As vacinas que foram desenvolvidas em tempo recorde já estão a ser distribuídas e ministradas à população, mas, ainda assim, não há possibilidade de saber quando será o regresso à normalidade.

2020

Os atletas Portugueses tiveram em destaque no arranque do circuito Mundial de 2020. Uma entrada a todo o gás, com a proximidade do fecho da janela de qualificação olímpica, que, à data, estava previsto terminar no final de Maio, tivemos vários Portugueses a chegar ao pódio nas 3 etapas que se realizaram, antes da paragem forçada: o Grand Prix de Telavive e os Grand Slam de Paris e Dusselforf.

Depois do brilharete nos Mundiais de Tóquio, em 2019, Portugal provava que o memorável resultado obtido, sendo a 3.ª equipa no quadro de medalhas, logo atrás do Japão e da França, não era fruto do acaso. Seguindo-se a interrupção forçada do circuito Mundial, a 4.ª etapa, o Grand Prix de Rabat, foi suspensa e o circuito só viria a ser retomado, passados 8 meses, com a realização do Grand Slam de Budapeste, marcado por rígidos protocolos de segurança e higiene, onde Portugal voltou a brilhar! Para os leitores mais curiosos, convido a leitura dos artigos, que antecederam este, onde a prestação Portuguesa é analisada ao detalhe.

Campeonatos da Europa de Praga

Depois de uma notável prestação da equipa Portuguesa na etapa que marcou o reinício do circuito Mundial (acabaria por ser a única realizada), o Grand Slam de Budapeste, bem como a excelente prestação dos júniores no campeonato Europeu do escalão, que decorreu na Croácia, decorreram, em Praga, entre os dias 19 e 21 de Novembro, os campeonatos da Europa de Judo do escalão sénior, derradeiro evento internacional de 2020. Sob um protocolo rígido de testagem, e de procedimento com vista a assegurar a salvaguarda de todos os intervenientes, Portugal apresentou uma delegação de 16 atletas (9 femininos e 7 masculinos) e os resultados obtidos, evidenciaram a importância do trabalho destes atletas durante o período de confinamento e o investimento da Federação Portuguesa de Judo, que criou condições aos atletas das seleções dos principais escalões de treinarem em segurança, durante mais de 8 meses, na cidade de Coimbra. Está de parabéns a Federação Portuguesa de Judo-FPJ, os atletas da seleção e todos aqueles que se juntaram. Um bom exemplo de como funciona o espirito de equipa e de ajuda num desporto individual.

Para além da medalha de prata de Telma Monteiro, de que falarei em mais pormenor já de seguida, há a destacar as medalhas de bronze do campeão do Mundo Jorge Fonseca, na cat. 100Kg, a sua primeira medalha em campeonatos da Europa de séniores, e a de Rochele Nunes, na cat. +78Kg. Destaco também o 7º lugar da jovem Joana Crisóstomo na cat. 70Kg, que provou que a medalha de prata nos Europeus de Juniores que decorreram 2 semanas antes, em Porec, na Croácia, não foi um acaso, mas sim o reflexo do trabalho e dedicação desta jovem atleta.

Jorge Fonseca teve um percurso imaculado até aos quartos-de-final, onde acabou derrotado pelo Azerie Kotsoiev, ficando arredado da disputa pelo ouro. Entrou na disputa pelo Bronze, derrotando no combate decisivo o Georgiano, e velho conhecido, Liparteliani, um dos atletas mais medalhados em atividade.

Rochele Nunes teve um percurso idêntico ao de Jorge, caiu nos quartos-de-final, frente à Ucraniana Kalanina, e entrou na disputa pelo Bronze, acabando por derrotar, a atleta da Bósnia Herzegovina Ceric.

Portugal termina o ano com uma excelente prestação e com ótimas perspetivas de conseguir em Tóquio uma participação recorde.

Telma Monteiro

Não há palavras! Em Praga, Telma conquistou a prata da categoria dos 57Kg, a sua 14ª medalha em 14 presenças em campeonatos da Europa. É difícil encontrar mais adjetivos para definir este fenómeno. Resta-nos reconhecer que somos uns sortudos, porque temos a oportunidade de acompanhar esta gloriosa caminhada de 16 anos ao mais alto nível.

A caminho dos 35 anos e da 5.ª presença nuns Jogos Olímpicos (Atenas 2004, Pequim 2008, Londres 2012, Rio 2016 e Tóquio 2020-2021), Telma é uma das atletas mais medalhadas na história do Judo. Notável! A prestação de Telma nos Europeus de Praga foi de uma consistência irrepreensível, tendo claudicado por castigos na final, quando já tinham passado mais de 8 minutos de combate (4 minutos de tempo regular e mais 4 minutos e 18 segundos de Golden Score) frente a uma velha conhecida, a Húngara Hedvig Karakas.

As duas atletas já se tinham enfrentado por 8 vezes, com sete vitórias para Telma. No entanto, ficou um sabor amargo, porque Telma teve o combate na mão e acabou por ser o cansaço que derrotou a Portuguesa, numa arbitragem que, a meu ver, acabou por beneficiar a Húngara que teve sempre uma postura mais defensiva e jogou no erro da Portuguesa.

E agora? Bom, Telma deu claras provas de que as suas (nossas) aspirações de chegar aos seus 5.º Jogos Olímpicos e sonhar, novamente, com uma medalha, são legítimas e tangíveis. A concorrência será muito forte, naquela que é, provavelmente, a categoria de peso feminina mais competitiva da atualidade, com muitas atletas de grande valia e onde não existe uma clara favorita.

EC2020 Telma Monteiro Pódio (Foto: EJU)

2021

Respondendo à pergunta com que iniciei este artigo, sobre ser 2020 um ano para esquecer, sinceramente, creio que não. Foi difícil e frustrante, mas constituiu um enorme desafio. Tal como na sociedade, os Judocas tiveram de se reinventar, trabalhar mais, com mais solidariedade e empenho, para ultrapassar todas as barreiras, e foram muitas, para conseguir treinar e, acima de tudo, ficou evidente uma capacidade de mobilização que permitiu que neste recomeço, a meio gás, a equipa Portuguesa brilhasse e confirmasse o excelente momento que atravessa.

2021 será ano de Jogos Olímpicos e em Janeiro arranca o circuito Mundial, com a realização Masters, prova que reúne os melhores atletas de cada categoria de peso. É uma das etapas mais importantes e decisivas do circuito mundial, que este ano decorrerá no Catar. Será também o ano dos campeonatos da Europa de Lisboa, prova que ganhou destaque e muita relevância pois passou a contar para a qualificação Olímpica, devido ao adiamento dos Jogos Olímpicos para 2021.

A competição decorrerá entres os dias 16 e 18 de Abril e, esperamos, já poderá contar com público, pois o apoio da bancada ajuda, e de que maneira, à superação dos atletas e à conquista de históricos resultados. Os Europeus de 2008, que decorreram em Lisboa, são um bom exemplo. Portugal conquistou uma medalha de ouro (João Neto 81Kg) e 3 medalhas de bronze (Ana Hormigo 48Kg, Yahima Ramirez 78Kg e Pedro Dias 66Kg), curiosamente, num campeonato da Europa onde Telma Monteiro não participou, por lesão.

Para terminar, temos de dar os parabéns a todos os intervenientes, a começar pela FPJ, treinadores, todos os judocas que semanalmente foram a Coimbra treinar, e foram muitos, alguns sem qualquer perspetiva de competir, mas empenhados num objetivo maior: ajudar os seus companheiros de seleção a treinar e a manter o sonho Olímpico vivo!

Também de destacar todos os clubes que retomaram a atividade, apesar dos constrangimentos, dificuldades, fizeram tudo ao seu alcance, inovaram, foram criativos, para que ninguém no âmbito da sua ação ficasse para trás. Contudo, há quem tenha ficado para trás, o que é lamentável e verdadeiramente preocupante!

Para 2021 há que manter o mesmo espírito combativo, a capacidade de superação e de mobilização, demonstrados neste difícil período, talvez o mais conturbado e imprevisível da história contemporânea do desporto. Todos os sectores da sociedade, governos, federações, agentes desportivos, atletas e respetivas famílias (porque são fundamentais neste processo), terão de ser resilientes, não baixar os braços.

O cenário é dantesco, os primeiro números apontam que o abandono no desporto de formação ronde, globalmente, em Portugal, uns alarmantes 75%. Para além de colocar em risco a saúde dos jovens, um problema que cresce a olhos vistos e que requer medidas urgentes, vamos certamente observar um assustador retrocesso nos notáveis resultados que foram atingidos no Judo e restantes modalidades ditas “amadoras” nas últimas décadas, fruto de muito trabalho e investimento na formação. É urgente uma reflexão profunda e a definição de como superar este enorme desafio. Por agora, temos um silêncio ensurdecedor de quem tem de tomar decisões e liderar este processo… a começar pelo governo!

Jorge Fonseca (Foto: EJ Judo)

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