Silêncio, que se vai cantar o Fado… dos Campeões do Mundo

Fair PlayOutubro 8, 20217min0

Silêncio, que se vai cantar o Fado… dos Campeões do Mundo

Fair PlayOutubro 8, 20217min0
Maria Pinto Jorge conta-nos a epopeia de Portugal no Campeonato do Mundo de futsal com análise aos momentos e jogadores que levaram ao título

Artigo de Maria Pinto Jorge sobre o título de campeões do Mundo de Portugal em 2021

O Fado é um “estilo musical português, geralmente interpretado ao som de guitarra portuguesa e guitarra clássica, podendo apresentar um andamento lento associado ao tom nostálgico, nos temas de amor ou saudade”. Podemos equipará-lo na perfeição àquilo que aconteceu no Campeonato do Mundo de Futsal, na Lituânia.

A Seleção Nacional fez ouvir-se o Fado em Kaunas, do modo mais puro possível. Com amor a uma pátria, a uma modalidade e a um grupo. Com saudade de alegria e sorrisos de uma conquista mundial. Vamos repetir algo que já todos sabemos: Portugal é campeão do Mundo de futsal; e que bem sabe dizê-lo.

Essa é só uma das definições, meus amigos e campeões do mundo, porque a outra, sem dúvida alguma que nos assenta ainda melhor: “destino”; “sorte”; “fortuna”; “o que necessariamente tem de acontecer”. E sim, tinha mesmo de acontecer.

Quando o Fado superioriza o Tango

Na final, por sua vez, o Fado acabou mesmo por se fazer ouvir mais alto que o Tango, por 2-1 – golos de Pany Varela, de quem iremos falar mais à frente. A Argentina estava pronta para dançá-lo, mas os portugueses estavam preparados para bailar ao seu ritmo até que no final as suas vozes ecoassem na eternidade. Que página bonita na história do futsal português. A mais bonita de todas elas.

O Fado rapidamente se transformou no ‘À minha maneira’, de Xutos e Pontapés. Música escolhida para FPF para se fazer ouvir nos golos e vitórias portuguesas na Lituânia. Por volta das 20h00 do passado domingo (3 de outubro), foi essa mesma letra a ouvir-se e a cantar-se pela voz de todos os portugueses presentes em Kaunas. E, na verdade, não foi mesmo ‘à nossa maneira’? Se foi.

E qual é ‘a nossa maneira’? Pois bem, um grupo com uma crença incrível. Se esta última frase já desperta em nós, patriotas, em pular de batimento, o que os comandados de Jorge Braz acabaram por fazer nesta caminha foi o complementar de um sonho de muitos, de todos aqueles que amam a modalidade e fazem pela sua evolução todos os dias. Começou tudo ainda no hino, ou fui a única a sentir que já estava ganho ao ver as lágrimas dos jogadores das quinas a cantarem ‘A Portuguesa’?

No último jogo, Portugal encontrava pela frente a seleção campeã do mundo em título, sem nunca ter conseguido chegar a uma final. As quinas encontraram uns argentinos focados na defesa, num muro antes da sua baliza, mas nada disso os desmotivou. Muito pelo contrário.

11 milhões de corações iam batendo, uns mais perto, uns mais distantes, mas todos com a mesma vontade dos ‘Bons Rapazes’ que representavam este país. Taticamente, não foi, de todo, o Mundial perfeito, mas psicologicamente não teve qualquer tipo de falhas.

Ricardinho (ouro) e Pany Varela (prata) acabaram por receber as botas dos melhores jogadores desta competição. Um meio que em homenagem pela carreira, outro pelo tremendo Campeonato do Mundo que acabou por realizar, sem deixar ninguém indiferente. Vamos exatamente definir o nosso fadista e o quarteto de cordas que o acompanhava.

Pany Varela: o ‘fadista’ de Kaunas

Não podemos, de todo, deixar passar as exibições de Pany Varela em claro depois de tudo o que fez neste Mundial. Além dos oito golos marcados em sete partidas – tendo dois deles sido a garantia de levantar o troféu – foi a peça-chave de Jorge Braz para desequilibrar os jogos.

O senhor da ala portuguesa, aliando a sua velocidade de sempre com uma maior capacidade de leitura de jogo, esta última que melhorou de forma exponencial ao longo da última temporada, nas mãos de Nuno Dias, que apenas precisava de lapidar um bocadinho até este diamante brilhar como brilhou. Além disso, o selecionador nacional fez dele o dono do 1 para 1 em praticamente todos os jogos: ‘Anilton’ tinha com ele a liberdade de o assumir no ataque e, ainda, na defesa. Que forma em que se apresentou.

Para terminar, é claro ver que Pany Varela era o indiscutível melhor jogador da prova, não tivesse este sido o último mundial de Ricardinho. No entanto, o prémio maior foi para casa, para juntar aos outros – uma vez que o jogador do Sporting já venceu tudo o que havia para vencer.

O quarteto de cordas: Zicky, Erick Mendonça, Ricardinho e Bebé

Não desvalorizando o resto da comitiva portuguesa na Lituânia, porque sem um grupo forte e coeso a mesma não teria sido possível, encontrámos mais quatro destaques para juntar a Pany Varela: Zicky Té, Erick Mendonça, Ricardinho e Bebé.

Não existem palavras para aquilo que Zicky faz e conquista com apenas 20 anos. Ponto final. O jogador do Sporting foi o único pivô de raiz a ser levado por Jorge Braz para a Lituânia, mas em nada isso o assustou. A capacidade que tem de bater de frente contra qualquer tipo de fixo, sendo ele mais fixo ou mais solto, fez com que Zicky pudesse até explorar um tipo de jogo que por vezes não encontrava no clube, uma vez que era o único que podia assumir a frente de ataque sem qualquer outro papel na quadra, adequando novos movimentos ao estilo de jogo de qualquer seleção. Que mundialão.

De seguida: Erick Mendonça. A alma e a raça em quadra. Também ele jogador do Sporting, chegou a Kaunas sabendo que Portugal precisava dele como universal, uma das posições mais exigentes na modalidade. E nada faltou à equipa de Jorge Braz com ele em campo. Erick percebeu que, no momento em que encontrava no seu quarteto André Coelho, João Matos e Ricardinho, não precisava de se preocupar com a ação defensiva, podendo fazer o trabalho de pivô que trouxe maior estabilidade na frente, com total confiança para assumir um 1 para 3 quando necessário.

Depois, Ricardinho. Era apenas isto que lhe faltava pelas quinas e, aparentemente, ele sabia que ia acontecer. Recorde-se que Ricardinho passou praticamente toda a época sem jogar, a contas com uma lesão que teria terminado com a carreira de grande parte dos atletas, mas o capitão português focou todas as forças neste mundial, que acabou por conquistar. Ainda que não tão solto exatamente devido ao baixo nível de competitivo que trazia, o 10 português foi aposta em todos os 5’s iniciais de Jorge Braz.

A confiança que traz aos companheiros em quadra foi priorizada face à magia que em tempos fazia, e era mesmo isso que Portugal precisava: estabilidade. Ainda que sem a velocidade e a capacidade acrobática de outros tempos, Ricardinho continuou a ser essencial para este grupo.

Por fim, o herói improvável: Bebé. Ou Euclides, como quiserem. Não foi, de todo, um mundial regular do assumido guardião das quinas depois da ausência forçada de Edu, no entanto, quando foi necessário, Bebé apareceu como gente grande. Esses momentos, foram exatamente nos últimos três encontros: Espanha, Cazaquistão e Argentina. A experiência, aqui, parece ter falado mais alto. Lá está, não foi uma prova ‘intocável’, porque no início verificaram-se bastantes erros, até em barreiras construídas pelo mesmo, mas acabou por ser fundamental para que Portugal conseguisse manter a vantagem em muitos momentos.

Atenção, agora vamos todos festejar o Campeonato do Mundo, mas só até janeiro. Aí, temos um Campeonato da Europa para revalidar. Acima de tudo: Parabéns, Bons Rapazes. Parabéns, Portugal.


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