“The Whistle Think Tank” – um (possível?) projecto para o rugby português

Francisco IsaacNovembro 6, 20197min0

“The Whistle Think Tank” – um (possível?) projecto para o rugby português

Francisco IsaacNovembro 6, 20197min0
É possível juntar treinadores e árbitros no mesmo espaço para discutir as dúvidas e questões dos jogos? Propomos um Whistle Think Tank como futuro a seguir no rugby português!

Já arrancou mais uma temporada do rugby português em todos os escalões, desde os pequenos e valorosos sub-8 até aos sempre intensos e apaixonantes séniores, não esquecendo os veteranos e muito mais que compõem este ramalhete da oval lusa. Com os sete escalões de competição em funcionamento (sub-14, sub-16, sub-18, Challenge, CN2, CN1 e Divisão de Honra) vieram não são várias horas de rugby jogado mas também a preocupação por atribuir árbitros aos diversos jogos que vão sendo agendados semana após semana. Contudo, e apesar de termos cada vez mais jogos a decorrer no calendário nacional, a verdade é que há poucos árbitros oficiais para lidar com estes numerosos encontros sendo talvez a questão mais preocupante do rugby português.

Sem árbitros não há jogos, sem bons árbitros não há qualidade de jogo. É este o pensamento a reter da importância de se desenvolverem não só novos match officials mas também de se criarem condições e estruturas de apoio que possam aliciar a antigos atletas/treinadores a juntar-se a esta ofício decisivo de qualquer prática desportiva. Com a entrada da nova direcção da Federação Portuguesa de Rugby esperam-se novidades em relação ao orçamento alocado à arbitragem, não só para o pagamento aos mesmos mas também do desenvolvimento de novas formações e de apoios logísticos para levar árbitros portugueses a apitar torneios internacionais amigáveis, entre outros pormenores.

Se a Divisão de Honra é munida de trios de arbitragem praticamente em todos os jogos, já as outras divisões séniores e restantes escalões de formação não têm a mesma honra, tendo no máximo a presença de um árbitro oficial da FPR, registando-se em outras situações a designação de um treinador/dirigente da equipa da casa/visitante para oficializar o jogo. Existe uma clara diferenciação entre os vários espectros do rugby português, numa escala de importância que no cenário actual de rugby amador e de apenas 5000 atletas não pode acontecer, uma vez que se abre um distanciamento entre instituições, dirigentes, treinadores e atletas.

Lembrar que na temporada passada chegou-se a dar o cenário caricato de jogos da Divisão de Honra terem o árbitro principal e dois juízes-de-linha, enquanto que em alguns jogos do CN1/CN2 ou no escalão sub-18/16 (sim, deu-se a directiva da Comissão de Gestão em remover árbitros da FPR de 90% dos jogos destes escalões, mas estamos a falar de encontros de apuramento de Campeão) não havia árbitro oficial designado, isto tudo no mesmo fim-de-semana. A pressão dos principais emblemas em garantir uma equipa de arbitragem completa (ideia correcta, contudo a forma de agir é censurável) acabou por remover a presença de um juiz de jogo de plenos direitos de outros encontros.

A somar a isto, alguns árbitros sentiram-se pouco seguros depois de algumas ocorrências de extrema gravidade registadas não só em jogos mas mesmo após os 80 minutos, com ameaças físicas/pessoais a serem dirigidas ao juiz de jogo. Estes problemas e a falta de ideias por parte dos departamentos técnico e comunicação em conseguir desenvolver formas de aliciar e conquistar novos árbitros têm promovido uma carência preocupante que já afectou a modalidade em certos momentos de temporadas anteriores.

Mas e para os árbitros que actualmente arbitram jogos em Portugal, há algo mais a fazer para além de dar tempo de jogo e apoio técnico? Colocando de lado a presença de observadores (passo fundamental e que confere um espírito analítico à prestação do juiz de jogo) que já é uma realidade, seria do interesse de todos criar uma espécie de “laboratório” de discussão, análise e apuramento de elementos a melhorar, com a presença de treinadores e árbitros no mesmo espaço.

Se a Divisão de Honra não tem uma cobertura constante de todos os encontros (valorizar os esforços da AEIS Agronomia, AEIS Técnico, Académica de Coimbra na gravação e divulgação dos seus jogos), já o Campeonato Nacional 1 tem os elementos necessários para possibilitar o visionamento de jogos, não existindo o obstáculo dos clubes não terem formas de fazer exprimir as suas preocupações em relação ao encontro X ou Y. Então o que falta? Constituir o tal Think Tank. A dificuldade de concepção deste projecto é baixa, e tentamos mencionar os principais ingredientes para esta ideia ganhar forma:

– espaço próprio com apoio audio-visual que possa ter uma assistência mínima de 15 pessoas;
– apoio logísitico para os árbitros-convidados, conseguindo a instituição (seja clubes ou FPR) pagarem o valor de deslocação;
– criação de um calendário mensal destes visionamentos de jogos;

Parece bastante simples a criação destes “Whistle Think Tanks” e o é, bastando para isso que os clubes estejam disponíveis para organizar, os treinadores disponíveis para marcar presença com momentos de jogo pré-seleccionados e perguntas já preparadas e os árbitros disponíveis para ouvir, reflectir e responder às diversas questões e dúvidas. Os jogos do Campeonato Nacional 1 (sete clubes aderiram ao serviço de cobertura e os Jaguares têm uma equipa de comunicação própria que disponibiliza os ficheiros com prontidão) estão disponíveis para os árbitros que apitaram esses jogos tenham a possibilidade de ver os seus bons e maus momentos, percebendo onde podem evoluir ou como ajudar uma equipa a melhorar seja na forma como lidar com o breakdown, placagem, ruck, linha-de-defesa, etc.

Mas estas reuniões de análise não podem ser vistas nem como um espaço de pura e simples crítica ao trabalho dos árbitros, nem um local para simples calunia ou rebaixamento da prestação do juiz-de-jogo, têm de ser sim uma “ponte” para se chegar a consensos e percepção da interpretação de jogo de uns e outros. Por outro lado, os árbitros não podem recear enfrentar a crítica construtiva e lógica dos treinadores, nem simplesmente sentir que o seu trabalho terminou depois de apitar para o fim do encontro, sendo necessário que participem avidamente no exercício analítico.

Existe neste momento uma gama de treinadores da Divisão de Honra, CN1 e CN2 que estão interessados pela evolução da modalidade em Portugal, constantemente imersos num ritmo de aprendizagem e discussão, na procura de se desenvolverem o melhor possível para ajudarem os seus jogadores e clube. Com a participação ávida e positiva dos homens e mulheres que arbitram os jogos de rugby em Portugal, é possível construir um novo “gabinete” dedicado à análise e discussão que alimente um futuro mais forte do rugby português.

Numa era em que surgem alguns novos árbitros de qualidade como João Simões ou Bárbara Valente (têm tudo para serem as novas caras da arbitragem dentro de um par de anos) e existe a participação de atletas séniores no ajuizamento de jogos de formação (caso de Gonçalo Prazeres por exemplo), é o momento certo para aproveitar as filmagens de vários jogos e transformar este esforço das várias partes num trabalho conjunto.

Cenário possível ou impossível?

José Moita, um dos melhores árbitros em Portugal (Foto: Luís Cabelo Fotografia)

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