Taça Europcar Challenge: uma liga legítima sem a atenção devida?

Francisco IsaacAbril 25, 201818min0

Taça Europcar Challenge: uma liga legítima sem a atenção devida?

Francisco IsaacAbril 25, 201818min0
Uma competição diferente mas única que deu outra vida ao rugby português: a Taça Europcar Challenge. Mas há problemas com esta divisão? Tudo neste artigo dos comos e porquês!

O final da temporada no rugby português marca não só o confronto no CN1 (antiga Divisão de Honra), CN2 (anteriormente conhecida por Primeira Divisão) e CN3 (segunda divisão até 2017), mas também de uma competição que nasceu em 2016: a Taça Europcar Challenge.

Para a comunidade da oval nacional, esta competição não é em nada desconhecida, enquanto que para o público que não faz ideia do que se trata esta “Taça” explicaremos brevemente como funciona esta competição, que é tudo menos uma “Taça” no seu sentido mais literal, em poucas palavras: é uma divisão secundária do escalão sénior, agregada aos plantéis de todas as equipas nacionais, ou seja, são como se fossem as equipas B de cada clube.

O QUE É A CHALLENGE?

Ao contrário do que acontece no Futebol, desporto em que as equipas B dos vários emblemas nacionais jogam na Liga Ledman Pro (segunda liga) com as condições que não podem subir à Liga NOS mas podem descer em direcção ao Campeonato de Portugal. No caso do rugby, decidiu-se constituir uma divisão em separado dos campeonatos de subida/descida em Portugal e esta decisão tem por base bons argumentos.

A explicação desses mesmos podem suscitar algumas dúvidas de entendimento, por isso tentemos construir uma lógica fluída:

  • Potenciar os grandes emblemas em Portugal, abrindo caminho para um campeonato que não só receba os atletas saídos do escalão sub-18 mas também convide de volta os jogadores que não tinham grande hipótese de jogar na equipa sénior ou que se tinham afastado do rugby exactamente pelo facto de não jogarem;
  • Ao “abrir as portas” a atletas que se tinham alienado por diversas razões, os plantéis automaticamente passam de 20 e tal (30 jogadores) para quase 50 (não garantindo que os números se mantenham iguais do principio ao fim da época) o que aumenta a competitividade e intensidade de treino;
  • Conferir minutos a jogadores que estão nas selecções sub-20, que na sua maioria não têm oportunidade para jogar com facilidade na equipa principal, necessitando de um campeonato desafiador, dinâmico e “agressivo”;
  • Não interferir com os destinos dos clubes que disputam as subidas e descidas de divisão, que no problema de atrair antigos jogadores das equipas principais (um problema a que se deve ao facto dos jogadores portugueses viverem mais numa família que numa equipa, sendo difícil fazer uma mudança não só de clube, mas de ambiente) não desejam ter que jogar contra equipas que sofrem mudanças todos os fins-de-semana;
  • Aumentar o número de praticantes em Portugal da modalidade, a nível sénior;

Todos estes argumentos estão correlacionados, entendo-se, em parte, a decisão de ter constituído uma divisão Challenge. Existem vários clubes do CN2 e CN3 que se queixam do facto de que ao se ter iniciado esta competição, impediu-se, em larga parte, que os jogadores tentassem continuar a jogar em outros emblemas que não a sua casa-mãe.

Um argumento, no mínimo, perceptível mas que deverá ser rebatido com o facto que ninguém impede ninguém de mudar de clube, sendo que os atletas não mudam com facilidade de clube pela razão que não jogam este desporto só por ser desporto, mas porque fazem parte de um grupo ou de uma família.

Muitas vezes, a mudança de clubes acarreta aceitar uma nova realidade, adaptando-se a um ambiente que não é o mesmo e que apesar de ser inicialmente munido de uma boa recepção, há por vezes anti-corpos dentro desses mesmos novos clubes para com jogadores que acabaram de chegar.

Posto esta explicação sobre o porquê da constituição desta divisão, de quem pode jogar lá (todos os atletas séniores inscritos, sendo que atletas que estejam no banco de suplentes da equipa principal e que joguem até um máximo de 20 minutos podem jogar pela equipa Challenge no mesmo fim-de-semana) e dos argumentos a favor desta divisão, vamos agora passar ao seu impacto em Portugal.

Em 2017/2018 houve um aumento significativo na quantidade equipas que acolheram esta equipa Challenge, em relação à época passada: GD Direito, CF “Os Belenenses”, RC Montemor, AEIS Agronomia, CDUL, GDS Cascais, CR Técnico foram os primeiros, com os “advogados” e o clube da Linha a terem jogado a final de 16/17.

Nesta temporada CDUP e Académica de Coimbra pediram para ser integrados nesta liga, aumentando para nove o número de clubes participantes. Se quisermos arriscar no número de jogadores envolvidos, cada formação terá apresentando uma média de 24/25 jogadores (CDUL e GDS Cascais terão sido os clubes a lançar mais atletas com os “universitários” a ultrapassarem mais de 35 durante toda a competição).

Se separássemos as “águas” e entendêssemos que a equipa principal e Challenge estavam separadas, tínhamos 225 jogadores em actividade só na Taça Europcar Challenge.

Esta competição funciona inicialmente como uma liga aberta, com jogos de ida e volta, apurando-se no final o 1º e 2º lugar para uma final.

Foto: Pai Conde Fotografia

AONDE ESTÁ O SUCESSO NESTA COMPETIÇÃO?

Mas isto só por si significa sucesso? Difícil de responder a isto, já que esta competição continua a ser observada mais como um campo para dar minutos aos jogadores da equipa principal, do que propriamente lançar jogadores e trazer de volta os “retirados”. Atenção que não é “crime” dar minutos aos atletas do CN1, mas não é dar tempo de jogo às custas dos atletas que treinam a semana inteira para fazer parte da equipa Challenge.

Os melhores devem jogar, principio inabalável do desporto profissional ou, minimamente, competitivo. Todavia, a divisão Challenge devia ser vista por aquilo que é: uma competição para lançar e relançar jogadores, para aproximar os tais jogadores que se foram embora e agora regressaram e de dar um nível competitivo bom sem ter a mesma exigência (não significa isto que não haja, significa que é uma exigência diferente) da equipa principal.

São mundos diferentes, próximos um do outro e que na sua essência deveriam-se respeitar sem colidir ou invadir com intenções de dominar. Por vezes o orgulho dos emblemas que participam na competição criou alguma tensão indevida e que levou alguns jogos a irem para outro patamar de fisicalidade ou orgulho, que inviabilizou o respeitar do espírito desta divisão.

Parece complicado de perceber a exequibilidade disto tudo, mas há clubes que perceberam a utilidade da equipa Challenge e garantiram que as mesmas crescessem ao seu ritmo, sem forçar situações ou aproveitar-se desta formação para dar minutos a jogadores que podem, em primeiro lugar, não estar interessados em actuar num escalão inferior, como não se sentem parte da família mais por sua vontade do que desse grupo e que não vão ser membros na fase final, altura que vão estar mais centrados na equipa principal do que na Challenge.

Ao encetar-se nestas práticas mais em favor da equipa do CN1 do que em ajudar no crescimento do clube em geral (o caminho mais fácil e rápido para os títulos ou o desvio que a médio-prazo pode custar caro ao clube?) acabamos por ter uma desvalorização preocupante na Taça Europcar Challenge.

Outro problema são as horas tardias em que os jogos da Challenge são realizados, na sua maioria depois das 17/18h00 que num horário de Inverno representa noite “cerrada”. Com chuva e frio, o número de adeptos na bancada diminui drasticamente e o apoio é residual. Mas este problema já tem a ver com os problemas de horário de jogos que tanto a Federação Portuguesa de Rugby como os clubes nunca conseguem se entender.

A OPINIÃO DOS CHALLENGERS

O Fair Play foi entrevistar alguns jogadores que estiveram ou estão envolvidos nesta divisão Challenge. Francisco Cabral (AEIS Agronomia, 1º ano de sénior) e João Francisco Lima (internacional sub-20) responderam a algumas questões sobre as valências e problemas da Challenge:

João F. Lima A Divisão Challenge deu-te minutos importantes para que um dia possas ganhar o lugar com certeza na equipa principal? Quais são as maiores valências deste campeonato para ti?

JFM. Que os minutos que joguei na Challenge me ajudaram a evoluir, e muito, não há qualquer dúvida! Se me vai garantir um lugar na equipa principal? Eu espero que sim! Este ano não fiz nenhum minuto na CN1, mas o grupo que nós formamos e a seriedade com que nos dedicamos a este campeonato (taça) fez com que isso tivesse pouca importância para mim!

Para mim a grande valência da Challenge é exatamente essa, dar minutos e oportunidade de evoluir aos jogadores que não estão prontos para a CN1, mas também, como é o caso do CDUL, de permitir que equipas com um plantel muito extenso possam ter todos os atletas a competir a um nível bastante razoável

Achas que têm pouca atenção por parte dos adeptos, clubes e federação ou é adequada? E o que podia conferir outro nível?

JFM. Relativamente a segunda pergunta: em Portugal os adeptos são sempre poucos, ate mesmo na final da CN1, o que é uma pena (risos). Mas a verdade é que acho que falta algum reconhecimento aos atletas que jogam nesta “divisão”. As equipas têm muita qualidade, e acima de tudo, muito talento que tem que ser explorado! Quanto mais visibilidade esta divisão tiver, mais vontade os jogadores que não jogam “la em cima” têm de jogar nela! E a verdade é que, mais tarde ou mais cedo seremos nós a equipa principal, e temos que estar preparados para isso, e nada melhor que a Challenge para essa transição!

A Challenge ainda é um campeonato muito recente, mas sem dúvida que é benéfico! Não tenho muitas ideias do que poderia conferir outro nível a esta competição, mas acho que seria muito positivo para a mesma que os clubes se focassem mais nesta rampa de lançamento! Quanto maior a qualidade destas equipas, mais competitivo e exigente será o campeonato, e maior será a margem de progressão dos jogadores que jogam nelas, e no fim, quem beneficia com esta evolução é a equipa principal! Não só haverá mais jogadores preparados para jogar ao nível da CN1, como muitos deles vão de certeza fazer a diferença!

Já Francisco Cabral tem outra opinião, diferente e bem argumentada que poderá servir de reflexão para alguns dos envolvidos.

A divisão Challenge é boa e positiva ou tem problemas e acaba por exercer uma influência negativa nos jogadores?

FC. Penso que a divisão é boa e competitiva, mas tem uma cultura que não me agrada. Supostamente a Challenge é a equipa B dos seniores, logo devia ser uma equipa de transição onde os jogadores davam o máximo para se mostrarem para estarem prontos para subir à equipa principal. Mas não é isso que acontece… Muitos dos jogadores apenas jogam por jogar rugby e sem objetivos e isso leva a uma displicência grande das equipas tanto na atitude como no modelo de jogo.

Seria mais vantajoso um campeonato sub-23, se tu pensares tem um fim, tens de trabalhar para dar o salto. Há a questão de que um jogador com 24 anos já não pode jogar… claro que é bom que existia continuidade para jogadores mais velhos do que 23 anos. Contudo, se existir um limite de idade obriga a que a competitividade suba e que tenham de dar o seu melhor. Eu acho que ao não existir limites de idade pode retirar competitividade e colocar algum  relaxamento dentro da equipa

Farias algum tipo de alteração? E sentes que clubes e federação dão importância a esta competição?

FC. A Federação parece-me preocupada com o sucesso da Challenge, mas acho que o maior problema são os clubes. À excepção do CDUL e Direito acho que não existe grande interesse nesta competição, não há um trabalho específico e tão sério quando devia existir um crescimento físico e no modelo de jogo, preparando os jogadores para outro patamar ou, que pelo menos, tivesse outro nível competitivo. Ao não existir essa preocupação podem entrar num tipo de relaxamento, tanto por parte do clube, jogadores e treinadores que deviam ver a Challenge com outros olhos e apostar mais nela.

Diogo Cabral, atleta do CF “Os Belenenses”, também deu a sua opinião sobre o escalão Challenge e os desafios que se apresentam no futuro.

A divisão Challenge faz sentido para ti? Estiveste algum tempo lesionado e ao teres voltado a jogar num nível menos “agressivo” fisicamente ajudou começares a voltar a ganhar a tua forma, certo?

DC. De forma muito direta respondo já à primeira pergunta. Sim, a existência de uma divisão challenge tem todo o sentido.

O porquê da questão também me parece bastante óbvio. Acho fundamental para a transição de sub18 a sénior, permite que jogadores que não integrem a equipa sénior A, continuem a jogar, e mesmo jogadores que outrora pertenceram à equipa principal, que devido a diversas razões deixaram de pertencer, desde os pessoais às táticas, permaneçam no clube.

Estive bastante tempo lesionado, é verdade. Continuei com a atividade física, numa fase inicial ainda fiz bastantes vezes natação e em dezembro comecei a fazer umas corridas pequenas.

Não foram propriamente os jogos challenge que fizeram com que eu evoluísse fisicamente, ou que pelo menos recuperasse o folego que tinha, serviram mais para eu voltar a experienciar a rotina de preparação para o jogo e mesmo voltar a ter algum “espírito competitivo”.

A vertente física, neste caso, a minha evolução, veio nomeadamente com os treinos que fui fazendo sozinho e com o trabalho de fisioterapia, mas claro, uma parte depois veio da reintegração nos treinos e da adaptação ao campo, nadar e correr num paredão é muito bom para a resistência, mas correr num campo com variações de intensidade é relativamente diferente.

Que alterações farias nas equipas Challenge? O que falta para ti?

Antes da resposta, que fique esclarecido que a minha opinião não é uma forma de atacar qualquer tipo de procedimento relativamente à equipa challenge, nem de julgar ou rebaixar… estou bem ciente de que, dado o universo da modalidade em Portugal, é natural existirem limitações ou “lacunas”.

Mas vá… começando… a meu ver, um dos maiores “problemas” da equipa challenge passa pelo tipo de jogadores que a integram, não pela qualidade, mas pelo nível de compromisso e empenho; há os jogadores que vêm dos sub18 e querem evoluir e chegar à equipa principal, os jogadores que não têm tanto tempo e aparecem quando podem, alguns que estão mais incluídos num “rugby social”, etc, acho que se percebe a ideia.

Eu encaro isto como uma lacuna, porque acaba por causar uma certa instabilidade na rotina da equipa. Ora estão uns disponíveis, ora não estão, e mesmo a vontade para treinos mais sérios, que às vezes não é a maior.

É natural, eu não julgo ninguém, dado que em Portugal os praticantes da modalidade não são muitos, tem de haver lugar para todos, tem de ser.

Não são só os mais comprometidos que fazem um clube/equipa… agora, se me perguntarem “ Achas que para um desempenho geral mais elevado, o nível de seriedade poderia ser maior?”, aí acho que sim, por vezes é um aspeto a melhorar.

Relativamente à maneira como a equipa é tratada pela equipa técnica, não tenho nada a apontar, há treinadores e managers comprometidos

Foto: José Vergueiro Fotografia

A FINAL ENTRE ADVOGADOS E UNIVERSITÁRIOS DE 2018

Mas vamos às boas notícias… este ano voltamos a ter uma final de blockbuster com o GD Direito (campeão em título) e o CDUL que prometem fazer jus a uma fina do CN1, com o elenco de Pedro Vital (um treinador de imensa qualidade e com olho para explorar as fraquezas do adversário) com desejo de roubar o título do clube de Monsanto que é liderado pela dupla composta por Frederico Caetano Nunes e Frederico Pedro Nunes.

Do lado dos “universitários” têm alguns nomes de atletas internacionais por Portugal (que têm sido jogadores mais Challenge que CN1, não abdicando do compromisso) como João Francisco Almeida, João Mussolo, Afonso Sousa, António Stilwell ou as novas revelações do clube como João Francisco Lima, Diogo Cardoso, Raul Conceição ou Duarte P. Gonçalves, para além dos “novatos” que subiram à equipa principal (Faustino Gama ou Pedro Anahory é um desses casos, mas está neste momento a jogar na Austrália).

Do lado dos “advogados” vão estar em campo alguns atletas da selecção sub-20 como Manuel Peleteiro, sendo que João Fezas Vital deverá estar ao serviço da formação que irá disputar a meia-final do CN1 frente à Agronomia. Ainda há Duarte Matos, Francisco Afra Rosa a despontar nesta equipa que gosta de lutar no breakdown, de ser dominadora na placagem e sempre com o pé a fundo com a bola nas mãos.

No último embate entre os dois, o CDUL conquistou o ponto de bónus ofensivo com uma vitória esclarecedora por 38-05. Porém, em tempo de finais não há forma como prever quem vai ganhar e por quanto… tanto o CDUL como o GD Direito são equipas habituadas a estarem presentes em finais, tanto ao nível de formação como a nível sénior.

A final está agendada para dia 28 de Abril, este sábado às 12h30 no CAR Jamor e espera-se que o público esteja em massa para dar o apoio e o “carinho” necessário a uma divisão de rugby competitiva, intensa, divertida e que apresenta os traços fundamentais que a oval portuguesa deveria ter no seu âmago: humildade, esforço, paixão e uma vontade de ganhar mas ao mesmo tempo de jogar o jogo pelo jogo.

A Challenge é uma competição sénior que deve ser estimada e apoiada, vista não como uma simples equipa “B” da formação principal, mas como um motor para lançar jogadores, conferir-lhes minutos e “músculo” assim como atrair aqueles jogadores que em outros tempos disseram “estou retirado! Não torno a jogar!” e que agora aparecem no início da época com o discurso “olha venho cá dar uma perninha se puder ser”.

O respeito começa nos adeptos que devem não só apoiar o escalão principal mas como estar presente na bancada para estes jogos, como dos clubes que devem respeitar o seu crescimento como da Federação que não deve alterar as regras do jogo a meio da competição (o que aconteceu no decorrer desta temporada, por via da Federação em querer manter o campeonato com todos do que dividir entre os que lutavam por um lugar na final com os que jogavam só por jogar) e jogadores (uma nova oportunidade de jogar não significa relaxe e o caminho para a preguiça).

Foto: Luís Cabelo Fotografia

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