Sofrer à canadiana para ganhar no final – A Bola Rápida do World Trophy

Francisco IsaacAgosto 29, 20189min0

Sofrer à canadiana para ganhar no final – A Bola Rápida do World Trophy

Francisco IsaacAgosto 29, 20189min0
A primeira bola rápida do World Trophy Rugby 2018 está aqui e com uma nova vitória de Portugal sub-20, agora frente ao Canadá. A análise aqui! Viste o jogo?

Portugal iniciou a sua caminhada no World Rugby Trophy, competição que permitirá ao vencedor ascender ao nível “A” desta categoria. Uma vitória por 31-29 garantiu o início ideal para a Selecção Nacional de Sub-20 nesta edição de 2018 do torneio. Várias faltas e erros desnecessários levaram os jogadores nacionais para o intervalo a perder por 15 pontos.

Um regresso ao encontro com outra mentalidade e outra postura permitiu a Portugal terminar o jogo na frente do encontro, estando a “só” duas vitórias de chegarem à final.

Esta é a nossa análise ao jogo português frente ao Canadá.

PERCEBER O JOGO… E O ÁRBITRO – 2 PONTOS

Entrada a “frio” de Portugal na primeira parte do jogo frente ao Canadá, muito devido a três razões: apresentação deficitária no maul, pouca paciência e calma na defesa e… faltas em excesso. Em 40 minutos, os jovens lobos realizaram nove (9) penalidades que o Canadá aproveitou para ir por quatro vezes aos postes e mais duas ao alinhamento, somando um total de 26 pontos.

Foi com alguma estranheza que se vislumbrou este problema, algo que não era típico nesta selecção nacional comandada por Luís Pissarra. Aliás, um dos pontos extremamente positivos era a forma como obedeciam ao livro das regras, adaptando-se bem a quem estava a apitar, o que permita sucesso no final do jogo. A sucessão de faltas contra uma equipa mortífera na conversão de pontapés ou no domínio do bloco avançado (se na Formação Ordenada foi bem discutido, já nos mauls e alinhamentos o Canadá saiu ligeiramente por cima) paga-se caro.

Foi necessário ir até ao balneário para se dar uma readaptação ao juiz de jogo, percebendo o que este pedia tanto na defesa do maul (Portugal esperou muito por um erro próprio do adversário, invés de atacar directamente o pod quando podia) ou no jogo ao largo defensivo (constantes fora-de-jogos). Mal se aperceberam o que tinham de fazer, conseguiram trazer mais calma para o terreno de jogo, garantindo outra estabilidade desde logo.

A segunda parte já foi bem mais estável depois do “susto” apanhado na primeira. O factor de adaptar-se às circunstâncias de jogo é o que fazem as grandes equipas chegar ao patamar mais elevado. Destaque para João Fezas Vital, o capitão, que conseguiu reorganizar a equipa a nível de disciplina e o aproveitamento de Martim Cardoso no nervosismo evidente do juiz de jogo, apontando bem para as zonas em que o Canadá estava a fazer falta mas que não era vislumbrada num primeiro momento.

GANHAR A LINHA DE VANTAGEM… MISSÃO Nº1!- 5 PONTOS

Notória evolução dos jogadores nacionais nos últimos 5 anos, que tanto conseguem se bater bem na formação ordenada como já conquistam sucessivamente a linha-de-vantagem, duas supostas miragens há uns anos atrás. O ensaio de Nuno Mascarenhas vem exactamente nessa forma: formação-ordenada bem conquistada (a jogar vantagem por derrube intencional do pilar esquerdo), Duarte Costa Campos sai a jogar, ganha uma primeira vez a linha-de-vantagem e assim sucessivamente, até o talonador entrar na área de ensaio.

A defesa canadiana não era de ponta, apresentando várias falhas no primeiro contacto e raramente esboçou uma reacção no breakdown, facilitando a vida de Portugal na ida ao contacto. A opção dos adversários de Portugal era por não ir ao ruck a partir dos seus 30 metros, preferindo ter mais defensores na linha.

Por um lado, garantia aos canadianos mais unidades no jogo ao largo, ou seja, mais “socorristas” caso alguém falhasse na primeira abordagem ao portador da bola. Contudo, Portugal não percebeu que podia ter explorado a zona junto ao ruck ou pelo meio deste para fugir… o Canadá disputava bem, realizava um bom contra-ruck, mas esquecia-se muitas vezes da localização da bola.

É nestes pontos que os portugueses podiam e deviam ter aproveitado as facilidades concedidas pela defesa contrária. O Canadá estava mais preocupado em garantir que as linhas atrasadas portuguesas não tivessem tanto espaço para fugir, optando por dar agilidade a quem estava na área circundante ao ruck. O bom ritmo de jogo com a oval nas mãos traduziu-se em ensaios e metros conquistados.

Boa condução de jogo de Duarte Azevedo na primeira parte, falando bem com os avançados e sempre na procura de soluções para o ataque. A entrada de Martim Cardoso trouxe mais dinamismo e velocidade, mas os dois números 9 estiveram bastante bem no cômputo geral.

Faltou, todavia, algum controlo emocional para aproveitar as melhores oportunidades e pôr a equipa com mais pontos do que terminou com. Destaque para o trabalho de qualidade de Manuel Nunes, com o asa suplente a ser um devorador de linhas-de-vantagem (5 vezes ganha), aparecendo sempre bem para ganhar mais uns metros. Manuel Cardoso Pinto, Rodrigo Marta e Duarte Pinto Gonçalves foram outros a entregarem ao jogo aquilo que Portugal precisava: passada larga, troca de velocidade inesperada e bom aproveitamento do espaço.

O DE SEMPRE SE FAZ FAVOR: PLACAGEM NO PONTO E IRREVERÊNCIA A DOBRAR – 6 PONTOS

Começamos logo com um exemplo do segundo elemento: o ensaio de Rodrigo Marta é aquilo que se chama irreverência no ataque. Leitura rápida da disposição dos placadores, aceleração no espaço e uma troca de pés que colou dois possíveis defesas ao chão. É uma pormenor que faz parte do ADN do rugby português e que nunca poderá ser esquecido ou renegado.

Acarreta riscos? Claro que sim. Se o ponta fosse placado, poderia perfeitamente perder o poder da oval no breakdown… mas o Mundo dos “ses” é apenas hipotético. Não foi só neste caso denotado irreverência, pois na saída com bola (que já falamos em cima) e na vontade de colocar o ritmo de jogo num patamar mais alto de um momento para outro, notou-se exactamente isso. Este factor estragou o jogo a uma formação como o Canadá.

A primeira parte foi um “Mundo” de soluços com as constantes paragens em virtude das faltas no chão, na linha de defesa ou nos mauls, perdendo-se ritmo, velocidade e dinamismo. Na 2ª parte, os atletas portugueses optaram por fazer o seu jogo e recuperar da desvantagem no marcador, passando de 11-26 para 31-26. Só sofreram três pontos em 40 minutos e a isso se deve a dois factores.

O primeiro em virtude do falhanço de três das quatro penalidades aos postes, por falta de acerto do chutador canadiano (aqui podíamos colocar também as que João Lima ou Jerónimo Portela não converteram, o que continuaria a dar uma vantagem às Quinas) e que acabaram por ser fatais para as contas finais. E o segundo, o mais importante, a placagem e luta corpo-a-corpo. Novamente, os comandados de Luís Pissarra foram letais neste aspecto colocando o ataque do Canadá não só a andar para trás, mas em pânico em diversos momentos, com transmissões de bola feitas à pressa e sem noção da localização do parceiro do lado.

João Fezas Vital foi imperial neste apontamento, com uma série de placagens baixas muito duras e complicadas para o Canadá defender. Manuel Pinto, Duarte Costa Campos (enquanto esteve em campo foi demolidor), Nuno Mascarenhas (continua a ser um jogador letal no jogo curto, incrivelmente dedicado a concluir todo o seu processo defensivo, ou seja, placar, sair do chão e disputar o ruck) foram só alguns dos jogadores que melhor se apresentaram nesse aspecto.

Portugal voltou a ganhar naquilo que sabe fazer melhor: arriscar, sair a jogar, apostar nas suas individualidades acompanhadas pelo colectivo e uma placagem difícil de parar e muito complicada de “fugir”.

NOTA FINAL – 13 PONTOS

ASPECTOS POSITIVOS: placagem continua a ser um forte, tanto jogo ao largo como no curto, apesar de alguns problemas inicias à ponta; utilização do jogo ao pé bem esboçada por João Maria Lima, Manuel Cardoso Pinto, Gabriel Pop ou Rodrigo Marta, percebendo as dificuldades do Canadá em reciclar a oval com eficácia; conquista constante da linha-de-vantagem, trabalho de qualidade dos apoios ao portador da bola e saída rápida do ruck; readaptação a alguns factores do jogo e recolocação do mindset no ponto certo;

ASPECTOS NEGATIVOS: Má defesa ao maul dinâmico, com claras dificuldades em pôr termo a estes quando o Canadá avançava; formação ordenada foi um meio termo, com faltas bem conquistadas em alguns momentos mas também maus encaixes precipitadas por alguma impaciência; alinhamentos também estiveram na mesma nota, com alguns perdidos em zonas proibidas; faltas constantes no chão, que só foram apuradas depois do intervalo; defesa muito em cima da linha de ruck que levou a marcação de várias faltas em fora-de-jogo;

PORTUGAL: 1- David Costa 2- Nuno Mascarenhas (5) 3- José Pimentel 4- José Roque 5- Manuel Peleteiro 6- Manuel Pinto 7- João Fezas Vital (cap.) 8- Duarte Costa Campos 9- Duarte Azevedo 10- João M. Lima (3,3,2,2) 11- Duarte Gonçalves (5) 12- Gonçalo Santos 13- Gabriel Pop 14- Rodrigo Marta (Ensaio de Penalidade) 15- Manuel Cardoso Pinto

Suplentes: 16- José Sarmento 17- João Francisco Lima 18- Filipe Granja 19- Pedro Ferreira 20- Manuel Nunes 21- Sebastião Silva 22- Martim Cardoso 23- Jerónimo Portela (3,3) 24- Diogo Cardoso 25- Manuel Marta 26- Francisco Costa Campos

Equipa Técnica: Luís Pissarra (Seleccionador), António Aguilar (Treinador), Verónica Rodrigues (Team Manager), António Ferreira (Médico), Paulo Vital (Fisioterapeuta) e José Paixão (Analista)


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