O Regionalismo no rugby português: uma mudança total?

Francisco IsaacAgosto 5, 201810min0

O Regionalismo no rugby português: uma mudança total?

Francisco IsaacAgosto 5, 201810min0
O rugby português procura novas soluções para dar outra forma ao seu produto e o regionalismo pode ser o caminho. As selecções regionais como podem ser compostas?

O QUE FOI E O QUE PODE VOLTAR A SER

Há dez anos atrás existiu um projecto em Portugal que podia ter sido entendido como uma possível solução para o crescimento do rugby nacional, não a nível de clubes mas sim de regiões. O Campeonato Nacional de Regiões foi um passo completamente diferente que agrupava jogadores de diferentes clubes na mesma equipa para se bater contra outras selecções do mesmo estatuto.

De forma fácil e clara, os jogadores que estavam envolvidos nos trabalhos das selecções nacionais eram excluídos desde logo, abrindo a porta destas formações regionais a atletas menos rodados a um patamar mais exigente. Realizou-se durante a fase que os Lobos estavam activos e que o campeonato já tinha terminado. Talvez tenha sido o seu problema, encaixar-se na periferia do calendário competitivo nacional.

O arquivo do rugby português é escasso no que foi feito nessa frente, mas tanto no XV como 7’s houve claras intenções de procurar esse caminho.

Contudo, a toada da oval portuguesa acelerou e estes projectos caíram por terra facilmente, sem que fosse dado uma real oportunidade de sobrevivência, pois eram entendidos como experimentais.

Tanto a Federação Portuguesa de Rugby como a maioria dos clubes nacionais desinteressaram-se completamente pelo projecto e pela construção de uma competição só dedicada às regionais, uma vez que adequá-lo ao calendário nacional era uma das maiores dificuldades. A par disso, o descanso não dado aos atletas e o desinteresse por parte das instituições foram outros problemas.

Tentemos perceber as vantagens, problemas e soluções de tentar reintroduzir as selecções regionais no futuro próximo.

O QUE SE GANHA

Directamente: criação de uma sinergia única que vai para além do rugby de clubes, conferindo aos jogadores, treinadores e directores de equipa um espírito de colectivo que vai para além do da sua “família” original. Para além disso, cada selecção regional pode trazer mais sponsors à modalidade, uma vez que atinge um público mais lato e agrupa cidades/vilas sob a mesma equipa.

Por outro lado, prepara jogadores que nunca foram às selecções nacionais a um nível de exigência superior, podendo ser um nível intermédio entre clubes e selecções, muito do género do que passa em alguns países do Hemisfério Sul (clubes -» franquias -» selecções, isto de uma forma básica, sendo que há uma complexidade nestas coexistências).

Facilmente se tornaria uma competição de referência para o rugby peninsular, ou seja, poderia cativar os clubes espanhóis a seguir pelo mesmo caminho. Na junção de esforços seria mais fácil encontrar patrocínios e investimentos para financiar uma selecção regional a participar num campeonato internacional.

É um bloco conjunto de benesses que podem revolucionar a forma como entendemos o rugby português, abrindo a visão para algo mais elevado e com outra dimensão. Não significa isto que o rugby de clubes passe para uma categoria inferior, de forma alguma, uma vez que os clubes vão directamente dar vida a estas selecções regionais, para além de ter uma competição com mais história e que nunca sairá de cena.

A coexistência é possível mediante a alteração de algumas condições e calendário, ponto que já iremos estudar.

Um regresso bom ao passado? (Foto: Arquivo Pessoal de FM)

COMO ADAPTAR NO CALENDÁRIO

O Calendário de Competições português tem sido alvo de uma autêntica tortura nos últimos 6/7 anos com constantes mudanças nos seus modelos, desde os seniores aos sub-16, não por força da necessidade, mas mais por um capricho das classes dirigentes do rugby português (Federação e clubes incluídos). O Campeonato Nacional vai de Setembro a Maio, sendo uma competição com menos jogos em comparação com a Premiership ou Top14, mas que dura quase ou exactamente o mesmo tempo.

Note-se o Super Rugby que tem uma duração de 6 meses (7 devido à paragem de Junho), sendo que 50% das equipas param de jogar em Julho ao não se qualificarem para a fase-final. Um campeonato nacional de clubes excessivamente logo, com demasiadas paragens (há clubes que estiveram com 3 jogos no espaço de dois meses) e que perde todo o seu impacto a meio da época para tentar o recuperar na fase final.

Ou seja, se o CN1/2/3 duram 8 meses, como adequar um campeonato regional? Reformular o calendário. O modelo competitivo poderia ser igual ao que vigorou até à época de 2016/2017, com 10 equipas a disputar a primeira divisão. A competição teria apenas jogos a uma volta, para depois dividir o campeonato na fase-final. Se juntarmos duas meias-finais e uma final, teríamos no final cerca de 11 jornadas para este CN1 “fantasiado”.

Aqui até pode-se introduzir as paragens em Novembro (mês dedicado às selecções) de um máximo de 2 semanas, com os campeonatos a terminarem em Janeiro/Fevereiro. Com os campeões nacionais de clubes das várias divisões apurados, passaria-se de seguida para as Selecções Regionais.

Estas funcionariam entre Fevereiro e Maio, também a uma volta… das várias regiões que compõe Portugal facilmente poderíamos criar entre 7 a 8: Norte (CRAV, Braga, CDUP, Guimarães, entre outras), Centro (Lousã, Académica e Bairrada), Ribatejo (Santarém poderia convidar o Caldas a integrar esta região, apesar de pertencer à região do Centro), Alentejo (Montemor, Évora, entre outros), Lisboa (dividir em duas zonas, onde se inclui as equipas do Setúbal e Moita) e Algarve (para já sou Loulé, mas poderá atrair outras equipas para o conjunto).

Seja com 8 ou 7 equipas, o Campeonato Regional seria a uma volta, o que daria cerca de 7 fins-de-semana de jogos, com duas semanas paragem pelo meio. Esta competição conviveria com a fase mais activa do Rugby Europe Trophy/Championship assim como do Campeonato da Europa dos sub-20. Seriam meses dedicados às Selecções, sejam nacionais ou regionais, algo interessante do ponto de vista da comunicação e marketing.

Se os clubes estão preocupados com a paragem da sua actividade a nível sénior, a aposta no escalão Challenge poderia ajudar para esse efeito. Isto é, jogadores que não têm lugar na equipa principal do seu clube, passariam a ser a primeira preocupação a partir de agora, e em especial entre Janeiro e Maio.

A adaptação do calendário é fundamental para criar outros dinamismos no rugby português. Mas há outras questões: quem seriam os treinadores? Como se faria a selecção de jogadores? E o financiamento para estas equipas?

A formação das selecções regionais poderá encontrar problemas nestas questões, especialmente na parte técnica, uma vez que sem directores de equipa e treinadores não é possível avançar-se para a constituição dos plantéis regionais. Se for a Federação Portuguesa de Rugby a enviar convites aos treinadores e DE’s de todos os clubes, teria de ser a mesma a suportar os custos destes estarem presentes nos treinos e jogos. Na situação actual, é proibitivo essa questão.

Por outro lado, se fossem encontrados sponsors, parte do valor angariado poderia sair para o pagamento destes custos. Contudo, mesmo assim correr-se-ia o risco de a meio da preparação surgir um problema e uma das equipas ficar sem fundos, o que de imediato cancela os contratos com o staff técnico.

Poderiam os clubes fazer parte da solução? Uma vez que estas selecções regionais contêm atletas dos vários clubes nacionais, poderia solicitar-se uma contribuição de apoio ao staff técnico, criando uma espécie de fundo comum à sua região. Há que pensar que as selecções regionais são, como já dissemos, um patamar intermédio e seria interessante ter na jogada tanto a Federação como os clubes a decidir os destinos, pagamentos e formas de investimento.

Os clubes poderiam dar um total de 65% do apoio monetário e logístico (campo para treinos e jogos) enquanto que a Federação ficaria obrigada a procurar novos sponsors, gerir pagamentos e logística e garantir uma comunicação e marketing de interesse para as selecções regionais. Não só isto, como a Federação trabalharia de perto no apoio às equipas técnicas, com presença de árbitros e seleccionadores junto destas regiões para promover um desenvolvimento mais sustentado.

Relembrar que a mudança de calendário anual, ajudaria aos clubes a baixar os seus custos anuais… menos viagens, menos jogos directos (ou seja, os clubes teriam um máximo de 10 jogos nos campeonatos nacionais, pelo menos dois nas Taça de Portugal, enquanto que os jogadores jogariam cerca de 20 jogos a nível anual) e menos custos com o staff sénior. Dar 15% desse orçamento anual para apoiar a sua selecção regional seria de máximo interesse e não de todo descabido.

Em termos de jogadores, há que observar que os plantéis das selecções regionais teriam os melhores dos melhores da sua região… em Lisboa seria mais crítico porque a existência de mais equipas garante menos vagas por clube, em comparação com outras zonas (facilmente no Alentejo, Évora e Montemor formariam uma super-equipa com mais alguns atletas do Elvas). Colocar quotas máximas por clube resultaria?

A ideia passa por equilíbrio… a equipa técnica poderia ser composta por três treinadores de clubes diferentes, o que implicaria um trabalho conjunto entre todas as partes. Este equilíbrio a nível do staff poderia ajudar numa selecção balanceada, sem favoritismos ou acusações entre clubes. Os primeiros treinos das formações regionais poderiam ter 40/50 atletas, sinalando os melhores, os potenciais suplentes e reservas que não viriam aos treinos até serem convocados de novo.

As máximas distâncias a percorrer entres treinos estaria na Região do Norte com a vila de Arcos de Valdevez a estar uma hora de distância do Porto. Mas é uma distância fazível mediante, que os jogadores do Porto estejam disponíveis para também ir treinar ao campo do CRAV uma vez por semana. Este é um exemplo que vai acontecer com outras regiões mas que facilmente tem de ser superado de forma a se criar um esforço conjunto.

O desafio das selecções regionais é, sem dúvida alguma, extremo, cheio de dificuldades, questões e muitas dúvidas que resulte. Seja o financiamento para pagar os custos com os treinadores e viagens para os dias de jogo (e porque não quando os jogadores vão para os treinos), a adaptação do calendários anual(iremos no futuro falar da reformulação dos campeonatos de 7’s e Challenge), o criar de confiança entre federação e clubes, são só alguns problemas que podem colocar para sempre as selecções regionais “adormecidas”.

Mas não valeria a pena tentar criar algo diferente dentro do nosso espaço europeu?

A Região do Sul em 2008 (Foto: Arquivo FM)

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