Portugal no Men’s RE Championship 2026: dados e ideias pt.1
Ao fim de quase duas décadas e meia, Portugal voltou a levantar o título mais prestigiado do universo da Rugby Europe, com os Lobos a terem derrotada a Geórgia por 19-17 numa final jogada em Madrid. Com Simon Mannix a ter feito algo que só Tomaz Morais tinha conseguido, agora importa analisar os dados para perceber a evolução da selecção nacional nos últimos doze meses, começando pelos jogadores. Primeira ideia: Rodrigo Marta é o segundo-centro que Portugal precisava. O atleta ainda ligado ao US Colomiers assinou talvez uma das melhores campanhas de sempre de um jogador num só Men’s Rugby Europe Championship, não só pelos sete ensaios marcados como pela capacidade de conferir uma acutilância ao jogo ofensivo dos Lobos que só Pedro Bettencourt conseguiu dar durante o Mundial de Rugby 2023. Ao contrário do que alguns (iluminados) atiravam nas redes sociais, a recolocação de Rodrigo Marta das pontas para os centros garantiu que o ex-Belenenses Rugby tivesse mais acesso à bola em passes mais em linha, como funcionasse como um dos motores de jogo de toda a operação da selecção nacional. No fim de contas, as treze quebras-de-linha assinadas por Marta resultaram em diversos pontos somados por parte dos comandados de Mannix, sendo que a ligação com Tomás Appleton resultou da melhor forma possível.
Posto isto, outro 3/4s que saiu da competição em alta foi Manuel Vareiro, com o defesa português a ter produzida repetidas grandes exibições, a começar pela vitória ante a Geórgia ou na meia-final frente à Espanha. Um dos dados que ilustra a dimensão do impacto do atleta do Provence foi o número de conquistas aéreas, com Vareiro a ter somado 100% de eficácia nos seus altos, impedindo as formações adversárias de conquistarem a oval a partir deste ponto.
No que toca ao bloco dos avançados, temos de destacar quatro nomes: Nicolás Martins, José Madeira, Cody Lee Thomas/Diogo Hasse Ferreira e José Monteiro. Vamos começar por Martins que encerrou mais um Men’s Rugby Europe Championship em estilo, não só por ter sido o atleta com o maior número de placagens realizadas (72) mas também foi o saltador com o maior número de desvios no alinhamento, completando sete (três dos quais frente à Geórgia) e isto sem esquecer os seis turnovers somados durante toda a campanha. O 3ª linha que já merece ser visto como uma lenda viva do rugby nacional, foi essencial para o sucesso de Portugal tendo sido um obstáculo inamovível para os adversários dos Lobos.
Em relação a José Madeira, o 2ª linha que está prestes a assinar contrato com o USA Perpignan foi dos jogadores com maior número de colisões com sucesso no ruck, garantindo um apoio expedito e lesto aos portadores de bola, algo essencial para o sucesso da movimentação ofensiva de Portugal. Mas, e abandonando os dados estatísticos por um momento, a voz e a capacidade de comando de José Madeira foi outra vertente tão importante para o sucesso da selecção nacional como roubos no alinhamento ou mauls opositores destruídos, merecendo um aplauso interminável em todos os sentidos.
Voltando a dados estatísticos, José Monteiro foi talvez o estreante com maior impacto de todo o Men’s REC, com o nº8 a ter dominado nas colisões (ganhou a linha-de-vantagem em 80% das entradas no contacto), para além de ter fechado a campanha como o 3º melhor placador de toda a competição (62) e derrubes do placador contrário (14). O atleta do CDUL é uma força da natureza com capacidade de fazer a equipa jogar, injectando boa velocidade e artimanha à 3ª linha de Portugal, o que permitiu a Nicolás Martins e David Wallis a se sentirem mais confortáveis na ocupação do espaço.
E, finalmente, os pilares Cody Lee Thomas e Diogo Hasse Ferreira. Sem falar do quão fulcrais ambos foram para Portugal virar o jogo naqueles derradeiros 40 minutos, a verdade é que os dois foram dos atletas em melhor forma de toda a selecção nacional, com excelentes entradas no jogo que foram impondo vitalidade e capacidade de reação à primeira-linha portuguesa. Apesar dos dois terem jogado uma média de 30 minutos, acabaram por assinar melhores números que os titulares dos Lobos, com uma percentagem de placagens efectivas superior, entradas no contacto dominantes e placagens dominantes. Sabendo que a entrada de ambos nas segundas-partes foi importante, seria igualmente essencial tentar os ajustar de forma a serem os titulares em 2027, uma vez que a experiência acumulada da Pro D2 pode ser crucial nos objectivos dos Lobos.
Na segunda-parte da análise destes artigos vamos observar a evolução no esquema de jogo de Portugal, e como o regressar à fórmula Lagisquet acabou por ser imperativo para o sucesso de 2026.



