Os 3 destaques da 1ª jornada das Seis Nações 2021

Francisco IsaacFevereiro 8, 20219min0

Os 3 destaques da 1ª jornada das Seis Nações 2021

Francisco IsaacFevereiro 8, 20219min0
A França já tomou a dianteira e a Escócia vergou Twickenham, sendo estes dois destaque da nossa análise à 1ª jornada das Seis Nações 2021

Um Dupont ao mesmo ritmo (e um Teddy Thomas a deslumbrar), uma Calcutta Cup que pôs fim a 38 anos de espera e dois erros crassos da selecção do Trevo contam quase toda a história desta 1ª jornada das Seis Nações 2021, que terminou com a França bem destacada na liderança da competição!

Escolhemos três pontos que ajudam a explicar as dinâmicas dos três jogos da ronda de arranque da prova!

ANTOINE DUPONT CRIA A MÚSICA DOS LES BLEUS

4 assistências (um recorde no século XXI), 1 ensaio, 80 metros conquistados, 3 quebras-de-linha, 2 defesas batidos, 4 offloads e uma prestação magistral carregada de apontamentos diabólicos, foi o suficiente para Antoine Dupont manter o hype train em grande velocidade, para além da França estar já no 1º lugar da competição.

O formação dos Les Bleus eleva a orquestra de Fabien Galthié para outro patamar, apesar desta estar tão bem articulada que não seria totalmente preocupante ou desesperante entrar em campo sem o melhor jogador das Seis Nações 2020, sendo neste momento um elenco compacto e pulsado por um rugby elétrico, alegre e extremamente acelerado, aproveitando bem todos as oportunidades para fazer o máximo dano possível e chegar, numa boa percentagem de casos, à área de validação contrária.

Dupont impõe velocidade às fases de ataque, exige que a equipa não esteja pronta só para o plano de jogo traçado mas também para estar preparada para pensar fora da “caixa” e assumir o risco de optar por um approach que arranque uma jogada especial, com essa mesma a por pôr em xeque a defesa adversária, como aconteceu com a Itália.

Ter um 9 completamente centrado em acelerar os mecanismos de jogo – seja a atacar ou defender -, de querer pensar constantemente o jogo como se tratasse de um abertura e com capacidade para ele próprio surgir lançado na continuidade das jogadas, é um privilégio que todos os seleccionadores gostariam de ter, e, no caso de Fabien Galthié, é um luxo que detém e poderá ser a chave para desbloquear um título que foge à França desde 2010.

MR. JONES E A IDEIA ERRADA DE NÃO COLOCAR OS MELHORES

O que é que Maro Itoje, Owen Farrell, Jamie George, Elliot Daly e Billy Vunipola têm em comum? Não têm qualquer minuto competitivo feito nesta temporada. Desde Novembro de 2020, que nenhum destes jogadores actuou em qualquer jogo oficial e este detalhe acabou por ser decisivo para a prestação pobre da Inglaterra na recepção à Escócia, não havendo mínimas dúvidas que o grande responsável é Eddie Jones. O seleccionador inglês quis forçar uma “cartada” que acabou por ser contraprodutiva ao ponto do próprio descer da bancada para o relvado e ser ele mesmo a fazer as trocas de jogadores, numa tentativa de sacudir a Rosa num período de jogo em que a Escócia estava confortável tanto na defesa como na manobra ofensiva (faltou mais acerto na hora de “matar” as jogadas), não valendo de nada essas mesmas trocas no fim de contas.

Owen Farrell não produziu uma única jogada, nem foi capaz de articular o ataque como manobrador; Billy Vunipola foi caçado com facilidade pela 3ª linha escocesa, que não se deixou intimidar pelo nº8 (pareceu de todos o menos fisicamente apto); Jamie George nunca foi uma certeza no jogo corrido, tendo reduzido a sua acção à colocação de bolas no alinhamento; Elliot Daly ficou-se pelos pontapés, sendo que as poucas incursões no ataque com a bola nas suas mãos foram pouco expressivas; e Maro Itoje, apesar de ter feito três turnovers e algumas placagens que “salvaram” a Inglaterra de um pior resultado na primeira metade do jogo, cometeu erros pouco comuns, como as quatro penalidades por disputa ilegal no breakdown ou na limpeza de ruck.

A Inglaterra pareceu desconectada do espírito do jogo, pouco lúcida e coerente nas suas opções, perdida e surpreendida pela audácia dos seus rivais do norte do Reino Unido, sem rumo aparente durante todo o jogo, nunca tendo conseguido ser uma ameaça real para a Escócia, que só não saiu com uma vitória mais folgada por falta de convicção e paciência quando estava próxima da linha de ensaio. É imperceptível o número e dimensão das falhas dos jogadores ingleses, especialmente no que toca ao colectivo, não se salvando nem as combinações no ou após alinhamento ou na formação-ordenada (anulados por completo, um cenário pouco vislumbrado nos últimos anos), o que realça ainda mais as escolhas feitas por Eddie Jones para o XV titular e “finishers” (não se entende como o melhor 10 na convocatória, George Ford, entra a 10 minutos do fim do encontro, para nada mudar numa altura em que a equipa fisicamente estava de rastos).

Talvez Eddie Jones não esperava uma Escócia tão inspirada na defesa e agressiva no ataque, subestimando os seus adversários da 1ª ronda das Seis Nações 2021 ao ponto de ter afirmado que estes não lidavam bem com a pressão. No final dos 80 minutos, o contingente escocês não só demonstrou que sabe sobreviver à pressão, como expôs que as opções do seleccionador da Inglaterra acabam por ser corrosivas quando há uma falha em certos vectores, a começar pela produção de jogadas de ataque ou no dar uma velocidade e excitação às operações de ataque, algo que já vem na sequência dos dois anos anteriores, ficando a pergunta: será que Eddie Jones admitirá os seus erros e aceitar que há atletas em melhor forma física e técnica a jogar em Inglaterra, mesmo que estes não tenham o perfil procurado pelo técnico australiano?

O’MAHONY ENGANA-SE NO ALVO E GEORGE NORTH RENASCE

Poderia ter a Irlanda saído do Millenium Stadium com os 4 pontos, caso Peter O’Mahony não tivesse recebido ordem de expulsão ainda nos primeiros vinte minutos de jogo? Possível, já que os seus congéneres do País de Gales estavam a revelar algumas dificuldades no controlo de bola e no sair a jogar, ficando algo “presos” à defesa e contrarreação, tentando subir no terreno a partir de penalidades que ajudariam até construir parte do resultado, conseguindo a reviravolta no marcador já na segunda-parte, após uma entrada firme de George North no contacto, com o ponta convertido a centro a só parar dentro da área de validação.

Este é um dos pontos mais interessantes de analisar deste embate entre galeses e irlandeses, pois são raros os jogadores que conseguem mudar de posição depois de anos consecutivos a actuar no seu lugar natural ou de origem, e o facto de George North ter realizado uma excelente exibição com a camisola 13 envergada acaba por ser uma das grandes notas de destaque.

Aos 28 anos, e a uma internacionalização de se tornar centurion, George North foi readaptado como 2º centro num encontro de máxima dificuldade, tendo realizado uns satisfatórios 50 metros de conquista (foi o galês com maior distância percorrida no encontro), marcou o tal ensaio, somando-se ainda duas quebras-de-linha, 5 defesas batidos (o melhor, a par de Gary Ringrose) e 10 placagens efectivas, o que prova a qualidade excepcional de um dos atletas mais emblemáticos das ilhas britânicas.

Esta reformulação na posição de North começou em Outubro passado, quando Wayne Pivac optou por deslocá-lo para a parelha de centros nos dois últimos encontros da Autumn Nations Cup, com o jogador dos Ospreys a ter dado sinais positivos na altura que seria capaz de desempenhar o papel nuclear dentro da estratégia de jogo pensada pelo staff técnico galês – basta lembrar que o ocupante normal da camisola 13 é Jonathan Davies -, o que permitiu apostar novamente nesta opção que acabou por ser decisiva na vitória do País de Gales na abertura das Seis Nações 2021.

Num jogo que teve os seus momentos mais estranhos, mas amplamente característicos do cenário internacional do Hemisfério Norte, a ascensão de George North como movimentador de bola e um dos líderes no desenho defensivo do País de Gales, acaba por ser um ponto a ressalvar e de tomar em atenção para os próximos jogos das Seis Nações.

ALGUNS DADOS

A Itália, apesar de ter perdido por 50-10 frente à França, acabou por ser a 2ª selecção com mais metros conquistados na 1ª jornada das Seis Nações com 510 metros no total (Monty Ioane foi quem mais correu, com 98 metros no total), com só a Irlanda a conseguir mais (558);

A Inglaterra foi quem mais faltas cometeu entre as 6 participantes com 15 no total, o que ajuda a explicar a queda da Rosa ante a Escócia (Maro Itoje com 3 penalidades, foi quem mais faltas cometeu);

Teddy Thomas foi o único jogador a bisar, com dois ensaios frente à Itália, confirmando que é um dos pontas mais perigosos com espaço, já que ainda somou 3 quebras-de-linha e fintou 7 adversários pelo caminho;

Justin Tipuric ficou a 1 placagem de bater o seu próprio recorde de maior placador num só encontro das Seis Nações, já que somou 29 placagens ante a Irlanda (falhando apenas o alvo por uma vez), sem esquecer os dois turnovers conseguidos;

A Escócia não só foi capaz de garantir a Calcutta Cup e uma vitória em campo inglês ao fim de 38 anos, como foi capaz de ganhar mais metros, somar mais tempo com a oval em sua posse e com mais tempo no território do adversário, dados que nunca foram conseguidos neste século XXI, quando se fala em idas até Twickenham durante as Seis Nações.


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