O “bode expiatório” de uma estratégia fracassada dos All Blacks

Francisco IsaacJulho 28, 20226min0

O “bode expiatório” de uma estratégia fracassada dos All Blacks

Francisco IsaacJulho 28, 20226min0
Os All Blacks estão sob total escrutínio e Ian Foster tenta fugir às responsabilidades... será o fim do "império" dos neozelandeses?

Cinco derrotas e oito vitórias, este foi o pecúlio somado pelos All Blacks desde 14 de Agosto de 2021 até ao último encontro frente à Irlanda em Julho deste ano, conseguindo ser totalmente dominados quer por este adversário – em três ocasiões -, França e África do Sul, estando assim à beira de um precipício a nível de qualidade exibicional e competência da sua estratégia que poderá marcar o fim da “invencibilidade” de uma das maiores selecções do desporto mundial.

Nunca antes os campeões do Mundo de 1987, 2011 e 2015 tinham sofrido uma onda de resultados tão inconsistente a este ponto, com Ian Foster a ser, legitimamente, um dos mais criticados, pois o seleccionador tem demonstrado falhas comprometedoras a todos os níveis, que vão desde o manter o grupo de trabalho unido, acatar as responsabilidades e impor um estilo de jogo que encaixe na lógica dos atletas neozelandeses.

A pressão tem vindo a se aculumar nas últimas semanas, e quando uma parte dos adeptos/comentadores desportivos esperavam por uma reação forte da Federação de Rugby da Nova Zelândia (NZR), eis que o resultado foi, no mínimo, pouco satisfatório: demissão de dois dos quatro assistentes de Ian Foster, renovando a confiança no seleccionador, sem que o relatório da administração fosse divulgado para a imprensa, fechando este processo em copas. Brado Moar (custou cerca de quase 1M€ para sair dos Scarlets e assinar pela NZR) e John Plumtree (ex-treinador dos Hurricanes que tinha vindo a ser criticado nos últimos 5 anos por falta de evolução na avançada dos All Blacks) foram as “vítimas” deste momento negativo de uma das selecções mais fortes da modalidade, sofrendo estes as consequências máximas não só do mau trabalho de Ian Foster, mas também da falta de capricho e lógica da administração da NZR, liderada por Mark Robinson.

Mas será a massa associativa dos All Blacks tão arrogante para não conseguir aceitar uma sequência de maus resultados ao ponto de exigir reformulações? Não, o que se passa é essa massa adepta (ou crítica, pois poderemos associar comentadores, analistas e jornalistas) não reconhecer os All Blacks, muito pela ausência daquele charme arrogante, da vontade e resiliência de lutar pela vitória até ao último sopro de ar e de conseguir ser eficaz nos seus processos, não só num dado jogo, mas numa sequência minimamente consistente. Ou seja, é a perda da identidade que todos temem, pois começa a ser notório que não há união ou coesão dos 30/40 e tais jogadores convocados para os trabalhos de preparação, com aquela mística especial e distinta a ter quase se esfumado por completo, substituída por um manto de negritude e ampla falta de alegria ou convicção, pondo fim à era de reino dos All Blacks enquanto super-supra-potência do rugby.

Para uns é a hubris da acumulação de anos de arrogância total; para outros é o espelho dos resultados medíocres somados pelas selecções de formação, em especial os sub-20, que ganharam, pela última vez, o Campeonato do Mundo em 2017; e para outra metade, é o facto da administração e o cargo de CEO terem sido tomados por quem não tem novas viáveis ideias para o projecto, estando só em busca do dinheiro de empresas de equidade e pouco mais.

Na realidade, é possível que a situação actual seja não só a soma destes três factores, como do crescimento total de países como a Irlanda, do ressurgimento da França a todos os níveis, e da afirmação da Inglaterra no cenário internacional de forma consistente, estando o Hemisfério Norte mais bem preparado para lidar com a Nova Zelândia ou Austrália, isto também por graças à constante interação com treinadores, atletas e, agora, clubes sul-africanos, um contingente especialista em conseguir anular – em grande parte – a melhor estratégia de ataque dos All Blacks.

No somatório destes problemas, vicissitudes e novas realidades, há um ponto que tenta fugir à responsabilidade máxima: o papel da actual direcção. Mark Robinson e todos que estão em cargos de alta importância dentro da NZR têm aplicado uma espécie de comunicação fechada e de nunca responder/enfrentar as questões mais complicadas, anunciando grandes projectos, muitos deles ocos e sem estrutura clara, ou a fazer críticas públicas sem prestar reais esclarecimentos. A somar a isto, lembrar da decisão completamente inesperada e, que infelizmente poderá ter tornado o declínio dos All Blacks permanente, do fim do Super Rugby com a África do Sul, para depois reunirem-se com a Austrália e iniciar o próprio, numa vontade de não separar os lucros por mais que duas federações, sendo este um pormenor partilhado por este tipo de direcções: ganância.

O afastamento dos All Blacks da população é um tema cada vez mais partilhado pelo público afecto à modalidade, a falta de sintonia dos jogadores e do seu sindicato com a NZR é clara e problemática – existe mesmo um diferendo complicado desde a venda de parte dos direitos à Silverlake, uma empresa de equidade similar à CVC – e o desgaste de imagem tem sido notório, com as redes sociais da referida federação a cometerem erros atrás de erros na partilha de conteúdo, na construção de narrativa digital coesa e positiva (no dia da mulher só destacaram estas no papel de mães, e não como atletas, treinadoras e administrativas, colocando uma imagem de Sevu Reece e Shannon Frizell, dois jogadores que foram condenados por assédio e agressões físicas e palavras a mulheres), o que demonstra a dimensão do problema existente não só na selecção masculina, como também na feminina, nos grassroots ou na gestão da modalidade.

O momento é crítico e, aparentemente, a direcção da NZR sente que as únicas mudanças a realizar no seu principal activo, os All Blacks, é alterar treinadores-assistentes e manter no cargo alguém que já provou não ter a capacidade para liderar alguns dos melhores atletas da modalidade não só de agora, como das últimas décadas, ou de ter o brilho para aplicar uma estratégia coerente e que faça a diferença nos jogos disputados até ao último centímetro.

Todo este problema começou pré-2019, e bastou que o público ou os activos mais interessantes da gestão fora-do-campo se afastassem (ou fossem afastados) para que um plano de décadas começasse a ruir e apresentar falhas que poderão ser quase impossíveis de resolver nos próximos dez anos. A viagem até à África do Sul para enfrentar os campeões do Mundo de 2019 será complicada de digerir, e basta um resultado mais negativo para que o barco volte a ganhar balanço, estando este ainda dentro de uma tempestade que não deverá sossegar até surgirem reais mudanças e que impliquem outro futuro para a modalidade na Nova Zelândia.


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