North vs South Island… um retorno a um desafio centenário neozelandês

Francisco IsaacAgosto 24, 20207min0

North vs South Island… um retorno a um desafio centenário neozelandês

Francisco IsaacAgosto 24, 20207min0
Norte e Sul, Beauden Barrett vs Richie Mo'unga, Damian McKenzie vs Jordie Barrett, Patrick Tuipulotu vs Samuel Whitelock, são alguns dos embates esperados no histórico North vs South Island do rugby neozelandês...prontos para perceber do que se trata?

Norte e Sul, dois conceitos que durante décadas significaram um real despique dentro do rugby neozelandês, pois colocava as duas ilhas frente-a-frente ambas munidas dos melhores jogadores de cada equipa provincial, o que possibilitou oferecer um espectáculo imenso e intenso a quem tinha o prazer de assistir a tal jogo.

E ASSIM ERA NO ÍNICIO… O SUL CONTRA O NORTE!

O primeiro encontro aconteceu no ano de 1897, altura em as selecções do Norte e Sul se reuniram em Wellington e jogaram para ver qual das duas tinha efectivamente o domínio… acabou com vitória para os nortenhos por 16-03, ou seja, um resultado avassalador para a altura pois o ensaio à altura valia nada mais que uma oportunidade de um jogador chutar aos postes e fazer 1 ponto.

Entre 1897 e 1939 este não houve um único ano sem um North vs South, abrindo-se a primeira paragem entre os anos de 40 e 42, isto devido à 2ª Grande Guerra, retornando à normalidade até ao ano de 1987 e foram aí que começaram a surgir os primeiros problemas. A partir do dia em que surgiu o Mundial de Rugby no calendário internacional, o jogo histórico entre ilhas neozelandesas perdeu efectivamente toda a importância que possuía e desde então só aconteceu por duas ocasiões, em 1996 (vitória do Norte por 63-22) e 2012 (32-24), ficando relegado para uma prateleira histórica, sem importância do rugby neozelandês e mundial.

Na era do profissionalismo este encontro sem importância para competições ou apuramento de resultados e que nada contava para se fazerem convocatórias para os All Blacks, acabou por sofrer este fim abrupto e que rapidamente voltou costas à tradição, e pode-se perceber do ponto de vista do poupar os atletas de sofrerem lesões ou de assimilar um cansaço extra e desnecessário. A entrada em cena do Super Rugby a partir de meados dos anos 90 do século XX, o aumento de número de jogos internacionais e visitas a outros países e ainda os campeonatos regionais/nacionais não davam oportunidade para se pensar em dar espaço a um jogo que até podia gerar um bom revenue económico e manter o despique entre Norte e Sul.

Infelizmente, a última tentativa de retorno em 2012 não correu da melhor forma possível apesar de terem jogado atletas como Dane Coles, James Broadhurst, Filo Paulo, Brad Shields, Hadleigh Parkes, Charles Piutau (todos pelo Norte) e Quentin MacDonald, Matt Todd, Luke Whitelock, Jimmy Cowan, Willi Heinz, Patrick Osborne (estes pelo Sul), deixando de fora vários nomes conhecidos do rugby neozelandês à altura, sem esquecer que aconteceram algumas cenas lamentáveis de violência a meio do encontro. O encontro em 2012 serviu para gerar algum boost económico para a federação de rugby de Otago, que estava completamente imersa em problemas financeiros e necessitava de um blockbuster para obter um fundo de maneio com o objectivo de resolver alguns dos seus principais problemas.

2020… UM ANO ANORMAL QUE POSSIBILITA INTEGRAR JOGOS “ANORMAIS”

Chegamos finalmente a 2020 e num ano marcado pela paragem que ditou o fim do Super Rugby geral, forçando a cada uma das nações, que compunham esse ramalhete, a conceber campeonatos regionais como aconteceu com o Super Rugby Aotearoa e Super Rugby AU, abrindo espaço para se realizarem outros eventos nacionais de modo a manter os seus atletas a rodar e o público engajado com a modalidade, levando a que o encontro entre Norte e Sul voltasse à agenda do calendário neozelandês, apesar deste encontro não ter recebido um “crachá” de importância imediata, como Ian Foster explicou,

“O nosso primeiro pensamento foi tentar organizar um ou dois jogos com selecções próximas de Tier2, mas nenhuma estava disponível. Isto possibilitou que víssemos o jogo de Norte vs Sul como a 2ª melhor possibilidade.”.

Confirmado este jogo para fim de Agosto (sofreu um adiamento de uma semana e será realizado a 5 de Setembro) este encontro terá contornos de um típico All-Stars match do Super Rugby Aotearoa, que funcionará também como máquina para apurar quem tem qualidade suficiente para jogar nos All Blacks, seja no XV titular, no banco de suplentes ou como reservas no elenco que irá jogar o The Rugby Championship em Novembro. Como se faz o apuramento de jogadores para cada uma das ilhas?

O critério seguido foi simples e de zero controvérsia, passando por designar os atletas mediante a primeira equipa que jogaram por no campeonato de províncias (National Provincial Championship), diferenciando uns e outros. Depois os treinadores, designados pela NZRU com anuência do staff técnico dos All Blacks, efectuaram as suas picks o que levantou algumas dúvidas quando ficaram de fora alguns jogadores que tiveram amplo destaque no Super Rugby geral e Aotearoa 2020, como Marino Mikaele-Tu’u (Highlanders), Jona Nareki (Highlanders), James Blackwell (Hurricanes), Du’Plessis Kirifi (Hurricanes), Pari Pari Parkinson (Highlanders), sendo que Dane Coles, Ngani Laumape, Solomon Alaimalo e Sam Cane ficam de fora por lesão.

Ou seja, possivelmente 95% dos convocados do North vs South são a base dos All Blacks para 2020, e para os jogadores que querem chegar a esse patamar de excelência do rugby mundial este encontro poderá servir de trampolim para afirmar a sua qualidade e possível acesso a um elenco que não está bem fechado para este ano civil.

Porém, e apesar de tudo e todos estarem desejosos de ver Aaron Smith e Beauden Barrett a combinarem como 9-10 nos nortenhos ou Will Jordan a conviver com Jordie Barrett no três-detrás do Sul (quem vai para a ponta?), para além de outras possíveis mixs que só são, supostamente, vísiveis nos All Blacks, a verdade é que o encontro está sujeito a grandes dúvidas devido à forma como a Nova Zelândia tem optado por lutar contra a expansão do Covid-19.

FECHAR PORTAS ATÉ EXTINGUIR O QUE NÃO DÁ PARA ERRADICAR

O governo neozelandês optou por fechar novamente o país num semi-lockdown em 90% do território, encarcerando Auckland totalmente, o que colocou novamente em dúvida toda o seu suporte social e económico, sem esquecer o desportivo como acontece com o North vs South, estando supostamente marcado para o dia 5 de Setembro agora em Wellington e sem possibilidade de público estar presente, o que representa um total fracasso de revenue económico perdendo a lógica de se realizar o encontro.

Num ano diferente, seria interessante voltar a ter um jogo diferente que pudesse de alguma maneira atenuar os elevados custos das paragens no aparelho desportivo da NZRU, mas perante a vontade sistemática de querer extinguir com um vírus que veio para ficar (alguns dos virologistas da OMS já atribuem o caráter de endémico ao Sars-CoV-2, ou seja, é impossível de erradicar) quando não é possível, parece que todo o calendário desportivo neozelandês estará sucessivamente em perigo, com alguns membros da SANZAAR a pedir que não seja a Nova Zelândia a sede do The Rugby Championship 2020, por exemplo.

Dúvidas adensam-se, novas datas são avançadas mas é notório que a preocupação de Ian Foster e restante equipa técnica da Nova Zelândia passa por manter os atletas em forma até chegar os meses de Outubro-Novembro, começando o The Rugby Championship 2020 (supostamente…).


Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter