Jogar ou Competir? – Coluna de Luís Silva Cavaco

Fair PlayAgosto 3, 20185min1

Jogar ou Competir? – Coluna de Luís Silva Cavaco

Fair PlayAgosto 3, 20185min1
Luís Silva Cavaco, experiente treinador de rugby juvenil, junta-se ao painel de colunistas e fala sobre o problema de jogar ou competir na modalidade. Quais os problemas?

Treinar jovens jogadores de rugby ou de outro qualquer desporto é uma atividade apaixonante. Ver a entrega, a paixão, a felicidade dos jovens atletas. Mas estarmos com crianças de 9 anos não é o mesmo que adolescentes de 14 anos. Devemos procurar adaptar todo o processo de treino à realidade etária.

Os planos de desenvolvimento a longo prazo dos atletas (Long Term Development Plan – LTDP) na grande maioria dos principais organismos da modalidade são coerentes e identificam diferentes ciclos de crescimento, com distintos objetivos e conteúdos.

Resumo das etapas no desenvolvimento a longo prazo (Foto: LTDP)

Este plano pode assim, ser um farol que nos pode guiar na definição dos principais objetivos e valências que queremos passar aos nossos jovens atletas.

Um dos aspetos fundamentais é perceber e aceitar que a esmagadora maioria dos miúdos estão presentes e disponíveis porque querem. E o estarem presentes, seja qual for o objetivo pessoal de cada um, merecem iguais oportunidades de crescimento e desenvolvimento.

Podem lá estar porque querem apenas melhorar a sua forma física, querem apenas divertir-se, querem ter aceitação social junto dos seus pares, ou querem simplesmente competir e ganhar. São todas válidas e teremos que saber aceitar e procurar ir ao encontro das suas expetativas.

Em todos os ciclos de crescimento e desenvolvimento haverão momentos que estarão em confronto a nossa equipa e os adversários e, na maioria dos jogos, haverá um vencedor.

E sair vencedor, é simplesmente marcar mais ensaios ou pontos que o adversário. Mas será só isso? Para os nossos jovens atletas é mesmo só isso. Para os treinadores, não pode de forma alguma ser apenas isso. Olhando apenas para o resultado final, podemos por em jogo apenas os que consideramos melhores.

Dessa forma estamos a maximizar a probabilidade de ganharmos o jogo. Ficarão todos contentes? De forma alguma! Quer os que não jogam, quer os que jogam o tempo todo. E tudo isto vai contra o que falei acima, de ir ao encontro das expetativas dos nossos jovens atletas e da igualdade de oportunidades de desenvolvimento e crescimento.

Desta forma faço as perguntas: Pode-se jogar sem competir? Claro que sim! Pode-se competir sem jogar? Também!

Estas duas palavras não são de forma alguma binomiais. Ou é uma ou outra. Devem andar lado a lado. E como podemos facilitar para que estas duas palavras andem lado a lado? Infelizmente não há receita. Posso, no entanto, dar algumas pistas do que fui vendo e experienciando ao longo da minha vida desportiva (jogador e treinador).

Dizer com clareza, que o primeiro objetivo é a diversão. Seja nos treinos, seja na roda antes dos jogos. Naturalmente que num grupo tão alargado de jovens, a noção de diversão é distinta entre cada um. Devemos aí encontrar pontos em comum, mas nunca esquecermos se os nossos jovens saem mais contentes e felizes. Sem a diversão, sai tudo mais forçado, sem alegria.

Procurar não dizer a palavra ganhar. O ganhar nunca é um objetivo. Será sempre uma consequência. Consequência do que é feito durante todo o ano até ao final do jogo. O rugby é um desporto muito verdadeiro.

Expurgando os diferentes estádios de desenvolvimento físico dos miúdos, as equipas que jogam melhor, ganham com mais frequência. Sendo assim o foco deve estar nas variáveis que podemos controlar, ou seja nas capacidades técnicas, táticas, físicas e psicológicas da nossa equipa.

Aproximar o mais possível a realidade do treino à realidade do jogo. Jogamos como treinamos e treinamos como jogamos. O jogo deve ser a componente central do treino, com tudo o que nos ensina.

O jogo traz-nos cenários. E nos cenários somos obrigados a tomar decisões. E é aí que quero mesmo chegar. Criar condições para que os nossos jogadores estejam constantemente a tomar decisões. Se depois sabem executar ou não é outro tema, que pode ser trabalhado mais individualmente e do ponto de vista mais analítico.

Os convocados para um jogo ou torneio jogam todos, procurando também dar o mesmo tempo de jogo a todos. Parece estranho, mas talvez esta premissa seja a mais fácil de por em prática.

Até aos sub14 inclusive, julgo que é possível fazer isto. Todos jogam e todos são substituídos. São as regras! Facilita muito na gestão das expetativas. Podemos nunca jogar com a equipa considerada mais forte? Sim frequentemente, mas qual é o problema? Obriga-nos a conhecer melhor os nossos atletas, aumenta a sua probabilidade de jogar em diferentes posições, e vão todos competir, pondo em prática o que aprenderam no treino.

Este artigo não tem como objetivo mostrar como deve ser feito. Procura apenas contribuir para uma reflexão de todos os agentes desportivos, em especial dos treinadores, de como nos envolvemos com os jovens jogadores e como podemos contribuir para o seu desenvolvimento e crescimento, quer como jogadores, mas acima de tudo como pessoas. Apesar de toda a indefinição vivida no panorama nacional, o nosso papel de treinador de jovens jogadores não sofreu alterações


One comment

  • Luisa

    Setembro 9, 2018 at 10:16 pm

    Balelas, frases feitas e dicotomias sobre o rugby. Bem vindos ao melhor de Luís Cavaco. Palhaçada!

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