25 Mai, 2018

A Essência do Desporto: o Respeito – Coluna Luís Supico

Fair PlayDezembro 12, 20174min0

A Essência do Desporto: o Respeito – Coluna Luís Supico

Fair PlayDezembro 12, 20174min0
Estaremos a ser demasiados críticos com a arbitragem? O caso do rugby nacional passa por questões na formação e apoio aos árbitros. Concordas com L. Supico?

No pouco tempo que joguei havia um árbitro que se destacava dos outros, não só pelo visual mas também por ser o que mais jogos nos apitava: o Medina era, nele só, uma figura maior e todos o (re)conheciam facilmente.

Roupa justa para um físico muito avantajado, um semi-falsete meio cioso que, não raras vezes, se enganava na atribuição das faltas “mêllée CDUL… peço desculpa, Agronomia“, o acompanhamento das jogadas ao longe, chegando invariavelmente tarde às fugas a solo ou pontapés bem colocados mas, acima de tudo, uma figura maior no respeito que eu lhe tinha – porque foi assim que fui educado pelo clube e foi assim que ele me educou desde o primeiro dia: o árbitro era soberano e eu só tinha que calar e comer. Ai de mim se pensasse sequer em falar.

Verdade seja dita o meu conhecimento na altura era mínimo e pouco fundamentado, já que o que sabia vinha dos pouquíssimos jogos das cinco Nações que davam no 2º canal, do que os treinadores nos ensinavam, do que outros jogadores da equipa, mais experientes, nos diziam e pouco mais: mas o respeito estava lá, era palpável. Qualquer dúvida, a existir, era o capitão que falava e só numa altura de pausa (a caminho de alinhamento ou FO, por exemplo).

O Medina errava, como todos antes e depois dele. Se calhar errava mais que hoje em dia mas o nosso respeito era maior e o conhecimento menor – e aí começa o problema.

Se há coisa que a tecnologia tem de bom é a facilidade com que nos instruímos. A informação que, em segundos, encontramos, levava anos a formar, muitas vezes por erro próprio mas que, hoje em dia, basta escrever na net que aparecem, por vezes, milhares de respostas. Maior informação trás mais equilíbrio, o que trás mais competitividade: ficamos todos a ganhar. Menos os árbitros.

Havendo uma hierarquia de conhecimento o árbitro sabe melhor as regras que os treinadores e estes melhor que os jogadores, ou assim seria de esperar. Nesta época de informação, os jogadores são quem mais e melhor sabem as regras, depois os treinadores e por fim os árbitros – há uma explicação fácil para isso: os jogadores e os treinadores procuram a informação, vêm exemplos, têm conhecimento muitas vezes sem sair de casa, os árbitros têm que a experienciar e isso só acontece… em jogos. Errando na altura. Como sempre foi.

Estando o conhecimento do jogo virado ao contrário, é natural que os jogadores e treinadores questionem o árbitro sobre decisões que estes consideram erradas – muitas vezes com razão de ser, diga-se de passagem – e que, infelizmente, mudam de árbitro para árbitro: quem considere um mergulho uma limpeza normal, quem veja um fora-de-jogo e uma entrada de lado milimétrica ou que, pura e simplesmente, deixe jogar, nunca se sabe o que vai sair na rifa. Não tenhamos dúvidas: a arbitragem, em Portugal, está pelas ruas da amargura.

Tal como a essência do Rugby, o respeito.

Todos queremos melhores árbitros e, tendo em conta a evolução dos jogadores e treinadores, bem que precisamos aumentar o conhecimento que os árbitros têm mas há uma verdade absoluta: o árbitro é soberano. E isso deixou de ser ponto assente no nosso Rugby. O contrário é, até, a norma: o árbitro é a figura mais fraca em campo, facilmente atingível.

Não sou iludido ao ponto de dizer que devemos aceitar todos e quaisquer erros, para bem do crescimento da arbitragem em Portugal; o erro faz parte mas também a sua admissão e consequente melhoramento. Quem vai para árbitro já sabe e, na devida proporção, precisa de feedback para melhorar. Mas precisa também de tempo.

Tudo tem de começar com a base: formação. Os árbitros têm de ser ajudados, por forma a poderem fazer o seu papel sem pressões e com conhecimento amplo do jogo, maior do que todos os outros agentes. Em seguida tem de haver consistência (ou perto disso) nas decisões; não podemos ter tantas diferenças nas arbitragens em Portugal. Mas acima de tudo, tem de haver paciência para se poder formar com qualidade e quantidade: porque é disso que se trata agora. Não só a qualidade é menor como a entrada de novo sangue na arbitragem Portuguesa é virtualmente inexistente, já que ninguém quer ser atacado ao primeiro erro – que irá sempre acontecer.

Longe vão os tempos em que o árbitro era figura central de autoridade em campo, respeitado por todos mesmo quando errava.

Que saudades do Medina.

Rohan Hoffman (ao centro) voltou a apitar jogos em Portugal. (Foto: Luís Cabelo Fotografia)


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