E temos novos Reis do Mundo do Rugby – Semana 3

Francisco IsaacNovembro 19, 201810min0

E temos novos Reis do Mundo do Rugby – Semana 3

Francisco IsaacNovembro 19, 201810min0
A Irlanda sentou-se no trono de maiores do Rugby e assim temos novos Reis do Mundo do Rugby. Uma exibição de gala que parou os All Blacks!

A Irlanda colocou Steve Hanse em cheque, a Inglaterra superou de uma primeira-parte sofrível, a Austrália ia dando razões para os italianos festejarem, a França foi imperial ante os Pumas e a África do Sul sobreviveu à suposta revolta da Escócia (que voltou a ser adiada…). 

A Semana 3 dos Internacionais de Inverno analisada pelo Fair Play com os melhores, piores, momentos em grande e muito mais!

OS BÁSICOS: LES BLEUS APARAM AS GARRAS DOS PUMAS DE LEDESMA

É surpreendente a repetição dos mesmos erros da Argentina, verificando-se uma e outra vez os problemas na luta no breakdown ou no trabalho na formação-ordenada, pormenores que ofereceram nova derrota à selecção liderada por Mario Ledesma.

Dados a serem observados à priori:

  • 9 penalidades realizadas, 5 por bola presa no chão, 2 por falta na FO, 2 por disputa ilegal no breakdown e 1 por anti-jogo;
  • 25 placagens falhadas de um total de 85, sendo que 15 das quais foram realizadas nos últimos 30 metros;
  • 1 alinhamento perdido e 5 formações-ordenadas perdidas;

A disciplina voltou a ser um tremendo problema para a Argentina, oferecendo à França o princípio de controlo de jogo e de manuseamento de bola. Foi a exibição mais convincente dos Les Bleus contra uma selecção do Hemisfério Sul nos últimos três anos e muito do mérito vai para a forma como abordaram o jogo à mão: destemidos.

Os franceses de Jacques Brunel terminaram o encontro com 400 metros conquistados, 15 quebras-de-linha (a Argentina foi excessivamente permissiva no apoio ao 1º placador), 24 defesas batidos e isto tudo no mesmo número de “arranques” que os Pumas tiveram: 104.

Foi uma França do passado a jogar em Paris, sempre com visão para o ataque, vontade de criar roturas defensivas nos adversários sul-americanos e apostar em movimentações rápidas ou inversões de jogo improváveis.

Camille Lopez foi “rei” na intensidade aplicada às movimentações nas linhas atrasadas, mas o grande Rei dos franceses foi Baptiste Serin. O médio-de-formação foi o chefe da avançada, irritando constantemente os seus jogadores a darem mais 5%, com um sentido de organização táctica genial e que colocou os Pumas sempre à procura do melhor sítio a estar na linha defensiva.

A Argentina teve apenas domínio durante os 10 minutos iniciais, onde até construiu uma vantagem “sólida” de 10 pontos a 3. Contudo, a falta de frescura de Agustín Creevy (será interessante perceber o que vai ser da avançada dos Pumas sem o lendário talonador), Pablo Matera e Desio, a falta de clarividência de Bertranou (o 9 está completamente fora de sincronia com o seu número 10) e a pouca capacidade de fuga de Boffelli, Delguy ou Moyano, resultou num descalabro total no ataque.

Na defesa a apatia, a falta de pressão aplicada na linha defensiva e a pouca exigência na placagem ou na leitura defensiva (os Pumas deram demasiado espaço à ponta, ficando em diversas ocasiões em situação de desvantagem numérica) foram mortais.

Os Les Bleus parecem estar a caminhar para uma nova era, virando a página de desastre dos últimos três anos.

O MEDIANO: BOKS’ E ESCOCESES PARTILHAM ERROS MAS SÓ UM GANHA

A Escócia bem promete que vai conseguir “quebrar” enguiços, mas no momento X consegue perder o controlo do jogo e permitir ao adversário ganhar os pontos suficientes para perder o encontro. Foi (quase) assim com a África do Sul, com os visitantes a demonstrarem mais uma vez a sua extensa e tremenda fisicalidade no contacto, para além da destruição massiva nas formações-ordenadas.

Contudo, os Springboks voltaram a tremer num ponto que já foi uma das suas “bandeiras”: alinhamentos. Malcolm Marx está dessincronizado com os seus colegas de salto, e estes continuam a demorar bastante tempo a meterem-se no ar para ganhar a oval. Sem alinhamentos, os Springboks não conseguem montar o maul dinâmico, que por sua vez impede a Pollard e companhia de criarem as movimentações de base perigosas em caso de saída de bola do tal agrupamento de jogadores em avanço.

A África do Sul teve pouca bola nas pontas, optando por passar maior parte do jogo no avanço sistemático pelos avançados, pedindo depois jogo ao pé tanto de Handré Pollard, como de Willie Le Roux ou Embrose Papier (o 9 dos Blue Bulls é superior a Van Zyl e poderá ser a “sombra” de De Klerk que a África do Sul precisa) para meter as linhas de ataque da Escócia sob pressão.

Um ataque acérrimo ao breakdown resultou em 7 penalidades para a África do Sul, que estão cada vez mais empenhados em conseguir tirar espaço de manobra no ruck às suas equipas adversárias, especialmente a aquelas que chegam tarde a este espaço ou fazem uma limpeza mais caótica do que organizada como foi o caso da Escócia de Gregor Townsend.

A equipa da casa esteve muito dependente do que Stuart Hogg conseguia ou não inventar, com o 15 a ter uma série de acções de excelência mas que nunca resultaram em pontos ou méritos para a sua equipa. Hogg foi uma dor de cabeça para Sibusio Nkosi que se sentiu algo desacompanhado por Jesse Kriel no que toca ao fechar do canal 3, o que permitiu a fuga de Hogg por esse espaço de terreno em alguns momentos críticos.

Contudo, a falta de experiência de Horne no par de centros, ou a escassez de “magia” de Finn Russell na movimentação das linhas atrasadas tirou velocidade e capacidade de rasgo, dando mais “paz” e estabilidade à África do Sul. Os Springboks foram extremamente inteligentes no uso da oval, trabalharam-na de forma organizada e quando tinham de fazer pontos, fizeram-no… pelo menos na maior parte das ocasiões dispostas.

Erros para todos os gostos, mas ganhou a formação que melhor trabalhou durante os 80 minutos. A Escócia terá de deixar para 2019 a quebra deste enguiço que para já se mantém.

A EXCELÊNCIA: IRLANDA DÁ LIÇÃO AOS “SUPOSTOS” MELHORES DO MUNDO

Num sentido “lúdico”, se quiserem descobrir o que resulta a pesquisa de “maior exibição de sacrifício pelo país” vão encontrar em 1º lugar a Irlanda e em segundo Peter O’Mahony. Num sentido “sério”, a Irlanda fez uma exibição genial na defesa (não foi perfeita, uma vez que ainda consentiram perigosas quebras-de-linha), rápida e eficaz a atacar (Sexton foi imperial ao pé, mas pouco conseguiu pôr a equipa a jogar) e imensa na hora de aguentar e lutar no breakdown.

Sempre que os All Blacks aproximavam-se com perigo à área de validação, a defesa irlandesa atirava-se à bola no chão com todas as forças possíveis e não a largava até ouvir o soar do apito de Wayne Barnes. O’Mahony completou 5 turnovers (três terminaram em penalidades), destacando-se neste aspecto, sendo uma das caras desta vitoriosa Irlanda que termina o ano de 2018 com apenas uma derrota em dez encontros.

Não só foram excelentes na luta pelo breakdown, como dominaram a placagem nos últimos 15 metros, somando 89% de eficácia neste aspecto (os mesmos pontos percentuais que a Nova Zelândia), acentuando-se o factor X da Irlanda: postura a defender e equilíbrio no apoio ao placador. A velocidade com que os jogadores de Joe Schmidt socorriam o primeiro placador foi imensa e atrapalhou constantemente a velocidade de jogo do ataque da Nova Zelândia, que teve em Aaron Smith um dos seus maiores problemas.

O formação foi completamente dominado pela 3ª linha irlandesa, maneatado-o daquele trabalho exímio no passe do chão e na construção de fases sucessivas de uma velocidade intensa e que ponha uma pressão total na equipa adversária. Mal TJ Perenara entrou em campo, sentiu-se uma total diferença em como os All Blacks faziam o seu jogo mexer, mas o formação suplente entrou 58 minutos tarde demais para modificar o comportamento dos neozelandeses.

A Irlanda no ataque foi intensa e desafiadora nos últimos 22 metros, arriscando duas penalidades em alinhamentos que viriam a terminar em penalidades a favor transformadas por Jonathan Sexton. O nº10 pautou um bom jogo no comando das ligas, mas foi o eixo composto por Kieran Marmion (o formação esteve excepcional, não tremendo no lugar de Conor Murray), Rob Kearney e CJ Stander. Os quatro em conjunto foram os líderes da organização irlandesa que se pautou pela eficiência em todos os parâmetros e um deles passou pelo pormenor de terem só cometido 5 penalidades ao longo de 80 minutos.

Só uma equipa bem estruturada, com uma profunda noção do que tem de fazer em todos os sectores e que gosta de se sacrificar em todos os momentos do encontro é que pode dar uma lição de rugby aos actuais (bi)campeões do Mundo.

Joe Schmidt tem dada repetidas lições de rugby ao Planeta da Oval e depois de três títulos nas Seis Nações (é a par de Clive Woodward, o seleccionador com mais títulos na maior prova de selecções europeia), vários tours bem sucedidos, do lançamento constante de novos nomes do rugby irlandês e de fazer História ao bater os All Blacks por duas ocasiões, é altura de atribuir-lhe o título de melhor seleccionador do Mundo.

A Nova Zelândia tem de voltar a inspirar-se nos seus básicos, de perceber que apoiar o portador da bola é regra (Broadie Retallick, Samuel Whitelock, Liam Squire, Owen Franks estiveram completamente fora de sincronia), de não oferecer trinta minutos de avanço ao adversário e de terminar com as penalidades mais que censuráveis nos últimos metros (Whitelock efectua uma na 1ª penalidade do jogo que demonstra a falta de “pulmão” desde o 1º momento).

A Irlanda é a melhor selecção do Mundo em 2018 e tem todos os méritos e honras que merece (Grand Slam nas Seis Nações e o Tour de sucesso na Austrália)… a Nova Zelândia tem de se contentar com o 2º lugar, algo que não acontecia já há alguns anos.

OS PRÉMIOS DA SEMANA 3

Melhor Ensaio: Aled Daves (País de Gales, vs Tonga – 1º ensaio do formação)
Melhor Placador: Leonardo Ghiraldini (Itália, 22 placagens, 100% de eficácia)
Melhor Jogador: Jacob Stockdale (Irlanda – 1 ensaio, 75 metros conquistados, três quebras-de-linha, 5 defesas batidos)
Melhor Marcador: Dan Biggar (País de Gales, 19 pontos – 1 ensaio, 2 penalidades e 4 conversões)
Melhor Estreante: Não houve
Melhor Jogo: Irlanda-Nova Zelândia


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