Conversa de cabine nº4 com Luís Pissarra – World Rugby Trophy 2018

Francisco IsaacSetembro 10, 20187min0

Conversa de cabine nº4 com Luís Pissarra – World Rugby Trophy 2018

Francisco IsaacSetembro 10, 20187min0
A última conversa com o seleccionador nacional de sub-20 depois de terem conquistado a medalha de bronze no World Rugby Trophy 2018. O final de uma viagem quase perfeita!

Portugal é bronze no World Rugby Trophy 2018, subindo ao pódio pelo um segundo ano consecutivo, entrando na História como a melhor fase do rugby português em termos de formação. Nos últimos dois anos, Luís Pissarra e a sua equipa técnica conseguiram atingir medalhas e troféus neste escalão dando claras provas que Portugal tem qualidade para chegar longe mediante a existência das condições certas.

No cômputo final dos quatro jogos, os lobos sub-20 somaram 146 pontos, sofrendo 112, consentindo apenas uma derrota em todo o processo de participação no Mundial de Rugby “B”. Canadá, Uruguai e Namíbia caíram ante uma selecção que não só sabe contra-atacar com eficácia como defende de uma forma completa, dura e de um espírito de sacrifício total que ganhou o respeito de todos os adversários.

Contra a Namíbia já explorámos que a defesa na segunda-parte não foi excelente, mas numa altura em que Portugal já dominava por 55 pontos a 10 o pensamento estava já no final do jogo. Este resultado expressivo é um exemplo de que Portugal merecia chegar ao patamar cimeiro do rugby Mundial juvenil.

De qualquer das formas, Portugal está neste momento no Top-15 do Mundo em sub-20 demonstrando que a Alcateia um rugby juvenil que vai muito para além de uma só geração genial… é a segunda geração que ajuda Portugal a levantar um título europeu e a chegar ao top-3 do World Rugby Trophy.

Luís Pissarra falou sobre o resultado alcançado contra a Namíbia assim como do futuro que se segue para os jogadores e a selecção nacional de sub-20.

CABINE Nº4 COM LUÍS PISSARRA

O jogo com Namíbia correu como pretendiam? Qual é a tua avaliação à maior vitória em termos de pontos marcados dos sub-20 desde que assumiste?

Correu como pretendíamos, efectivamente estávamos à espera de uma Namíbia que entrasse mais forte, tínhamos passado aos miúdos que eles iam estar psicologicamente desmotivados depois da derrota com a Samoa e que nós estávamos num momento ascendente depois da recuperação da derrota contra as Fiji, com a vitória ante o Uruguai. Portanto, estávamos num crescendo para enfrentar os jogadores da Namíbia. A estratégia que definimos, especialmente no ataque, correu como pretendíamos e os miúdos foram excelentes nesse aspecto.

Marcámos muito pontos mas também sofremos alguns desnecessários, como foi o primeiro ensaio consentido que não fez qualquer sentido a nível da defesa. A verdade é que quando conseguimos algumas margens, “abrandamos” e neste jogo quisemos sempre marcar mais e manter uma grande distância, portanto quer dizer que a nível ofensivo fomos eficazes e a vitória foi um exemplo disso mesmo.

A formação-ordenada voltou a dar espectáculo… este é um resultados dos últimos anos de trabalho, de um misto de gerações talentosas ou dos dois?

Não há dúvidas que tem sido uma das nossas forças. No rugby português existiu e ainda existe o problema de que uma formação-ordenada é uma luta complicada e que submete a equipa sobre uma grande pressão, o contrário do que se passou com este grupo. 

Aliás, já no ano passado conseguimos algum domínio e temos aprendido muito nestas competições, na forma como as equipas mais fortes impõem neste aspecto domínio como a Roménia ou Uruguai. Aprendemos como eles abordam a formação-ordenada e insistimos nestes últimos dois anos no trabalho de avançados e na evolução nesse aspecto de jogo e conseguimos obter alguns resultados.

Este ano pela forma como abordámos a formação-ordenada, a coesão, o equilíbrio e a forma como a compreendemos, permitiu-nos ser uma referência neste escalão etário. Os nossos adversários já vêm nesse aspecto como uma das nossas forças, e o que fizemos este ano foi algo inédito em comparação ao que se passou no passado do rugby nacional. Neste Campeonato do Mundo pudemos ver a selecção com soluções inéditas, optámos pela formação-ordenada em penalidades, com o Uruguai conseguimos um ensaio de penalidade e contra os “gigantes” da Namíbia continuámos exercer domínio e pressão.

Muito disto tem a ver com o mindset que estes jogadores têm, pelo trabalho que realizaram e pelo esforço que evidenciam neste aspecto do jogo. Na altura em que eu jogava como formação, lembro-me que a formação-ordenada era quase como um frete, com poucos jogadores a terem a paciência para trabalhar este sector que era visto como um mal necessário. Hoje em dias os nossos jovens avançados reconhecem que precisamos de ter uma formação-ordenada forte.

A aprendizagem que tivemos nestes últimos anos, o mindset que desenvolveram e a forma como trabalhámos e trabalhamos ajudou muito a esta evolução.

O 3º lugar é uma demonstração que podíamos ter lutado pela subida? Somos definitivamente uma selecção de respeito a nível mundial?

Realmente, ficámos muito contentes com um orgulho enorme e a comunidade nacional tem de se sentir feliz e orgulhosa pelo trabalho dos jogadores. Pela forma como eles lutaram em cada jogo, a entrega ao longo de todos os jogos, a placagem que foi sempre no timbre que queríamos, é de um imenso orgulho.

Agora, soube-nos a pouco porque no jogo com a equipa que acaba por subir com números muito expressivos frente à Samoa, foi o momento em que falhámos na placagem apesar de estarmos no sítio certo. Estivemos dentro dos 22 adversários e tomámos más decisões, mas isto só melhora enquanto estivermos neste nível, a jogar contra equipas desta dimensão… é impossível fazermos melhor se não tivermos contacto com este patamar, não podemos esperar que eles cheguem a estes jogos deste tipo de competição e executem tudo bem.

Sinto um orgulho imenso em representar o nosso rugby porque a forma como os nossos adversários, países, organização olham para nós com respeito, procuram descobrir como trabalhamos, o que fazemos durante o ano e nestes últimos dias em que tivemos uma série de reuniões a par do Jaime Carvalho da Comissão de Gestão da Federação Portuguesa de Rugby acabámos por ter dois países muito interessados em jogar connosco, um logo em Fevereiro com o Canadá e em Maio com Hong Kong, países que não são daqui do lado e estão disponíveis para viajar a Portugal.

Estão com interesse em poder vir disputar connosco alguns jogos. Isto é o que os nossos jovens têm feito para sermos reconhecidos e respeitados, o valor do jogo que apresentam e isto deixa-me muito contente e tem de nos encher de orgulho quando há países que querem jogar contra nós fora das competições oficiais.

A Selecção Nacional portuguesa já regressou a casa com o “bronze” à volta do pescoço com o sonho de chegarem ainda mais longe nos anos que seguem. 18 destes atletas vão dar o salto para o escalão sénior no próximo ano em termos de selecção Nacional, enquanto os outros 8 jogadores ficam já a trabalhar para o futuro que se segue.

Foto: FPR

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