Chiefs e uma lição de como explorar o espaço – Ronda 17 Super Rugby 2018

Francisco IsaacJulho 2, 20188min1

Chiefs e uma lição de como explorar o espaço – Ronda 17 Super Rugby 2018

Francisco IsaacJulho 2, 20188min1
A equipa de Damian McKenzie está praticamente com a equipa toda de regresso e o show dado em Suva foi espectacular. Mas o que há mais para dizer desta ronda?

SHOW DE MCKENZIE, LIENERT-BROWN E NGATAI EM SUVA

Highlanders, Highlanders… a situação não está nada fácil após o jogo frente aos Chiefs, verdade? A equipa treinada pelo lendário All Black, Aaron Mauger, foi totalmente varrida em apenas 40 minutos de jogo, em que se viu a perder por 42-00 antes do intervalo. Um filme de terror para a equipa de Smith&Smith (e um péssimo regresso a casa de Naholo) oferecido pelos fantásticos Chiefs que voltam a estar no seu esplendor total.

Com o regresso de 95% da equipa (só falta Retallick e Hames), Colin Cooper “só” teve de montar uma estratégia minimamente ousada para não só travar o jogo ao pé dos Highlanders (normalmente recorrem ao pontapé entre os seus 5 metros até aos 40 metros adversários, e tanto pode partir Sopoaga, Aaron Smith, Rob Thompson ou Ben Smith) como atacar o espaço com eficiência e velocidade.

Aí residiu um dos “segredos” para a tal vantagem de 42 pontos antes do regresso às cabines: atacar o espaço. É um daqueles exemplos para mostrar aos mais novos (ou mesmo seniores) do que fazer com a bola sem ter que “abusar” do tempo de posse de bola.

A formação de Waikato, quando detinha o controlo da oval, abria o seu leque de opções de ataque apresentando os clássicos “mini-grupos” espalhados pela linha. Ora, os grupos ao invés de aplicarem um jogo mais pesado e de embater só para garantir o próximo ruck e fase, tentavam logo atacar o espaço para quebrar-a-linha e fugir ao adversário. Mal o conseguiam, surgia em apoio Sam Cane ou Luke Jacoboson (All Black in the making) para abrir a bola ao seu médio-de-forma e este escolhia a melhor opção para infligir mais dano.

Os Chiefs só nos primeiros 40 minutos “partiram” a linha por 21 ocasiões e fintaram 37 adversários, explicando em boa parte o avanço constante e contínuo no terreno. Damian McKenzie esteve soberbo como explorador do espaço, aproveitando cada “buraco” para desatar a acelerar ou dar a bola a um colega que estivesse em melhor posição para tal.

O resultado final de 45-22, roubou o ponto de bónus ofensivo dos Chiefs mas aqueles primeiros 40 minutos são um sinal extremamente positivo para o final da temporada… estão a poucos pontos de alcançar os Hurricanes no 2º posto. Será que o conseguem?

SHARKS CAÇAM LEÕES EM DURBAN

Se os Springboks estão em subida, os Lions estão dentro de um limbo até à 19 ronda, com o seu primeiro lugar ameaçado pelos Jaguares e, quem sabe, os Sharks. Os 41 pontos já não são confortáveis e o último jogo da fase regular vai ser decisivo… mas o que se passou em Durban?

O costume por parte dos Sharks: raça que mói, velocidade de mãos, fisicalidade que faz mossa e um bom capricho para garantir pontos nas poucas oportunidades que dispuseram. Os números finais de placagens ajuda a perceber o que se passou em boa parte do encontro: Lions com 91 tentativas (só 64 entraram), Sharks com 171 tentativas (90% de eficácia, falharam apenas 18).

Os Lions tiveram 64% de posse de bola e conquistaram 71% do território; falharam um alinhamento em treze e uma formação-ordenada em 7; carregaram a bola 145 vezes, mais 70 em comparação com os seus adversários.

Ora, o que estes números dizem? Alguma coisa. No contexto é fácil explicar: os Lions conseguiram chegar aos 22 metros da equipa da casa, mas fracassaram em tirar os pontos suficientes sempre que iam lá, seja com turnovers, maus passes ou uma estratégia de jogo muito frágil. Os Sharks preocuparam-se, e bem, em atacar o ponto que é ao mesmo tempo o mais forte e fraco dos Lions: o par de centros. Mapoe é dos jogadores que melhor cria situações de rotura na defesa, mas também é aquele que sofre mais com uma pressão categórica.

Os Sharks fizeram exactamente isso, pressionavam esse ponto de jogo dos Lions, atacavam bem o ruck e roubavam a bola ou forçavam um erro dos Lions. Para além disso, foi o ataque altamente eficaz, com Robert du Preez a usar o seu pé para garantir 16 pontos aproveitando 90% dos pontapés que teve ao seu dispor.

Os Lions não conseguiram ser mais consistentes e frios e nem os regressos de Warren Whiteley ou Malcolm Marx ajudaram nesse sentido. O primeiro lugar está à mercê de uns argentinos esfomeados…

“MISERÁVEIS” SUNWOLVES VOLTAM A GANHAR…

Jogo frenético em Singapura, com os nipónicos dos Sunwolves a conquistarem uma excelente vitória nos minutos finais de jogo frente aos Bulls John Mitchell! 42-37, 10 ensaios, uma avançada da pesada contra uns três-quartos loucos e um espectáculo que dignificou o Super Rugby.

2018 já é a melhor temporada de sempre dos japoneses no Super Rugby e com 14 pontos somados estão a poucos pontos de conseguir “largar” o último lugar na tabela geral. Mas bem, o que houve de tão espectacular em Singapura? A velocidade de jogo e as várias cambalhotas no resultado.

Hayden Parker, um ex-Highlander, voltou a entrar num jogo a matar com um ensaio após um offload do SBW do sítio, Michael Little. Os japoneses fariam o segundo pouco depois, aproveitando uma boa jogada a partir do alinhamento para Uchida cair dentro da área de ensaio. Contudo, dois erros graves por parte dos Sunwolves permitiram a Jesse Kriel marcar dois ensaios, ambos “oferecidos”, com o primeiro a resultar de uma boa carga a um pontapé e o outro numa bola perdida num alinhamento.

O jogo foi sempre este vai-e-vem, onde o despique entre Parker e Pollard dava outro sabor ao jogo, já que os dois médios-de-abertura tentavam fazer de tudo para meter as suas equipas na frente do resultado. Para além disso, as duas equipas quiseram tanto jogar ao ataque, que a defesa foi descurada no geral, conferenindo muito espaço para atacar e boas oportunidades para chegar à área de validação.

Com um 37-35 a favor dos sul-africanos (Warrick Gelant não esteve ao seu melhor, falhando muito na comunicação a partir de trás) e 4 minutos no relógio, os Sunwolves fizeram uma última tentativa para chegar à vantagem. Alinhamento bem trabalhado e à segunda-fase, Rahboni Warren-Vosayaco recebe a oval. Entra no contacto, é agarrado e deslargado no mesmo segundo, cai no chão, larga a bola e volta a apanhá-la para ir directo até à linha de ensaio.

Nova reviravolta no resultado e daqui o marcador não se mexeria mais. Os Bulls voltaram a tropeçar, num ano estranho para a formação de Pretória.

PUMAS PERDEM, JAGUARES GANHAM… O QUE SE PASSA?

Numa semana, ao serviço da Argentina, perdem por 40 pontos, passado uns dias ganham aos Stormers (sim, estão muito longe de ser uma Escócia mas mesmo assim) por 24-12. É o Mundo dos opostos, entre duas realidades que deviam complementar-se mas que acabam por ser contrárias.

O problema talvez residia pelo facto de Daniel Hourcade já não ser o Homem-forte dos Pumas há bastante tempo e dos jogadores terem perdido a sua confiança no seleccionador que entretanto se demitiu. O rugby da Argentina era emotivo, de raça e muita luta, mas onde é que estava a inteligência de jogo e o bom uso das linhas atrasadas?

Ao contrário, Ledesma parece estar a criar uma ligação muito interessante com os seus jogadores, potenciando secções dos Jaguares que até 2017 ninguém o conseguia. Uma formação mais confiante, menos emotiva-desesperada, que pensa no jogo, tenta controlar os timings e elevar-se nas situações mais perigosas.

Frente aos Stormers, que estão completamente fora da corrida para a fase-final (pela primeira vez em vários anos) aguentaram bem a pressão exercida pelos ágeis e velozes avançados da equipa, anulando as boas corridas de du Toit e Raymond Rhule, com só Leyds a conseguir escapar-se aos argentinos em três ocasiões. Foi sempre dos jogadores mais incoformados numa equipa que esteve geralmente perdida dentro de campo.

Ledesma tem os Jaguares consigo, podendo ser o próximo seleccionador da Argentina.

DESTAQUES

MVP da Ronda: Damian McKenzie (Chiefs)
Jogo da Ronda: Highlanders-Chiefs
Placador da Ronda: Philip Van der Walt (Sharks)
Agitador da Ronda: Rieko Ioane (Blues)
Vilão da Ronda: Hurricanes


One comment

  • Miguel Portela

    Julho 4, 2018 at 4:10 pm

    Este ano o Super Ruby está super competitivo estou a gostar de muitas equipas, finalmente vi equipas australianas a ganhar a equipas da nova Zelândia. Também tenho visto muitas inovações táticas e técnicas algumas que discordo como a dos jaguares nas melees.
    Mas no fim que ganhem os Hurricanes já merecemos :D!

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