Campeonato Nacional 1: ponto final antecipado de uma época promissora

Francisco IsaacJunho 30, 202015min0

Campeonato Nacional 1: ponto final antecipado de uma época promissora

Francisco IsaacJunho 30, 202015min0
Com o fim de todas as competições de rugby em Portugal, olhamos agora para alguns pormenores e factos do Campeonato Nacional 1 2019/2020. Os melhores, os destaques e as promessas que ficam para o futuro

O Campeonato Nacional 1, como o CN2 e a Divisão de Honra, praticamente não “existiram” em 2019/2020 para a Federação Portuguesa de Rugby mas a verdade é que se realizaram 70 jogos desta divisão emocionante que teve de tudo um pouco, com constantes reviravoltas, resultados “largos” e jogadores e treinadores que decidiram mostrar o seu melhor… ou seja, foi uma temporada jogada a 75% (faltavam cerca 23 jogos para terminar a época, ou seja quatro jornadas, duas meias-finais e final) e que fica sem efeito mas é impossível não revelarmos alguns dos destaques!

OS QUE LIDERARAM, MANTIVERAM E DERAM A VOLTA POR CIMA

Tivemos equipas que se exibiram em grande em certos períodos da época, outras que conseguiram mesmo dominar a maior parte do campeonato e umas quantas que depois de uma fase menos positiva foram capazes de se reerguer e voltar à carga, oferecendo assim uma tridimensionalidade a esta edição do Campeonato Nacional 1.

O CR São Miguel “fechou” a época no 1º lugar, com 59 pontos conquistados, a três do 2º lugar, destacando-se ainda com o melhor ataque seja em pontos (552) ou ensaios, melhor defesa em pontos (133) e ensaios, com o maior número de vitórias (12) e menor número de derrotas (2), tendo duas séries de vitórias consecutivas, uma de excelência com 7 vitórias consecutivas e outra de 5 conquistas registadas entre Dezembro de 2019 e Fevereiro de 2020.

Os bulldogs de Nuno Damasceno e Paulo Silva apresentaram um rugby de qualidade que foi vislumbrado em diversos jogos, seja nas vitórias “caseiras” frente ao Caldas RC (30-07) e RC Santarém (64-00) ou na visita ao campo dos Jaguares (26-08), pautando-se por uma eficiência das linhas atrasadas e um bullying sistemático por parte dos seus avançados que impuseram um ritmo interessante e constante. Os eborenses de Miguel Avó pareciam lançados em conseguir o 1º lugar na 1ª volta mas dois tropeções em jogos fora de casa em Dezembro foram fatais e acabaram por prejudicar os bons registos alcançados em termos de pontos de marcados e sofridos, 505 e 209 respectivamente, sendo claramente um dos dois candidatos ao título, um troféu que lhes foge desde sempre.

O clube que mais “evoluiu” durante a época seja em termos qualitativa do seu jogo ou de salto classificativo foi o MRC Bairrada de Luís Supico, que superou as expectativas tendo derrubado o CR São Miguel e CR Évora no reduto da Aldeia do Rugby. O emblema de Anadia chegou a estar nos últimos lugares do CN1 até à 4ª jornada, altura em que começaram a demonstrar os primeiros efeitos da chegada do treinador bicampeão pela Agronomia sub-16… de 9º lugar em Novembro para um 4º em Fevereiro, o MRC Bairrada tinha após a 3ª jornada somente 1 ponto nas suas contas e acabou na 14ª ronda com 37, sendo portanto o clube que deu o maior volte-face na classificação em tão pouco tempo.

Os Jaguares começaram bem a época com algumas boas vitórias, isolando-se a dado momento no 4º lugar, no entanto acabariam por perder essa posição no decurso da temporada. Fica para o registo as vitórias extraordinárias frente ao Caldas RC (jogo emotivo em Monsanto que terminou num 31-29) e MRC Bairrada (45-25), deixando a promessa de virem a ser um problema para os seus adversários na próxima temporada!

O Caldas RC com um plantel limitado por lesões (e não só) chegou a estar no 1º lugar da classificação – partilhado com o CR São Miguel e CR Évora – graças a aquele tipo de rugby agressivo, apaixonante e de nunca desistir, chegando mesmo a derrotar o CR Évora, impondo aquele típico jogo de choque físico desenhado e delineado por Patricio Lamboglia. Ficaram a 5 pontos do 1º lugar da classificação e não há dúvidas que poderiam estar na final do campeonato.

Para o fim da tabela, o RC Elvas parecia estar condenado à descida de divisão, mas a formação alentejana arregaçou as “mangas” e foi recuperando o fôlego, para depois registar três preciosas vitórias frente aos Jaguares, RC Santarém e Braga Rugby, garantindo praticamente a permanência quando faltavam jogar quatro jogos – os bracarenses tinham um calendário mais complicado em comparação com os elvenses. A juventude elvense vai continuar na senda do crescimento e não há dúvidas que há talento suficiente para conseguirem épocas descansadas no Campeonato Nacional 1.

No final de contas, cabe ao leitor decidir por si se os melhores realmente foram os melhores e se a classificação final demonstra aquilo que foi esta temporada… contudo, é impossível fugir aos dados estatísticos, aos pontos somados e aos números que ajudam a “contar a história” deste Campeonato Nacional 1 2019/2020.

Foto: FPR

OS JOGADORES DECISIVOS DE CADA EMBLEMA

Quem foram os jogadores que merecem o destaque do Fair Play? Escolhemos no mínimo 1 por cada equipa, com um máximo de 5 em casos especiais.

CR São Miguel: André Lemos (defesa), Thomas Goyochea (pilar), Miguel Máximo (asa), Robert Delai (pilar) e Tomás Cardoso (centro). Os bulldogs – como o Évora – podiam até ter mais destaques nesta lista, mas vamos nos cingir a estes cinco nomes que valem a pena serem mencionados. André Lemos terminou como o melhor marcador de pontos, tendo sido um imperador na posição de defesa durante toda a época, conferindo inteligência e boa capacidade de manobra à estrutura de jogo do emblema lisboeta. Já o argentino Thomas Goyochea foi dos placadores mais nocivos de toda a época, invocando um poder de encaixe decisivo em certos momentos para além de características físicas de grande qualidade que causaram mossa na defesa contrária.

O jovem asa Miguel Máximo foi dos atletas que melhor se apresentou durante toda a época, seja pela qualidade na placagem (eficaz e rápido em se apresentar de novo ao serviço) ou por se envolver com elegância nos momentos de saída em contra-ataque. Robert Delai é um daqueles líderes que aparecem raras vezes na vida de um clube, uma voz autoritária e lúcida no comando, para além de ter aquele jeito especial dos jogadores das Ilhas do Pacífico para “inventar” algo quando menos se espera. Por fim, Tomás Cardoso foi um dos melhores centros portugueses do CN1, apesar das lesões que sofreu… contudo, sempre que jogou aplicou uma energia “agressiva” e directa ao plano de jogo, sendo um constante dínamo em termos de criar problemas na muralha defensiva contrária.

Um dos ensaios de André Lemos durante a época

CR Évora: Francisco Borges (defesa), António Fonseca (asa), Duarte Leal da Costa (centro), José Leal da Costa (pilar) e Francisco C. da Silva (asa). Francisco Borges foi letal durante toda a temporada, autor de 145 pontos (45 dos quais foram através de ensaios) e de uma série de troca de pés minimamente genial, que desmontou placadores e blocos defensivos inteiros. António Fonseca é aquele típico 3ª linha que se “alimenta” de placagens e de saídas curtas junto ao ruck ou formações-ordenadas, sendo dono de uma presença física totalitária.

Duarte Leal da Costa foi um dos centros mais irreverentes do CN1, surgiu sempre nos momentos necessários e criou constantemente dificuldades aos seus adversários directos, aplicando uma passada ágil e elástica. Já José Leal da Costa foi importante no que toca a dar sentido às fases estáticas, fazendo ouvir a sua voz quando era mais necessário. Francisco Condeço da Silva terá uma carreira auspiciosa caso mantenha o mesmo crescimento técnico e físico, tendo sido um dos melhores jovens desta temporada, seja no jogar a asa (raça e garra, raramente desiste de continuar a batalhar) ou a centro (gosta do contacto e procura explorar bem o espaço entre o abertura e o 1º centro).

Caldas RC: Filipe Gil (asa), Oscar D’Amato (centro), Salvador Cambournac (formação) e Alexandre Vieira (defesa/ponta/abertura). Filipe Gil terminou como o melhor marcador do CN1 com 16 toques de meta e muito se deve pela sua astúcia, capacidade de penetrar no contacto e constante indíce de trabalho. D’Amato é aquele típico centro que pode não ser o mais elegante no que toca aos skills, mas não há dúvidas que é um aríete destrutivo para quem não consegue oferecer uma placagem plena de coragem, tendo elevado a capacidade ofensiva do Caldas durante esta época.

Salvador Cambournac é dos formações que melhor desempenha a sua função, inteligente no saber construir fases de jogo e “artista” em inventar saídas de jogo para os pelicanos, elevando-se como um dos 9 mais lendários do CN1 dos últimos anos. Alexandre Vieira conseguiu jogar a diferentes posições sem perder qualidade exibicional, mostrando uma técnica individual de franca qualidade, um sprint caprichoso e uma boa facilidade em gerar roturas defensivas aos seus adversários.

Um dos ensaios de Filipe Gil na temporada

MRC Bairrada: Gonçalo Costa (abertura), Diogo Rodrigues (pilar) e Miguel Heleno (centro/nº8). O abertura Gonçalo Costa é um dos maiores activos da Aldeia do Rugby, seja pela sua inteligência no jogo ao pé ou na volatilidade conferida aos processos ofensivos, movendo-se com facilidade para despertar uma boa oportunidade de ensaio para a sua equipa.

Diogo Rodrigues (entrevistámos o pilar durante esta temporada) é um jogador valoroso e disposto a sacrificar o seu corpo se isso significar benefício em prol do MRC Bairrada, afirmando-se como um primeira-linha leal e trabalhador. Miguel Heleno é um 3/4’s combativo, moldado para os grandes jogos e possuidor de uma capacidade física curiosa que consegue galgar metros mesmo “amarrado” com um placador, terminando a temporada com 5 ensaios.

RC Santarém: Francisco Silva (defesa), Manuel Campilho (nº8) e Martim Faro (abertura). O melhor marcador de ensaios do RC Santarém com 6 foi o defesa/ponta/abertura Francisco Silva, operando bem sempre nas linhas atrasadas, possuidor de uma sprint letal e uma visão de jogo bem refinada como foi visto durante estas 14 jornadas.

Manuel Campilho, internacional sub-18, foi um determinado trabalhador na 3ª linha, erguendo-se como um número 8 intenso e dominador, sempre predisposto a mudar o chip a nível das necessidades da equipa. Martim Faro, outro atleta internacional sub-18 dos cavaleiros, conseguiu um lugar a titular como abertura e mostrou um jeito especial para criar espectáculo no jogo ao pé ou no inventar de uma linha de corrida que abria espaço para abrir caminho até à área de validação.

Uma das melhores exibições de Martim Faro e Francisco Silva na época

Jaguares: Guilherme Sampaio (abertura), Jorge Baptista (formação) e Tomás Picado (asa). Os Jaguares apresentaram uma equipa jovem e energética que causou problemas à maioria dos adversários, onde Guilherme Sampaio se destacou pela suas aptidões técnicas especiais, em particular a forma como rapidamente se desembaraçava dos adversários para iniciar um ataque mortífero, como provam os quase 10 ensaios marcados na sua época de estreia no CN1. Jorge Baptista mostrou aquelas artimanhas que todos os treinadores gostam de ver num formação, somando-se ainda aquela agilidade mordaz que causou problemas a blocos defensivos experientes, como o Caldas RC.

Por fim, Tomás Picado… pode não ter 1,80 metros de altura, mas a paixão e a irreverência são enormes, deu sempre uma boa resposta na 3ª linha, foi apagando “fogos” sempre que foi necessário e mostrou uma atitude implacável na defesa.

Guimarães RUFC: Samuel Lemos (ponta), Pedro Piairo (2ªlinha/asa) e Bruno Silva (formação). Não foi uma época de excelência para o clube vimaranense, mas a verdade é que Samuel Lemos voltou a ser um dos protagonistas seja pelos 7 ensaios marcados ou pelas incontáveis quebras-de-linha criadas durante os jogos que alinhou, munido sempre daquele sidestep fatal para quem sobe rapidamente para a placagem.

Pedro Piairo foi uma das boas surpresas do plantel de Jeremias Soares, aplicando uma fisicalidade dura e que vitimou vários adversários no contacto, constando nos vários melhores XV’s do Fair Play durante a época. Bruno Silva foi “só” autor de 138 pontos, sendo um autêntico mestre no jogo ao pé, sem esquecer o papel de organizador de jogo onde foi essencial para dar equilíbrio.

RV Moita: Flávio Gonçalves e Pedro Silva. Flávio Gonçalves foi autor de um dos melhores ensaios da época – frente ao Guimarães RUFC na 1ª volta – em que demonstra toda uma irreverência difícil de prever e seguir, abanando constantemente o ataque dos moitenses. Pedro Silva continua a ser o mentor do projecto do RV Moita dentro de campo, sempre senhor de uma clarividência e poder de execução de bom nível, que dá outra paz e calma ao processo de jogo.

RC Elvas: João Bandeiras e Miguel Charréu. O formação João Bandeiras foi um dos melhores jogadores do emblema alentejano, com uma atitude que elevava os níveis competitivos para um patamar superior, terminando o CN1 2019/2020 com 75 pontos marcados. Miguel Charréu foi preponderante nos jogos que retiraram o RC Elvas do fundo da tabela, onde a placagem e poder de reacção no breakdown foram cruciais no mudar o rumo nesses encontros.

Braga Rugby: Tomás Fontes e Luís Ferreira. Irreverente, mágico e artista, são alguns dos adjectivos que se podem adjudicar ao abertura Tomás Fontes, responsável por excelentes momentos e pormenores durante a época (foram 78 pontos marcados, entre os quais 7 ensaios). No bloco avançado, Luís Ferreira foi responsável por boas exibições especialmente nas saídas da formação-ordenada ou no trabalho exaustivo nas fases curtas, com uma presença fisica que fez mossa em diferentes jogos.

Um dos melhores ensaios de Samuel Lemos

OS TRÊS TREINADORES DA ÉPOCA

Dos dez técnicos que lideraram as suas equipas nesta temporada, seleccionámos três que se destacaram amplamente.

Nuno Damasceno: o treinador principal do CR São Miguel conseguiu manter os indices de qualidade dos bulldogs durante a maior parte da temporada, com a formação lisboeta a terminar no 1º lugar do CN1 para além de um constante domínio a nível de números, como já explicámos na primeira secção do artigo. O rugby revigorado, dinâmico e com diferentes e agitadas movimentações proporcionou uma série de exibições de grande categoria, seja pela eficiência e agilidade do bloco de avançados ou pela assertividade das linhas atrasadas. Com uma voz astuta e inteligente, o antigo treinador da Selecção Nacional mostrou sapiência na montagem do plantel, conferindo bons processos a uma equipa que tem vindo a crescer de época para a época. Apesar das derrotas no campo do CR Évora e do MRC Bairrada, o jovem técnico apresentou bons argumentos para vir a ser a reconhecido no futuro como um dos treinadores de qualidade do rugby nacional.

Luís Supico: na sua primeira época como treinador-principal de um plantel sénior, Luís Supico provou o seu valor ao conseguir levar o MRC Bairrada a terminar dentro do top-4 do Campeonato Nacional 1 2019/2020, desenvolvendo o rugby do MRC Bairrada a um patamar de franca qualidade. A equipa de Anadia subiu de divisão na época anterior e adivinhavam-se sempre dificuldades para chegar à parte cimeira da tabela, mas a verdade é que após 14 jornadas mostraram a capacidade de que poderiam incomodar os principais candidatos ao título, algo que aconteceu nas recepções ao CR Évora e CR São Miguel. Não era um rugby totalmente cativante ou espectacular, verdade, contudo a forma inteligente e articulada como a equipa se movia mostrava que até ao fim da época seriam um alvo difícil de abater.

Miguel Avó: mais uma época como treinador do CR Évora e mais uma vez conseguiu guiar os seus eborenses ao top-4, depois de tê-lo conseguido nas quatro últimas. Apesar de não terem sido líderes na maior parte do CN1 2019/2020, os eborenses mostraram sempre aquele rugby característico de alta agressividade na defesa e de eficiência cínica no ataque, construindo um elenco equilibrado que viveu entre a experiência dos mais veteranos e a irrequietude dos mais jovens. Miguel Avó é um dos técnicos mais underrated de todo o rugby português e merece uma atenção especial pelo trabalho desenvolvido ao fim de vários anos ao serviço do CR Évora e em 2019/2020 voltou a possibilitar ao emblema alentejano chegar ao pódio de um campeonato.

Foto: Luís Cabelo Fotografia e Pedro Pinheiro Fotografia

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