Campeonato Nacional 1: as meias-finais que abrem o caminho da glória

Francisco IsaacJunho 4, 202112min0

Campeonato Nacional 1: as meias-finais que abrem o caminho da glória

Francisco IsaacJunho 4, 202112min0
O Campeonato Nacional 1 de rugby está perto do seu final e trazemos tudo o que precisam de saber sobre as meias-finais! Quem vais apoiar?

Junho para o rugby português significa competições de 7’s ou competições amigáveis que depois desembocam nos torneios de Beach Rugby (este ano a Figueira da Foz e Porto confirmaram a organização de ambas etapas do Circuito Nacional da variante), sendo um mês que serve para os jogadores portugueses começarem a desligar a “cabeça” da intensidade de uma longa época, para depois entrarem em férias e prepararem-se mentalmente para a época seguinte. Porém, em 2021, temos um cenário completamente diferente, especialmente para as equipas finalistas (ou que vão lutar para não descer de divisão) do Campeonato Nacional 1, pois as meias-finais e final deste segundo escalão sénior estão marcadas para o dia 5 e 12 de Junho, respectivamente, ficando estas de fora da “Taça de Portugal” desta temporada (à última hora clubes e Federação Portuguesa de Rugby apressaram-se a dar vida a esta competição, que não constava no calendário da época, com várias equipas a terem optado por não participar) por consequência.

O CAMPEONATO NACIONAL 1 20/21: ENTRE A VIDA E A PARAGEM

Mas, para os jogadores, treinadores, dirigentes e adeptos do RC Santarém, RC Lousã, CR Évora e Jaguares, o facto de terem conseguido dar sequência a um campeonato que, por vezes, esteve perto de ser cancelado ao jeito do que tinha acontecido na temporada passada, foi uma vitória em prol da perseverança e na vontade de querer mostrar que não importa a divisão desportiva na luta por um rugby português melhor.

Ultrapassando os problemas de calendário e o pouco interesse na cobertura e transmissão da actividade e jogos do CN1 e CN2 (nenhum jogo foi filmado em directo pela Federação Portuguesa de Rugby, com os clubes do Campeonato Nacional 1 a tomarem rédeas do seu destino nesse ponto), os 10 emblemas participantes lutaram por garantir que a época não fosse perdida, entraram em campo e disputaram o Campeonato Nacional 1, com 6 a garantir o apuramento para a fase-final, enquanto os restantes 4 a ficarem entregues na luta pela manutenção.

Na fase-final de apuramento para as meias-finais, Caldas RC, RC Santarém, Jaguares, CR Évora, MRC Bairrada e RC Lousã, disputaram 5 jogos cada, no espaço de quase dois meses, com os tais quatro a garantir o acesso à fase-a-eliminar, depois de se darem algumas “surpresas” durante esta sequência de uma competição que começou em Outubro passado (dois grupos de cinco) e que finda agora em Junho.

Nesta última fase-de-grupos, o CR Évora terminou no 1º lugar, treinados agora por José Leal da Costa e Rui Cruz, seguidos do RC Lousã de Rui Carvoeira (o antigo seleccionador nacional de sub-18 encetou uma pequena revolução nos lousanenses, construindo uma equipa a partir da formação, potenciando algo novo nesse clube), com o 3º lugar a ser ocupado pelos cavaleiros do RC Santarém (Bernardo Costa Duarte assumiu o papel de treinador principal e tem realizado um trabalho de grande qualidade, ajudado por Matheus Daniel e José Martins) com os Jaguares de Pedro Vital a terminarem no quarto posto, a alguma distância dos ocupantes dos três lugares cimeiros.

Apesar da grande paragem vivida entre o último jogo realizado na fase-de-grupos da 1ª fase e esta 2ª fase – quase cinco meses -, as equipas foram capazes de não só se apresentar completas em campo, como realizaram boas prestações colectivas e individuais, voltando a relembrar que no Campeonato Nacional 1 há laivos positivos que merecem ser respeitados e referidos.

Daniel Brough, um dos destaques desta época (Foto: RC Lousã)

A LOUSÃ SERÁ À PROVA DOS CAVALEIROS DE SCALABIS

E o que há para saber sobre as meias-finais? Bem, o RC Santarém segue para a Lousã, capitaneado por Tomás Santos Silva, um dos claros destaques das últimas épocas dos cavaleiros, com nota ainda para as referências internas como Matheus Daniel, Rafael Morales (o abertura, internacional pelo Brasil, é o melhor marcador de pontos dos escalabitanos), Francisco Silva (continua a impôr bons pormenores com e sem bola, seja na posição de defesa ou ponta), Martim Faro (internacional sub-18) ou João Mendes de Almeida (o pilar, que retornou a casa na temporada passada, tem sido uma peça-chave).

Já na Lousã, alguns nomes têm feito sentir a sua presença neste Campeonato Nacional 1 2020/2021, como Tomás Redondo, neto de um dos presidentes mais emblemáticos do rugby nacional, Paulo Marques (continua a ser um pilar de inegável valia), Daniel Brough (excelente reforço de apenas 19 anos, que tem dado uma expressão técnica e física na linha de 3/4’s dos lousanenses), Samuel Lourenço (jogador multifacetado, que tanto já alinhou a asa como centro neste campeonato) ou Pablo Casas (vale a pena ter atenção ao defesa chileno), apresentando assim Rui Carvoeira um elenco bem apetrechado por si e interessante.

Para lançar esta meia-final, o Fair Play conversou com Bernardo Costa Duarte, treinador do RC Santarém, para saber como tem estado a decorrer a época e como vê esta meia-final,

Bernardo Costa Duarte, na tua época de estreia como treinador-principal conseguiste voltar a pôr o RC Santarém nas meias-finais (teriam atingido na época passado, caso não tivesse sido cancelada devido à pandemia) com alguns resultados surpreendentes. Este é um Santarém mais maduro e, porque não, diferente? Quais são as vossas melhores “forças”

BC. Acredito que a minha contribuição para o sucesso do RC Santarém é muito relativa. Estar nas meias finais do campeonato é fruto de um trabalho sustentado e muito sério que tem vindo a ser desenvolvido no clube há vários anos, principalmente ao nível dos escalões de formação. Chegar às fases finais dos campeonatos seniores passou a ser natural.

Outro ponto importante é que conto com um a equipa técnica de alto nível formada pelo Zé Martins, que é também coordenador dos escalões de formação e treinador dos sub18, e pelo Matheus Daniel, o nosso jogador/treinador. São eles os responsáveis pela preparação física da equipa e pelos avançados – curiosamente fiquei eu, que sempre joguei a talonador, o responsável pelas linhas atrasadas. Aproveitando o facto de sermos todos “da casa” (o Matheus chegou a Santarém há 3 anos, mas parece que esteve aqui a vida toda) tentámos resgatar o espirito do RCS e fazer disso a nossa principal força. O grupo respondeu muito bem e apesar do ano difícil com poucos jogos, confinamentos, isolamentos profiláticos, etc, etc, conseguimos todos juntos contruir uma equipa com mentalidade ganhadora, muito espirito de sacrifício e uma união muito grande.

Uma equipa com pouca experiência em termos de veteranos, mas carregada de virtuosismo dos mais novos. Este é o caminho que os Cavaleiros querem continuar a caminhar? Houve algum momento decisivo nesta temporada, a teu ver?

BC. Não diria que temos pouca experiência. Por um lado temos um grupo de jogadores que já tem muitas épocas no seniores, por outro temos muitos jogadores que tiveram passagens por outros clubes e que trazem boas experiências e por fim temos alguns jogadores mais novos, muitos deles ainda su18, mas que já estão no clube há muitos anos e por isso carregam a nossa cultura e não tiveram qualquer problema em integrar a equipa.

Este é sem dúvida o caminho a seguir. Como dizia antes, a nossa força está na união da equipa e no espirito que se vive. Isso só se alcança com um sentimento muito grande de pertença e a certeza de que todos são importantes, do mais velho ao mais novo.

Penso que o momento chave da época até agora foi o confinamento no início de 2021. Como equipa técnica fizemos uma proposta de treinos individuais e os jogadores aderiram a 100%. Foi um orgulho ver pilares a correr distâncias de meia maratona, jogadores a melhorarem o seu pace de dia para dia, os desafios que lançaram entre eles e a vontade com que voltaram aos treinos depois de tudo isto e ainda sem certezas de quando recomeçaria o campeonato. Desde o início do ano que temos uma média superior a 35 jogadores por treino, mesmo após um confinamento e uma pausa no campeonato que durou mais de 3 meses.

Uma meia-final que vai ser extremamente difícil frente ao RC Lousã… o que esperas deste encontro? Como avalias o teu adversário? E como é que achas que podem chegar à final?

A Lousã é sem dúvida uma grande equipa e o jogo vai ser muito duro. Esperamos uma Lousã com um jogo dinâmico e vertical. Sabemos que têm bons jogadores, especialmente em lugares chave e que gostam de espaço para atacar. Da nossa parte estamos bem preparados, tivemos duas semanas de treino muito intensas e sabemos que para ganhar temos que estar no nosso melhor nível. Vamos valer-nos e fazer valer o lema do nosso clube – Esforço, Lealdade e Bravura – para chegar à vitória.

A equipa técnica do RC Santarém (Foto: RC Santarém)

O DOMÍNIO EBORENSE FRENTE À LOUCURA DOS JAGUARES

Já na outra semifinal, o líder CR Évora vai receber em casa os Jaguares, naquilo que se espera ser um jogo de maior domínio dos eborenses, com os visitantes a poderem, ainda assim, causar uma surpresa caso façam valer as suas melhor forças (capacidade de risco e genialidade individual) e apanhem os comandados de José Leal da Costa num dia menos positivo. Em termos de notas de destaque, o Évora manteve, praticamente, os seus principais jogadores como António Fonseca (valiosíssimo asa), José Luís Cabral (o internacional português é um perigo com pouco espaço), Manuel Direitinho, Duarte Leal da Costa ou Francisco Barroso (abertura ardiloso e extremamente competente no jogo ao pé), podendo ser, perfeitamente, o XV mais compacto do campeonato, apesar da derrota sofrida em casa do Santarém.

Os Jaguares continuam a basear a sua equipa em jogadores como os irmãos Rodrigo e Guilherme Sampaio, entre outros nomes, num plantel pulsado por uma jovialidade total, como tem sido hábito desde que surgiram no panorama sénior do rugby português.

Para percebermos como está a ser a preparação para este encontro decisivo no caminho para a final, tivemos a oportunidade de entrevistar José Leal da Costa, que nos explicou alguns dos momentos desta época,

1- José Leal da Costa, época arrancou, parou e, finalmente, voltou a recomeçar… foi difícil para vocês gerir este ano desportivo estranho? Como viste a evolução deste CR Évora?

JLC. Sim, foi um ano bastante difícil. Foi complicado gerir a motivação dos jogadores com os poucos jogos e várias interrupções e também as disponibilidades afetadas pelo impacto de possíveis casos covid e quarentenas. No entanto, agora nesta fase final conseguimos finalmente ter alguma continuidade e também o facto de termos tido alguns reforços/regressos permitiu aumentar as opções e fazer um fim de época engraçado para todos.

Terminaram em 1º na fase-final, registaram só uma derrota nos 5 jogos realizados, mostrando boa qualidade nas fases-estáticas e no aproveitamento do contra-ataque. Este é um Évora diferente de outras temporadas? Que elementos se destacam, na tua opinião, esta época?

JLC. Sim… é sempre uma equipa diferente, até porque não há equipas iguais, todos os anos há mudanças! E apesar de eu continuar nos avançados, tivemos um treinador novo este ano, que acaba sempre por significar alguma mudança. O destaque principal para mim foi o impacto do banco e de todos perceberem que são 23 que jogam e não 15. Para além disso foi bom ver os miúdos mais novos a assumirem-se e lutarem por lugares. Contra o Santarém por exemplo, um jogo que só foi resolvido na segunda parte, acabámos o jogo com 4 de 7 avançados (um expulso) com 20 anos ou menos!

O que esperas do teu adversário das meias-finais, os Jaguares? E sentes que este pode ser o ano do título do CRE?

Espero um jogo duro e rápido, pois fazem placagens agressivas e têm jogadores rápidos, vão tentar jogar com ritmo certamente. Em jogos a eliminar já se sabe que tudo pode acontecer, portanto se conseguirmos passar esta meia-final, na final qualquer equipa pode ganhar e claro que gostávamos de ser nós a consegui-lo.

Pelo menos uma das meias-finais do Campeonato Nacional 1 terá direito a cobertura, com a transmissão em directa do encontro entre RC Lousã e RC Santarém (cliquem neste link para aceder ao local de transmissão), marcado para dia 5 de Junho pelas 15h00, sendo que para o CR Évora-Jaguares não há ainda certezas de um directo do encontro, com a hora de jogo marcada para as 15h30.

António Fonseca (Foto: CR Évora)

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