5 Momentos de reflexão do Rugby Mundial em 2019

Francisco IsaacDezembro 30, 20199min0

5 Momentos de reflexão do Rugby Mundial em 2019

Francisco IsaacDezembro 30, 20199min0
2019 foi um ano de excelentes novidades para o Rugby Mundial mas também se deram situações complicadas e que acarretaram e acarretam uma profunda reflexão. Estes sã os os 5 momentos a rever de 2019

Ano cheio com o Mundial de Rugby a ocupar o “trono” dos momentos mais importantes da modalidade em 2019, mas não foi o único já que tivemos despedidas sentidas (Warren Gatland quase 10 anos depois disse “adeus” ao País de Gales), títulos levantados, suspensões agravadas e muito mais.

Escolhemos 5 momentos que merecem a reflexão do público da oval com os olhos já postos em 2020

NATIONS CHAMPIONSHIP: UM ABORTO PROVOCADO POR QUEM?

Agustín Pichot tentou e tentou, mas as Home Nations e a Itália conseguiram vetar de tal forma o plano para a Nations Championship que o projecto de nova competição acabou completamente posto de lado e renegado para uma “caixa” esquecido num canto da sede da World Rugby. O que era/é este novo torneio? 12 selecções encontravam-se anualmente durante os meses de Outubro e Novembro jogando num sistema de campeonato a uma volta, com apuramento de campeão e de relegado, sendo esta última secção o ponto da discórdia entre dois lados.

Foi o grande choque entre as forças do vice-presidente Pichot e as forças de Sir Bill Beaumont, invocando aquela que poderá ter sido a primeira grande batalha entre dois lados da mesma moeda. Jogadores criticaram o calendário proposto pela comissão de planeamento da Nations Championship – por sentirem que estavam a ser expostos a um esforço físico e psicológico excessivo -, alguns seleccionadores apoiaram a ideia de forma a subir o nível competitivo em todas as zonas do Mundo do Rugby (especialmente nas Ilhas Fiji e Ásia) e umas quantas federações apoiaram a ideia (como a Austrália, França, Nova Zelândia por exemplo) mas desde que se efectuassem algumas ligeiras alterações ao modelo.

No fim de vários meses de debate, contínuas reuniões e despiques nas sombras, a Nations Championship acabou mesmo por ser descartada, estando instalado neste momento um conflito interno na World Rugby que nem o espectacular Mundial de Rugby de 2019 conseguiu apagar.

SUNWOLVES DESPEJADOS DO SUPER RUGBY

Será que a SANZAAR teria removido os Sunwolves caso soubessem do sucesso da selecção do Japão durante e após o Mundial de Rugby? Sem dúvida. Talvez teriam feito mais força para tentar renegociar um contrato melhor, mas a franquia do Super Rugby nipónica estaria sempre com um pé e meio fora da competição não só por força da África do Sul (queixas constantes com as viagens, logística e custos que força uma ida ao Japão) mas especialmente pelo desinteresse das grandes empresas japonesas que patrocinam as várias equipas locais, tendo forçado a Federação de Rugby do Japão a sair da mítica competição do Hemisfério Sul.

Mas como assim as multinacionais japonesas não terem interesse na manutenção de uma franquia sua numa das maiores competições de rugby a nível mundial? Entidades como a Panasonic, Toshiba, Ricoh, Kobelco, NTT Communications, Suntory, Honda, Toyota dispensam uma vasta quantia de milhões anualmente para manterem um nível competitivo de alto interesse nos seus clubes, atraindo cada vez mais jogadores com grande reputação promovendo ao mesmo tempo a ascensão do jogador profissional japonês e o crescimento do interesse internacional na Top League (a liga que reúne as melhores equipas nipónicas).

Contudo, a existência de uma franquia da Federação de Rugby do Japão no Super Rugby estaria a desviar parte dos fundos desportivos que poderiam ir para o desenvolvimento da liga nacional japonesa e a tirar algum do impacto comercial, marketing e imagem dos clubes da Top League, existindo uma extensa discussão entre o que era e é melhor para o rugby nipónico.

Sem a força das multinacionais a apoiar os Sunwolves (o retorno era pouco expressivo em comparação com os fundos alocados), a decisão de deixar cair esta franquia foi assim facilitada… porém, o sucesso do Japão no Mundial de Rugby está a forçar nova discussão em se valerá a pena mantê-los no Super Rugby.

CRUSADERS MANTÊM O IMPÉRIO NO HEMISFÉRIO SUL

Pelo terceiro ano consecutivo, Scott Robertson guiou os Crusaders ao título impondo um Império de um dos maiores clubes/franquias do Mundo do Rugby. Com uma equipa carregada de All Blacks, o caminho foi extremamente fácil em 2019 já que a única equipa que realmente apresentou-se como adversário quase à altura foram os Hurricanes e pouco mais, demonstrando que ter grande parte dos melhores jogadores da competição e uma equipa técnica promissora e munida de ideias novas ou que consegue melhorar as antigas é o suficiente para atingir o objectivo de ser campeão do Super Rugby.

Roberston chegou em Novembro de 2016 e aproveitou o algum bom trabalho feito por Todd Blackadder (na discussão para o novo nome de Seleccionador da Nova Zelândia poderia ter sido um dos nomes cogitados para o posto) para elevar os saders para um patamar de alto domínio, com uma expressão fora e dentro de campo de alto impacto, já que são das raras franquias desta competição do Hemisfério Sul a ter sempre as bancadas cheias, para além de ter conquistado a maior parte dos jogos nos últimos três anos.

Mas será que este domínio é positivo para a competição ou belisca a competitividade e interesse em acompanhar o Super Rugby? Apesar do brilhantismo dos jogos das últimas três edições da competição (convidamos a reverem o Blues-Chiefs de 2019, Crusaders-Chiefs em Suva também deste ano, entre outros encontros), a queda aparente das franquias da Austrália e África do Sul (apesar dos Lions terem ido à final em três consecutivos, as restantes equipas sul-africanas têm evidenciado um nível pior em comparação com as australianas) e os parcos números de adeptos nos estádios “normais” (sempre que há jogos realizados nas Fiji, Japão ou em outro país asiático, os recintos de jogo enchem por completo sendo um sucesso de bilheteira) estão a lançar preocupações crescentes no futuro da competição.

Qual vai ser o futuro do Super Rugby pós-2019, altura em que se segue nova alteração no modelo competitivo?

KOLISI LEVANTA O CANECO MAIS DESEJADO

Foi uma placagem dominadora e de alta dimensão ao racismo na África do Sul quando Siya Kolisi pegou na Taça de Campeões do Mundo e elevou-a bem alto para alegria dos vários milhões dos adeptos do País do Arco Irís. Para quem ache que não há questões raciais na terra dos míticos Springboks então basta ouvir as várias histórias da juventude e recentes quer do capitão Kolisi, quer de Mapimpi, Trevor Nyakane, Bongi Mbonambi, Elton Jantjies ou Lukhanyo Am para ficar a perceber que o fantasma do racismo continua a ser um problema constante de um país que tem um potencial imenso para ser uma das super-nações do século XXI.

Não há sistema de quotas quer nos Springboks ou no Super Rugby – existindo só a um nível muito ténue na Currie Cup ou no rugby de formação – sendo esta uma falsa questão levantada por adeptos que têm problemas em ver nascer uma nova era na selecção sul-africana. Contudo, e agora com o caneco em sua posse poderá ser facilitada esta revolução positiva e de alto interesse para uma selecção que passou de 8 jogadores negros em 2015 para 13 em 2019, sendo um crescimento auspicioso e prometedor.

Foi extremamente fácil apontar o “dedo” de culpa a esta renovação nos Springboks quando se deram maus resultados em 2016 e 2017, acusando o seleccionador da altura, Alistair Coetzee, de estar a impor um sistema de quotas (mais uma vez não existiu tal prática) que estava a destruir por completo com a identidade da África do Sul e que seria o fim de uma das maiores selecções da modalidade. Quis o destino (e a manutenção da revolução por Rassie Erasmus mas com alterações tácticas fundamentais) que praticamente o mesmo grupo de jogadores de 2016 conquistasse o Mundial em 2019.

Este é o novo futuro do rugby sul-africano e é fundamental que os adeptos mantenham o sentido crítico, sem caírem na onda de notícias-falsas ou no preconceito, conceitos que não têm lugar em sociedades civilizadas.

SARACENS E O CAMINHO DOS PECAMINOSOS

A mega equipa londrina dos Saracens sofreu um dos maiores castigos alguma vez aplicados a uma equipa profissional do Mundo do Rugby com a perda 35 pontos na época actual (ainda estão com pontuação negativa mas deverão conseguir a manutenção na Premiership) e uma multa de 7M€ por terem não só furado o salary cap como mentido à organização que rege a Premiership inglesa, mostrando assim mão pesada. Owen Farrell, Maro Itoje, Brad Barritt, Billy Vunipola, Will Skelton, Sean Maitland, Liam Williams são só algumas das estrelas de um plantel que tem quase 35 jogadores quase todos de um nível de qualidade minimamente “agradável” ao ponto que conseguem apresentar duas equipas que entram em campo com o mesmo foco: ganhar.

Não há dúvidas que Mark McCall foi e é essencial para as conquistas recentes da formação londrina, mas ajudou ter uma super-equipa ao seu serviço que impunha um autêntico Império de vitórias ao nível dos Crusaders no Hemisfério Sul. Este castigo altamente pesado para os Saracens é uma demonstração que há limites para o tentar “dobrar” das regras e a forma como a direcção da formação londrina aceitou este cenário demonstra que ainda há algum sentido de responsabilização, apesar de não terem perdido qualquer um dos títulos conquistados durante esta fase de enganar o sistema.

São neste momento o grande “inimigo” de todos os adeptos da Premiership que acusam os Saracens de terem conquistado títulos de uma forma ilegal e falsa… contudo, não se pode negar o mérito das vitórias de um clube que mostrou novas nuances de rugby ao Hemisfério Norte.


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