O Sul-Americano e o favoritismo de Brasil e Argentina

Lucas PachecoAgosto 4, 20226min0

O Sul-Americano e o favoritismo de Brasil e Argentina

Lucas PachecoAgosto 4, 20226min0
Pausa nas finais das ligas internas sul-americanas para dar lugar ao Sul-Americano, prova em que o Brasil e Argentina são favoritos à vitória

A pausa antes das finais da Liga de Basquete Feminino (LBF), a liga brasileira, deve-se a um motivo nobre: a disputa do Campeonato Sul-Americano de seleções, disputado na cidade de San Luis, na Argentina, ao longo desta semana. Poucas coisas mexem tanto com os torcedores quanto as seleções, ainda mais em um dos poucos países campeão mundial; o saudoso ano de 1994 já vai longe, mas as lembranças do período áureo da seleção permanecem vivos na memória. O Brasil passa por outro momento e, por mais que queiramos reviver as glórias, devemos analisar com calma a seleção atual e seu processo de formação.

A Confederação Brasileira de Basquete (CBB) ficou marcada, nas duas últimas décadas, por uma gestão deficitária, mais voltada ao masculino e que deixou um rastro de desunião na modalidade. O Brasil passou de uma seleção semifinalista nos grandes torneios (Olimpíadas e Mundiais) a sequer obter a classificação, ficando de fora do Mundial de 2018, da Olimpíada de Tóquio e do Mundial que será disputado em setembro. Reconstrução é a palavra-chave.

Novos ares, trazendo esperança, vieram com a chegada do técnico José Neto e logo em 2019 a conquista do Pan, sobre uma seleção norte-americana formada por atuais jogadoras da WNBA, mostrou ser possível o retorno da seleção feminina. O processo, desde então, vem passando por altos e baixos, decorrentes da desestruturação vivida nos últimos anos. Neto não se dedica exclusivamente à seleção, passando a maior parte do tempo em Angola, onde dirige um clube masculino local; assim como o assistente técnico Virgil Lopez e a diretora do feminino, Adriana Santos, residentes atualmente na França.

As preparações para os torneios impossibilitam amplo tempo de treino e experimentação tática, obrigando a comissão técnica a trabalhar a médio prazo, com intervalos longos entre os camps.

Assim, Neto opta por manter uma estrutura básica, um núcleo de jogadoras que vai gradativamente se modificando, a depender do desempenho nos clubes e do surgimento de novos valores. Para o Sul-Americano, estão presentes, como líderes do grupo, a armadora Débora, a ala-armadora Tainá Paixão, as alas Patty e Ramona e a pivô Érika, convocadas desde que a comissão assumiu.

A esse núcleo consolidado, outras peças se somaram e conquistaram lugar cativo, casos da armadora Alana, das pivôs Stephanie Soares e Kamilla Cardoso. Completam o grupo atual algumas novidades, vindas de ótima temporada na LBF, as alas Sossô e Leila e a ala-pivô Sassá. Em cada convocação, Neto tem feito alterações e incorporado mais opções ao grupo de “convocáveis”, dando oportunidade para incrementar uma estrutura tática bem definida.

A pivô Aline Moura fecha o grupo e, embora tenha sido campeã no Pan de 2019, sua trajetória destoa em função das contusões nesses anos. Ela foi chamada às pressas, após ter sido cortada, para substituir a ala-pivô Manu (Emanuely de Oliveira), contundida às vésperas do embarque para a Argentina. Nany, Maria Paula Albiero, Rapha Monteiro, Clarissa, Damiris, Cacá, Lays são outros nomes que podem aparecer nas convocações futuras, ainda que não façam parte do grupo do Sul-Americano.

Essa contextualização é importante para avaliar a participação do Brasil no Sul-Americano, torneio classificatório para a Copa América no ano que vem. Notório que Brasil e Argentina são amplos favoritos a fazer a final – qualquer resultado diferente causará extremo espanto. A fase de grupos evidenciou a superioridade dos arquirrivais: no grupo A, a Argentina venceu seus três jogos com média de 37 pontos de vantagem. No B, a margem do Brasil foi ainda maior, com 50 pontos de vantagem em média.

Nas semi-finais, a Argentina enfrentará a Colômbia, enquanto o Brasil disputa contra a Venezuela. As quatro seleções classificaram-se para a Copa América. A Colômbia, além da derrota por 29 pontos na estreia contra o Brasil, venceu com tranquilidade o Uruguai e o Chile e sedimenta ainda mais sua posição de terceira força no continente. À experiente atiradora Mabel Martínez, cestinha da equipe na fase de grupos com 11,3 pontos de média, e à já conhecida armadora Manuela Rios, somam-se as jovens pivô Yuliany Paz e ala-pivô Daniela Gonzalez. Pouco para bater de frente contra a Argentina, embora as colombianas costumem dar trabalho às donas da casa.

Com um estilo mais “brasileiro”, mais fluido e veloz, a Colômbia terá pela frente uma escola diferente: a Argentina cadencia ao máximo seu jogo, comandada pela excelente armadora Meli Gretter, e por um bom elenco de apoio, muitas das quais atuam na Europa (principalmente Espanha e Itália). A seleção abusa da movimentação de bola e busca os desequilíbrios defensivos para punir as adversárias; no garrafão, a força e o tamanho pesam a favor da Colômbia.

Ainda no quesito das pivôs, a vantagem é toda brasileira contra as venezuelanas, que se classificaram após eliminar Paraguai (com a experiente ala Paola Ferrari) e Equador (com a promissora Blanca Quiñonez, de apenas 16 anos). Novamente, a seleção é comandada pela ala Daniela Wallen, com poucas opções de altura e tamanho para brecar as Torres Gêmeas brasileiras. Stephanie Soares (1,98, recém transferida para a universidade de Iowa State) e Kamilla Cardoso (2,04, campeã da NCAA por South Carolina) não encontraram adversárias na competição e ambas têm sido as estrelas do esquete canarinho na competição.

Dois prospectos, duas jóias que devem comandar a seleção brasileira nos próximos ciclos olímpicos. Ninguém menos que o ex-técnico da seleção argentina (e campeão da LBF em 2019 pelo Sampaio) Cristian Santander para destacar os jovens valores da competição:

A Venezuela terá dificuldade para brecar um conjunto brasileiro muito mais alto, que vem evoluindo ao longo do torneio e encontrado soluções para abastecer seu jogo interno, sem abdicar dos tiros de fora. A final deve então colocar frente a frente Brasil x Argentina.

Do lado argentino, elas jogarão em casa, com a torcida a seu lado, para defender o título sul-americano. Pelo Brasil, voltemos à reconstrução da seleção: é fundamental retomar a hegemonia na América do Sul e, para isso, somente o título importa. A vaga para a Copa América está garantida, a comissão inseriu novas jogadoras, contra adversárias fracas a seleção fez sua parte. Agora é hora de ir atrás do troféu. Porém, mesmo se a vitória não vier, o processo continuará e em 2023 teremos novo torneio, mais forte.

O título é importante; entretanto, o resultado imediato não deve apagar o processo pelo qual a seleção passa, cuja meta depende de muitos fatores extra-quadra (tempo de treino, padronização do estilo com as categorias de base, mais praticantes da modalidade nos clubes, fortalecimento de campeonatos locais etc). Se voltaremos a ocupar o topo do mundo, somente o tempo dirá. Inconteste que esse caminho passa por estruturar o time ao redor das duas jovens pivôs.


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