Temos Campeão do Mundo… e temos Bicampeão do Mundo!

João CamachoJulho 11, 20218min0

Temos Campeão do Mundo… e temos Bicampeão do Mundo!

João CamachoJulho 11, 20218min0
Na antecâmara para os Jogos Olímpicos, Jorge Fonseca vai entrar em Tóquio como bicampeão do Mundo e João Camacho volta a relembrar o feito do judoca

Muitos manifestaram algum cepticismo relativamente à memorável prestação de Portugal nos campeonatos do Mundo de Tóquio, em 2019, onde o nosso País terminou num prestigiante 3.º lugar no quadro de medalhas, com um Campeão do Mundo, Jorge Fonseca, e uma Vice- Campeã do Mundo, Bárbara Timo.

Alegadamente, teria sido obra do acaso, ou fruto de uma “conjugação astral” favorável. Mas estavam errados. Não se tratou de um “golpe de sorte”. Tem-se vindo a trabalhar muito bem em Portugal e, após a grande prestação nos campeonatos da Europa de Lisboa, que decorreram em Junho, os campeonatos do Mundo de Budapeste acabam por dissipar todas as dúvidas e ser a prova cabal de que estamos num momento impar do Judo Português! Venham os Jogos Olímpicos de Tóquio!

JORGE FONSECA, Bicampeão do MUNDO

A 30 de Agosto de 2019, Jorge Fonseca conquistava o primeiro título de Campeão do Mundo da história do Judo Português. Para quem acompanha a modalidade, foi a concretização de algo previsível, já que o Jorge era uma das referências da categoria de peso dos 100Kg, a quem só faltava um grande resultado, sendo reconhecido como um atleta de enorme qualidade, que dava espetáculo pela sua atitude e amplitude dos seus movimentos técnicos. Para outros, poucos, o título seria obra do acaso….

No dia 11 de Junho de 2021, Jorge Fonseca revalida o título de Campeão do Mundo e torna-se Bicampeão do Mundo da categoria masculina dos 100Kg. Definitivamente palavras como “acaso”, “coincidência”, ou mesmo “sorte”, deixaram de fazer sentido. Os factos impuseram a unanimidade na avaliação: Numa das categorias de peso mais disputadas e competitivas destes campeonatos do Mundo, a prestação de Jorge Fonseca foi colossal, não deu qualquer hipótese à concorrência, que era forte em quantidade e qualidade. É um Campeão e glorifica o Judo Português.

O atleta do Sporting Clube de Portugal apresentou-se num excelente momento de forma e esteve imperial desde o primeiro combate, sem dar qualquer hipótese à concorrência, sem sofrer qualquer vantagem, e a mostrar uma consistência e classe que o destacou como um dos melhores judocas em prova e o mais rápido (tempo total de combates) a chegar à medalha de ouro.

Já antes escrevi muito sobre o Jorge Fonseca. A sua história de vida, as adversidades que enfrentou e como as superou, o seu percurso desde o dia em que “espreitou” um treino de Judo do treinador Pedro Soares, na Damaia, treinador que o conquistou para a modalidade e que ainda hoje se senta no banco e o orienta.

É uma história que impressiona, que, objectivamente, sempre seria um exemplo de determinação e força de vontade. Mas aquilo a que agora assistimos, e recomendo que vejam e revejam a prestação do Jorge em Budapeste, ficará para a posteridade. Foi notável! Como notáveis foram as palavras em que, no final da competição, aos microfones da SPORTTV, Jorge partilhava o seu sentimento:
“Na primeira vez duvidaram, disseram que foi sorte. Hoje [sexta-feira dia 11 de Junho] foi trabalho, determinação e foco. Calei muita gente. Dei espetáculo a fazer judo, diverti-me imenso e foi um dia perfeito”.
Obrigado Jorge! Estamos a torcer por mais um dia memorável em Tóquio!

CM Budapeste 100Kg Podio (Foto: IJF)

Anri Egutidze de Bronze ao peito

Anri Egutidze, que ficou conhecido pela maioria dos Portugueses por um episódio caricato numa etapa do circuito Mundial, mostrou que é um atleta que tem evoluído e que apresenta, atualmente, uma qualidade e consistência que lhe permitem sonhar com altos voos. O 5.º lugar nos Campeonatos da Europa de Lisboa, manifestamente insatisfatório face ao Judo que apresentou, relembro que derrotou o Campeão Olímpico (o Russo Khasan Khalmurzaev) e o Campeão do Mundo (à data o Israelita Sagi Muki), foi superado pelo 3.º lugar e a respetiva medalha de bronze nestes Campeonatos do Mundo.

Anri provou que tem toda a legitimidade para sonhar com altos voos e a medalha de bronze que acabou ao peito do judoca do Sport Lisboa e Benfica, foi o corolário de uma prestação de enorme consistência e muito pragmatismo. Assistimos a uma versão de Anri que pode, com toda a legitimidade, sonhar com uma medalha olímpica.

Terei também de destacar Joana Ramos, que aos 39 anos era uma das mais experientes atletas em prova. A Joana repetiu, em Budapeste, o 5.º lugar dos 52Kg dos Mundiais de Tóquio, que apesar de ser um resultado de excelência, soube a pouco, pois a sua prestação foi “enorme” pela consistência e determinação que evidenciou em cada combate. E claro, para terminar a incontornável referência à Super Telma Monteiro que, com o 7.º lugar conquistado, mostrou que o sonho de voltar a subir ao pódio nuns Jogos Olímpicos é possível e o titulo de Campeã da Europa, conquistado umas semanas antes em Lisboa, não foi obra do acaso!

Telma acabou derrotada em dois longos pontos de ouro (Golden score), contra adversárias muito fortes, mas ficou evidente que apesar dos seus 35 anos Telma está a atravessar um excelente momento. Mais do que esperar, confiamos que assim se manterá até Tóquio.

Globalmente, Portugal esteve de novo em destaque, terminando num notável 6.º lugar no quadro de medalhas, num total de 118 países em prova. Parabéns aos Atletas, em especial, mas também à Equipa Técnica, à Federação Portuguesa de Judo e aos Treinadores, que têm tido um verdadeiro desafio em manter estes atletas em ação durante uma crise pandémica que condicionou, e muito, a prática desportiva, nomeadamente no caso do Judo que é considerada uma modalidade de alto risco!

CM Budapeste 81Kg Anri (Foto: IJF)

Jogos Olímpicos de Tóquio 2020 2021

Estamos a pouco mais de duas semanas dos jogos Olímpicos de Tóquio. O evento, além de já adiado um ano devido à crise pandémica, também não contará com público. Sem dúvida que o ambiente exclusivo e único de um evento desta dimensão está irremediavelmente comprometido, mas seria desastroso cancelar, em definitivo, o evento, cenário que, como sabemos, esteve por diversas vezes em discussão.

A questão está, contudo, ultrapassada. A qualificação está fechada e a lista de atletas que irá viajar até Tóquio está definida. Sem dúvida que serão uns Jogos onde o Judo é a modalidade que se destaca das restantes pela importância e relevância com que a igualdade de género foi considerada em todo o processo de qualificação. No que respeita à participação Portuguesa, a comitiva será a maior de sempre, igualando a que esteve presente em Barcelona 1992. Atualmente o critério de selecção e de obtenção de mínimos é muito mais exigente, mas a realidade do Judo em Portugal, à data, era totalmente diferente.

O investimento era residual, a experiência internacional era praticamente nula e a maior parte dos parcos resultados conquistados foram fruto do acaso, da carolice e de muito sacrifício pessoal. Não havia uma estrutura com a qualidade, competência e profissionalismo da atual. No entanto, apesar de Portugal apresentar em Tóquio uma participação record, fica um amargo de boca por termos falhado a qualificação para a competição de equipas mistas, uma vez que não qualificámos nenhum atleta na categoria dos 73Kg masculinos, ou inferior (60Kg ou 66Kg), ficando um peso por preencher e assim falhando a qualificação. A categoria dos 73Kg (até aos Jogos Olímpicos de Atalanta a categoria era dos 71Kg) é das categorias com mais tradição no Judo Português, com a maior quantidade de participações em Jogos Olímpicos e, por isso, é especialmente dececionante Portugal em 5 anos (4 +1) não ter conseguido qualificar um atleta nesta categoria.

É provável que o Jovem João Fernando seja o atleta que irá agarrar o lugar, pela qualidade e capacidade de trabalho que vem demonstrando, e assim garantir a qualificação nesta disputadíssima e “terrível” categoria de peso, para os jogos de Paris 2024. Que assim seja!

A excelência do percurso até estes Jogos Olímpicos, ganha especial destaque uma vez que temos 3 cabeças de série no sorteio; Jorge Fonseca (2.º 100Kg), Catarina costa (7.ª 48Kg) e Telma Monteiro (8.ª 57Kg). Aqui fica a lista dos atletas que representarão Portugal nos jogos Olímpicos:

Equipa feminina: Catarina Costa (-48 kg), Joana Ramos (-52 kg), Telma Monteiro (-57 kg), Bárbara Timo (-70 kg) e Rochele Nunes (+78 kg).

Equipa masculina: Anri Egutidze (-81 kg) e Jorge Fonseca (-100 kg).

Agora é só esperar mais duas semanas… e preparar a máquina do café, porque vamos ter Judo de altíssima qualidade a horas impróprias. Mas não tenho dúvida que vai valer a pena!

CM Budapeste 52Kg Joana Ramos (Foto: IJF)

Entre na discussão


Quem somos

É com Fair Play que pretendemos trazer uma diversificada panóplia de assuntos e temas. A análise ao detalhe que definiu o jogo; a perspectiva histórica que faz sentido enquadrar; a equipa que tacticamente tem subjugado os seus concorrentes; a individualidade que teima em não deixar de brilhar – é tudo disso que é feito o Fair Play. Que o leitor poderá e deverá não só ler e acompanhar, mas dele participar, através do comentário, fomentando, assim, ainda mais o debate e a partilha.


CONTACTE-NOS



newsletter