Quartos de final à porta na qualificação europeia para o Mundial

André CoroadoJunho 24, 202112min0

Quartos de final à porta na qualificação europeia para o Mundial

André CoroadoJunho 24, 202112min0
A qualificação para o mundial está em curso na Nazaré e a nossa selecção mantém-se em prova. O que esperar dos quartos de final?

O apuramento europeu para o campeonato do mundo de futebol de praia FIFA 2021 atinge esta sexta-feira a sua fase decisiva, quando as oito equipas ainda em prova discutem as quatro vagas atribuídas ao velho continente nas partidas dos quartos de final. Um jogo de tudo ou nada, cujo desfecho ditará o passaporte para o mundial para os vencedores e mais dois anos de espera para os vencidos. Numa antevisão dos embates mais importantes do ano, lançamos um olhar às prestações que levaram as selecções mais poderosas da Europa até esta fase e a todas as emoções de um torneio que tem levado as areias da Nazaré ao rubro!

Portugal não vacila

Inserida num agrupamento de elevado grau de dificuldade, onde também estavam presentes as congéneres ucraniana e turca, da divisão A europeia, a selecção das quinas estava preparada para um início de semana muito duro. Porventura pouco impressionantes atendendo ao passado da selecção, os números das vitórias inaugurais contra Cazaquistão (7-3) e Turquia (4-2) podem não impressionar, mas Portugal cumpriu, mostrando uma ideia de jogo consistente, ainda que numa fase de desenvolvimento.

No jogo que decidia o primeiro lugar do grupo, os ilustres lusos defrontavam uma tradicionalmente difícil formação ucraniana, numa batalha com um aliciante importante: quem vencesse o agrupamento defrontaria o 2º classificado do grupo D e evitaria, com grande probabilidade, a Suíça no duelo decisivo de acesso ao mundial. Num confronto de elevado pendor táctico, de marcações cerradíssimas de parte a parte, destinado a ser decidido nos detalhes, prevaleceu a entreajuda e a vontade lusitanas, numa vitória atípica por 1-0, valendo o golo apontado pelo irrequieto Bê Martins (assistência de Coimbra) e a exibição portentosa de Elinton Andrade, autor de um punhado de defesas impossíveis que asseguraram a vantagem de Portugal, sobretudo no 3º período. Os actuais campeões do mundo mantiveram-se assim invictos em 2021 e defrontarão o Azerbeijão nos quartos de final, na luta pelo acesso ao Mundial.

Vale a pena recordar que a equipa técnica liderada por Mário Narciso foi obrigada a algumas adaptações tendo em vista a preparação das provas da presente temporada, atendendo à ausência prolongada de Jordan Santos, melhor jogador do mundo em 2019, que se ressentiu de uma lesão anterior, e também à alteração das regras, que impede o guarda-redes de manter a bola na sua posse dentro do meio-campo defensivo durante 4 segundos. Todavia, as adaptações empreendidas pela selecção conduziram inclusivamente a um maior desenvolvimento do jogo ofensivo de Portugal, uma vez que torna o jogo mais directo e obriga os jogadores a diversificar as opções no ataque.

No nosso entender, a aposta em Belchior no quarteto principal, que integra também Coimbra (grande momento de forma) e os irmãos Bê e Léo Martins, tem-se revelado ajustada, tendo em conta as boas dinâmicas observadas entre os 4 jogadores. Certamente que não oferece as mesmas soluções de mobilidade do trio Jordan-Bê-Léo, mas a introdução de Belchior acrescenta experiência à irreverência dos gémeos luso-brasileiros e traduz-se numa equipa equilibrada nos vários momentos do jogo. Será importante dar continuidade ao trabalho para criar uma maior mobilidade e evitar situações de bloqueio como as que se verificaram por vezes perante a Ucrânia, recorrendo a mais frequentes trocas de posição entre os vários jogadores no âmbito do 3:1, mas o caminho seguido parece-nos promissor.

Por seu turno, a opção por Torres, André Lourenço, Rúben Brilhante e Von no segundo quarteto, por vezes com a entrada de Rodrigo Pinhal, também vai dando frutos, sobretudo em função da alteração do modelo de jogo. Dantes, as opções ofensivas da equipa eram por vezes estranguladas por uma excessiva aposta no 2:2, com o controlo dos ritmos de jogo por parte de Elinton Andrade e Belchior ainda no meio-campo defensivo e poucas opções de finalização além da bicicleta de Von (já conhecida pelas equipas adversárias). Agora, porém, verifica-se um regresso ao 3:1 como sistema de base, obrigando a uma maior circulação de bola entre os vários elementos da equipa.

A disponibilidade física de André Lourenço, a técnica soberba de Rúben Brilhante e a presença forte de Von na área adversária permitem que este sistema possa funcionar, num quarteto jovem sustentado pela experiência de um Bruno Torres irrepreensível na retaguarda. Porém, e apesar de este sistema abrir portas a novas opções de ataque, é importante continuar a apostar na mobilidade e circulação de bola entre os jogadores, para que as combinações possam surgir com maior frequência e fluidez num futuro muito próximo.

Lembramos também que os quartos de final serão difíceis, uma vez que o Azerbeijão é uma equipa em franco crescimento, que já causou muitas dificuldades a Portugal no encontro da Liga Europeia e que dispõe agora de uma oportunidade única para conseguir o apuramento inédito para o mundial. No entanto, a forma anímica da equipa portuguesa, mantendo o foco e o respeito pelos adversários, permite-nos adoptar uma atitude optimista relativamente à qualificação.

A Ucrânia, por sua vez, mostrou solidez nas vitórias robustas perante a Turquia (7-5) e o Cazaquistão (6-1), bem como na exibição de grande rigor táctico contra Portugal, e segue para os quartos, onde irá defrontar a sempre temível formação helvética.

Suíça demolidora, mas…

Tem sido uma constante da última década: a Suíça é uma selecção que marca um grande número de golos com uma facilidade assustadora, mas também sobre muitos golos, independentemente dos aversários. Os números da Nati na fase de grupos confirmam esta tendência, com um total de 26 (!) golos marcados, embora também 14 golos sofridos. Exceptuando a vitória retumbante diante da ainda modesta Estónia, por 12-4, as outras vitórias da Suíça não foram obtidas por margens muito dilatadas: 8-5 frente ao Azerbeijão e 6-5 perante os gauleses. Os homens de Angelo Schirinzi mantêm-se fiéis à sua identidade: futebol de praia total. Sempre será assim, e será também desta forma que a nação alpina irá procurar a qualificação para o sexto mundial da sua História.

O plantel helvético poderia fazer inveja a qualquer selecção mundial. A Suíça conta com o polivalente Eliott Monoud na baliza como arma fundamental na organização do ataque, invarivelmente em 2:2. Na organização, destacam-se os experientes Sandro Spaccarotella e Noel Ott, um polivalente que é também um dos melhores marcadores da equipa. Na concretização, os pivôs matadores Dejan Stankovic, sempre no lugar certo à hora certa, e o acrobático Glenn Hodel. A armada helvética fica completa com a adição do indomável Philip Borer, um génio incompreendido e indisciplinado cuja loucura produz maravilhas (graças a ele, a Suíça inverteu uma desvantagem de 7-1 perante a Polónia para vencer o jogo por 10-9 na jornada inaugural da Liga Europeia).

Acreditamos que a Suíça é favorita no embate diante da Ucrânia. Todavia, as fragilidades defensivas e instabilidade emocional dos jogadores suíços pode trair a Nati num encontro com características muito especiais, em que a experiência e frieza de jogadores como Igor Borsuk, Pachev, Medvid e Voitenko pode fazer a diferença…

Realçamos também, mais uma vez, o mérito patente na classificação do Azerbeijão, que se impôs num encontro de grande rigor táctico perante a França (2-0), graças ao qual logrou o apuramento para os quartos.

Bielorrússia soma e segue, Itália relaxa

Nos outros agrupamentos, destacamos o cruzeiro da Itália no grupo B e as acesas lutas travadas no grupo C, no qual a Bielorrússia acabou por emergir vitoriosa.

De facto, não houve muita história num grupo B onde os transalpinos venceram com relativa tranquilidade todas as partidas, mas sem impressionar. Exceptuando os avassaladores 12-0 do triunfo perante a inexperiente Dinamarca, nem os 4-2 diante da Roménia nem os 3-1 frente à Alemanha parecem condizer com o poder de fogo ofensivo dos comandados de Del Duca.

Porém, a consistência da Itália é inquestionável, e espelha-se no facto de, juntament com Portugal e Rússia, se tratar da única equipa invicta esta temporada na Europa. Os Azzurri foram mesmo a única equipa capaz de bater a Suíça esta época, num triunfo por 6-5 com 4 tentos de Gori. Também Zurlo e Josep Ponset mostraram estar num bom momento de forma e decerto tudo farão para lograr o apuramento para o mundial, assim como Stefano Spada, regressado às redes italianas esta época. No entanto, parece que por vezes falta alguam intensidade em alguns momentos do jogo italiano. Coloca-se, portanto, a seguinte questão: terao os transalpinos a atitude necessária para superar um obstáculo da dimensão da Espanha no caminho para Moscovo?

É verdade, espera-nos um promissor duelo mediterrânico nos quartos de final! Itália e Espanha, apenas uma delas poderá estar presente no mundial da Rússia. Tudo isto porque a Espanha, que não marca presença no mundial desde o evento de Espinho em 2015, deixou escapar o 1º lugar no grupo C, após uma séries de confrontos muito renhidos.

Emoções à flor da pele no grupo C

Naquele que se constituía claramente como o grupo da morte nesta qualificação para o mundial, a equipa agora comandada pelo diligente Cristián Méndez Lacarcel (antigo guardião da Roja) foi suplantada por uma Bielorrússia absolutamente irrepreensível. Enquanto os bielororussos golearam a Polónia por 8-2, a Espanha enfrentou dificuldades perante os polacos, num jogo em que chegou a estar em desvantagem por 6-3. Com coração e qualidade técnica, a nação de Cervantes partiu numa aventura épica e operou a reviravolta, vencendo por 7-6 após prolongamento. Todavia, o embate do dia seguinte frente à Bielorrússia teria uma histórai diferente, um vez que a vantagem espanhola de 3-1 foi anulada pela equipa de leste, que acabou por vencer o jogo por 4-3 com um golo de Hapon no minuto derradeiro do encontro.

No nosso entender, a Espanha tem vindo a apresentar um estilo de jogo interessante e espectacular, empreendido por executantes de classe mundial e baseado agora um pocuo mais no sistema 3:1 (um pouco à semelhança da transformação táctica operada por Portugal). Porém, apesar da intensidade dos atletas espanhóis, a equipa quebra tem quebrado muito defensivamente em momentos chave do jogo, além de por vezes faltarem soluções ofensivas. Acreditamos que se tratam de dores de crescimento de uma equipa que tem tudo para ser uma das mais perigosas a nível mundial, mas denota ainda alguma inexperiência por parte de alguns jogadores e falta de controlo emocional por vezes. Aguardaremos para ver o que fazem jogadores como Llorenç, Edu Suárez, Javi Torres, Chiky e Pablo Pérez no embate perante a Itália, que pode ditar o regresso da Espanha aos grandes palcos mundiais ou o seu afastamento pela terceira ocasião consecutiva.

Por seu lado, a Bielorrússia, que até começara a época a meio gás com um 5º lugar na Open Beach Soccer League (torneio contra clubes russos) e derrotas claras contra Espanha e Rússia na Liga Europeia, na Nazaré, tem revelado um crescimento brutal nestes últimos dias. Impiesosos para com as defensivas de Polónia e Noruega, os homens do leste europeu impuseram a sua força física e crença colectiva perante a Espanha, fazendo valer as virtudes de um plantel equilibrado, onde todos os jogadores podem brilhar num sistema de jogo directo, acrobático e intenso. Hapon, Kanstantsinau, Bokach, Savich, entre tantos outros, têm deixado as areias da Nazaré debaixo de fogo, dispondo de guardiões de excelência em Mahaletski e Makarevich.

Lembramos que no comando da nação branca está um homem que conhece bem o jogo: Nico, antigo internacional espanhol e uma das figuras mais emblemáticas da modalidade no país juntamente com Amarelle. Depois de ter apurado a Bielorrússia para o seu primeiro mundial, Nico parece ter colocado a sua equipa a caminho do segundo, vencendo justamente o seu país natal. No final do jogo, o Fair Play de parte a parte era notório e salutar, em mais uma história que enaltece os valores do desportivismo no âmbito do nosso desporto.

Todas as razões acima citadas que nos levam a considerar a Bielorrússia ultra-favorita numa partida dos quartos de final frente à Alemanha, que apesar de ter vencido consistentemente a Dinamarca e Roménia dificilmente terá argumentos para uma equipa como os bielorrussos. No entanto, a bola é redonda, e ressalta na areia… Por seu turno, o Itália vs Espanha, clássico de sempre dos areais, será um duelo de desfecho imprevisível e não nos arriscamos a qualquer tipo de previsão!

Terminamos com a síntese dos quartos de final desta sexta-feira, em horários locais:

15h30: Bielorrússia – Alemanha
16h45: Suíça – Ucrânia
18h15: Itália – Espanha
19h30: Portugal – Azerbeijão

Dentro de algumas horas, 4 equipas terão carimbado o passaporte para o mundial Moscovo 2021…


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