Portugal Campeão Europeu de Futebol de Praia

André CoroadoSetembro 12, 20197min0

Portugal Campeão Europeu de Futebol de Praia

André CoroadoSetembro 12, 20197min0
A Liga Europeia de Futebol de Praia voltou a casa! E não apenas porque se disputou em solo nacional, na Figueira da Foz, mas porque foi realmente conquistada por Portugal, 4 anos depois da vitória em Parnu, na Estónia!

A selecção portuguesa de futebol de praia voltou a conquistar a Liga Europeia, 4 anos depois da última conquista. A equipa das quinas tornou-se assim a primeira selecção a vencer a prova por seis ocasiões, numa Superfinal realizada na Praia da Claridade, na Figueira da Foz. O evento marcou o regresso das grandes competições internacionais à emblemática casa do Mundialito de Futebol de Praia, aí realizado entre 1997 e 2004. 15 anos mais tarde, ainda com Madjer e Belchior no elenco, Portugal superou com distinção os testes que lhe foram apresentados pelas formações da Turquia (9-5), Ucrânia (3-1), Itália (8-6) e Rússia (4-2), erguendo o almejado troféu que tinha vindo a fugir nas últimas 3 épocas. Mas quais foram os segredos do sucesso lusitano na Figueira?

A prevalência do colectivo

Se Portugal conta com executantes de topo a nível europeu e mundial, aptos para fazer a diferença em qualquer partida, é inegável o mérito dos atletas de outras selecções do velho continente, também elas apetrechadas de talento bem trabalhado. No entanto, Portugal soube tirar partido do melhor de cada um dos seus atletas pela coesão colectiva apresentada, na sequência de uma temporada de crescimento que fortaleceu os laços da equipa dentro e fora de campo.

O entrosamento do plantel foi sendo trabalhado gradualmente ao longo do Verão, sendo inequívoco o progresso verificado quando se compara a prestação lusa no apuramento para os jogos mundiais de praia, realizado em Salou no passado mês de Maio, com a campanha vitoriosa na Figueira. Os jogadores conhecem-se realmente bem, estão cientes das forças e vulnerabilidades uns dos outros, trabalham para fazer os colegas brilhar e mostram-se voluntariosos na hora de compensar um desequilíbrio. Mesmo quando os jogos se revelaram difíceis, essa atitude de união foi notória, tendo os jogadores deixado de lado as diferenças para lutar por algo maior e culminando uma genuína amizade e camaradagem, que se reflectiram no desempenho da equipa.

Uma Ucrânia muito combativa foi superada graças a um esforço defensivo colectivo, que permitiu manter o resultado em 2-1 durante largos períodos do jogo até Jordan assinar o 3-1 final num livre com a sua marca. Uma galopante Itália quase recuperava de uma desvantagem de 4 golos, mas foi travada a tempo pelo espírito de sacrifício dos jogadores portugueses que seguraram a vantagem nos derradeiros e periclitantes momentos do encontro (também com direito ao golo da confirmação de Coimbra). Finalmente, foi também resultado de um imensurável esforço colectivo a incrível reacção dos comandados de Mário Narciso à desvantagem de 2-0 averbada no 1º período da final contra a Rússia, onde a intensidade que todos os jogadores colocaram no jogo foi determinante para que a partida se mantivesse de sentido único até a reviravolta no marcador estar consumada!

O equilíbrio do plantel

A equipa apresentou-se ao seu melhor nível na Figueira da Foz, valorizando o trabalho de renovação sustentada que tem vindo a ser realizado. Efectivamente, arriscaríamos mesmo dizer que, neste momento, Portugal apresenta o melhor nível de jogo dos últimos anos desde os sucessos gloriosos de 2015. É certo que também em 2017 o nível apresentado pela equipa foi muitíssimo elevado, mas nesse momento o desequilíbrio entre as duas composições que entravam dentro de campo era notório. Na Superfinal, dando continuidade ao que já se tinha vindo a verificar ao longo da época, o cenário foi distinto.

Vale a pena realçar a qualidade acrescentada pelo regresso de Bê Martins, recuperado da sua lesão, que voltou a formar um quarteto demolidor com o irmão Léo, Coimbra e o muito merecido MVP da prova, Jordan Santos. A supremacia técnico-táctica deste conjunto afirmou-se na Figueira da Foz, conferindo a Portugal um enorme caudal ofensivo, particularmente nas últimas duas partidas diante de Itália e Rússia. A facilidade de drible e versatilidade técnica junta-se à imprevisibilidade das movimentações e uma racionalidade na ocupação e criação de espaço que se traduzem em oportunidades de golo de uma equipa que se mantém equilibrada defensivamente, com grande capacidade de transição defesa-ataque e ataque-defesa.

Por outro lado, tem de ser destacada a produtividade do quarteto formado alternadamente por Torres, Madjer, Ruben Brilhante, Ricardinho, Belchior e Von. Torres revelou os índices de combatividade e qualidade e segurança que se lhe reconhecem, assim como Madjer continua a ser uma arma temível para as redes adversárias, preparado para aparecer nos momentos mais necessários e cimentando, com o seu exemplo, a união do grupo.

No entanto, parece-nos que a qualidade apresentada por este quarteto bebe muito da experiência de Belchior, que voltou a apresentar-se num excelente plano em 2019, trabalhando muito para a equipa e contribuindo para o equilíbrio da fórmula de jogo deste quarteto, e da impetuosidade de Von, que fez uma evolução retumbante desde o ano passado e já é portador de um dos pontapés de bicicleta mais temíveis da Europa (ficou na retina aquela acrobacia frente à Itália). Rúben Brilhante e Ricardinho, menos utilizados esta época, não deixaram de acrescentar valor à equipa e justificaram a escolha do seleccionador em momentos cruciais da prova: o jovem estreante nazareno fez uma época promissora e vai certamente continuar a crescer, enquanto o ala do Sporting deu uma excelente resposta após alguns meses de ausência, acrescentando uma nova velocidade ao seu jogo e mostrando que tem muito para dar à selecção. André Lourenço, outro dos rostos–chave desta renovação, ficou de fora por lesão, mas também ele se enquadra nestas palavras pela época de qualidade que protagonizou.

Por último, a solidez demonstrada por Elinton Andrade na baliza continua a ser um dos pilares de base da selecção, que contou ainda com Petrony em bom plano sempre que chamado a intervir. Os guardiões das redes nacionais formam um par inquestionável há 5 anos e constituem uma das chaves para o êxito da equipa, numa modalidade onde o papel do guarda-redes é tão decisivo.

O mérito da equipa técnica

Conforme sublinhámos aqui os aspectos que nos pareciam não estar a funcionar no modelo de jogo da selecção sempre que tal nos pareceu verificar-se, é com muito agrado que constamos a correcção desses detalhes e felicitamos a equipa técnica pelo seu trabalho de eleição. Se o esforço de renovação sustentada da equipa já é em si mesmo motivo para aplaudir, mais ainda deve ser dito relativamente ao modo como o plantel foi gerido ao longo da época, à forma como se insistiu na correcção de erros defensivos de torneio para torneio e de jogo para jogo, ao modo como o processo ofensivo foi sendo trabalhado à medida que o entrosamento dos jogadores crescia.

A título de exemplo sublinhamos a forma exímia como Portugal defendeu o sistema 2:2 durante a Superfinal, revelando um grande trabalho defensivo que corrigiu lacunas apresentadas no início da época e levou a que já não fossem concedidos quaisquer golos dessa forma. O aumento da produtividade do quarteto português de Torres, Madjer, Belchior, Von também passa por uma definição mais rigorosa de processos, tirando partido das armas dos jogadores e tornando o jogo mais pragmático. O mesmo se pode dizer das acções do trio Jordan-Bê-Léo, que não só dominam as operações em termos de posse de bola como se apresentaram muito mais objectivos do que no início da temporada, procurando o golo com acutilância ofensiva.

Foi uma longa época de Verão que culminou na consagração de Portugal como campeão europeu, já depois de uma medalha de ouro olímpica arrecadada nos Jogos Europeus. Como diria Camões, se se dirigisse aos membros da comitiva portuguesa, “Vosso longo trabalho aqui fenece!”. Porém, não existe muito tempo para festejar e descansar, uma vez que uma nova batalha aguarda os heróis dos areais lusitanos no final do ano: o Campeonato do Mundo de Futebol de Praia FIFA 2019, realizado em Assunção, Paraguai, no final de Novembro.

 


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