Japão: de surpresa a finalista do Mundial

André CoroadoJaneiro 24, 202211min0

Japão: de surpresa a finalista do Mundial

André CoroadoJaneiro 24, 202211min0
O Japão é o actual vice-campeão do mundo, finalista do mundial de Moscovo em 2021. Única equipa presente em todos os mundiais FIFA a par do Brasil, o Japão tinha vindo a crescer mas faltava qualquer coisa para que pudesse ser considerado um verdadeiro candidato à vitória final. Fique a conhecer um pouco da história da primeira selecção asiática a alcançar uma final do mundial.

No ano passado, o Japão atingiu a final do Campeonato do Mundo de Futebol de Praia, onde acabou por ser derrotado pela anfitriã Rússia. Não obstante a derrota, tratou-se de um feito colossal para o futebol de praia nipónico, que consagrou uma geração brilhante como vice-campeã mundial. Também no contexto asiático esta marca se reveste de grande significado, por se tratar da primeira vez que uma nação deste continente se apura para a final de um mundial. Este registo constitui-se assim como o ponto culminante de uma trajectória de crescimento iniciada há mais de 16 anos, desde o meritório 4º lugar alcançado pelo Japão no primeiro mundial organizado pela FIFA, na emblemática praia de Copacabana. Como se escreveu esta história de sucesso, uma longa viagem que começou no Rio de Janeiro em 2005 e terminou com o reconhecimento à escala mundial na capital russa, em Julho de 2021?

Japão sempre presente

O sucesso nem sempre esteve presente na última década e meia da caminhada da selecção nipónica. Após o sucesso inesperado de 2005, fruto de duas vitórias surpreendentes sobre as históricas formações dos EUA e do Uruguai que catapultaram o Japão para a meia-final diante da França, a selecção do país nascente enfrentou algumas dificuldades nas três edições seguintes do mundial. Com efeito, se em 2006 a selecção japonesa ainda conseguiu o apuramento para os quartos de final in extremis, acabando derrotada por 3-2 numa partida equilibrada diante da França, o Japão não voltaria a conseguir afirmar a qualidade do seu futebol de praia nas edições de 2007 e 2008, quando terminou a prova com um pleno de derrotas. Ainda assim, a nível continental, a nação do sol nascente apresentava-se muito regular, alcançando o 2º lugar na prova continental asiática por 3 ocasiões consecutivas.

Numa era em que o futebol de praia era muito diferente em relação aos dias de hoje, os nipónicos apresentavam um estilo de jogo simples, mas bem trabalhado, assente essencialmente na saída em 3:1, com uma organização defensiva bem montada, passível de causar problemas a equipas de topo. Recordo-me, por exemplo, de um duelo diante do Brasil no Mundialito de 2007, em que o Japão acabaria derrotado por 4-0, mas no qual a organização defensiva nipónica colocou a selecção Canarinha à prova, com 3 dos golos brasileiros a serem apontados apenas no 3º período.

O trabalho de casa dos japoneses acabaria por dar frutos em 2009, num ano quase perfeito para a selecção do extremo oriente. Comandados pelo experiente Ruy Ramos, brasileiro de nascença mas japonês de coração, os nipónicos aperfeiçoaram os seus processos e alcançaram resultados de grande nível, vencendo o campeonato asiático e contando por vitórias os três encontros disputados na fase de grupos do mundial Dubai 2009, incluindo um triunfo nas grandes penalidades sobre a temível Espanha de Amarelle. O Japão, que parecia imparável, acabaria por cair apenas aos pés de Portugal, numa partida muito táctica e renhida, decidida no último minuto graças a um livre vitorioso de Belchior, com a bola a bater na areia à frente de Ginoza e a trair o guardião nipónico, estabelecendo o 2-1 final que ditaria a eliminação do campeão asiático.

Era o fim de um ciclo, uma geração emblemática do futebol de praia japonês responsável pelas bases da modalidade no país, assente nas contribuições de jogadores como Yoshi, Kawarazuka, Uehara e Makino. Um jovem jogador de seu nome Shusei Yamauchi começava também a dar que falar pela sua veia goleadora. No entanto, apesar da disciplina táctica e da evolução técnica razoável dos seus jogadores, faltava uma injecção de força física e um aprimoramento técnico que permitisse ao Japão ombrear com as maiores potências do futebol de praia mundial. A mudança estava já ao virar da esquina, e escrevia-se com três letrinhas apenas, que viriam a ficar eternamente gravadas nos anais do futebol de praia: Ozu.

Ozu e a revolução nipónica

Com efeito, o ano de 2011 traria uma novidade de peso ao panorama mundial da modalidade, com a primeira aparição internacional do carioca Osmar Moreira, desde sempre familiarizado com a prática do futebol de praia na sua Copacabana natal, mas residente no Japão, sua pátria adoptiva. A estreia internacional do futuro capitão da selecção nipónica deu-se no I Mundialito de Clubes, na Represa de Guarapiranga, São Paulo, com as cores dos Seattle Sounders, equipa norte-americana que contava também com o salvadorenho Frank Velasquez e outros grandes nomes do cenário internacional. A pujança física de Ozu, nome adoptado pelo próprio, aliada a uma técnica facilmente conotável com a sua experiência passada nos areais de Copacabana, pareciam ser justamente o ingrediente que faltava à selecção japonesa para se afirmar ao mais alto nível no contexto mundial. Nesse ano, o Japão ainda não contaria com Ozu no mundial de Ravena, Itália, ressentindo-se dessa ausência de uma forma evidente, ao averbar 3 derrotas na fase de grupos. Seria só em 2013 que Moreira teria a oportunidade de se estrear com as cores nipónicas, iniciando a redacção de uma das mais belas histórias do futebol de praia da última década.

A chegada de Ozu às fileiras do exército de Ruy Ramos traria outra estabilidade defensiva ao Japão, que juntava agora à organização táctica colectiva a força e disponibilidade física sem precedentes do seu novo elemento. O camisola 10 japonês, actuando como fixo, assumiria também a seu cargo a distribuição do jogo japonês, além de aparecer constantemente em zonas de finalização e tirar partido de uma facilidade de remate extraordinária. A chegada de Ozu foi fundamental num período de transição entre gerações da selecção japonesa e ajudou a potenciar o crescimento de novos valores como Oda, Matsuo e Matsuda. Em 2013, o 2º lugar no campeonato asiático após uma final muito renhida diante do Irão deixava entrever boas perspectivas, assim como uma participação bastante conseguida no Mundialito. Já no mundial do Taiti, o Japão faria uma fase de grupos muito consistente e cairia nos quartos de final aos pés do favorito Brasil, numa derrota por 4-3 com uma grande prestação de Moreira. A influência do número 10 na manobra da equipa nipónica foi tão expressiva que quase lhe daria o prémio de melhor jogador do mundo, o qual fugiu apenas para o astro brasileiro Bruno Xavier, então no auge da sua carreira.

Nos anos seguintes, a trajectória de crescimento do Japão continuaria, tendo a turma nipónica beneficiado também da chegada de novos pivôs: Goto e Akaguma. O primeiro foi durante muitos anos o jogador tecnicamente mais evoluído da equipa asiática, dotado de uma grande mobilidade e uma facilidade tremenda para armar a bicicleta, enquanto o segundo oferecia à formação nipónica a presença física na área adversária que a grande maioria dos jogadores japoneses não conseguia oferecer. Os dois, juntamente com Shusei Yamauchi, permitiam o fortalecimento de uma posição que permitia assim a criação de um sólido eixo vertical Ozu – pivô. O esquema era completado por um conjunto de alas rápidos e disciplinados (Oda, Matsuo, Haraguchi, Oba…), que ofereciam acutilância ao 3:1 japonês. Com o passar do tempo, o Japão foi também adaptando a sua forma de jogar às novas tendências do futebol de praia, transitando para um sistema 2:2 que permitisse tirar maior partido da presença de jogadores como Goto, Yamauchi e Akaguma na área adversária, mas nunca utilizou de forma insistente a saída do guarda-redes fora da sua área. Em vez disso, a organização passava muito pelos alas, em particular por Ozu, que continuava a realizar a quase totalidade dos 36 minutos das partidas.

Os anos foram passando e a regularidade das prestações nipónicas era evidente. Única equipa a par do Brasil que se apurou para todas as fases finais do mundial, o Japão era também presença assídua nos quartos de final do mundial, que repetiu em Espinho em 2015, caindo aos pés da Itália de Gori (3-2) numa partida de grande equilíbrio. A temporada de 2017 não terá sido a mais feliz, tendo em conta que a uma vitória retumbante sobre a Polónia de Saganowski (9-4) se seguiram derrotas frente a Taiti (4-3) e Brasil (9-3), ditando a eliminação precoce do país do sol nascente na fase de grupos. A equipa nipónica era então orientada por Marcelo Mendes e continuava a demonstrar sinais de um grande crescimento, mas seria novamente sob o comando de Ruy Ramos que o Japão recuperaria o título de campeão asiático, em 2019, e faria História ao lograr novamente o apuramento para a meia final de um mundial, em Assunção, em Dezembro de 2019.

No Paraguai, os nipónicos derrotaram a selecção da casa, venceram os EUA, deram uma lição de futebol de praia à Suíça e ultrapassaram o Uruguai rumo a uma meia final contra Portugal, numa autêntica batalha tropical jogada debaixo de chuva intensa que terminou com o triunfo lusitano nas grandes penalidades. Esta selecção nipónica, já muito idêntica à de hoje, acabaria por igualar o feito de 2005, classificando-se na 4ª posição da hierarquia global após a derrota com a Rússia no jogo para o 3º lugar, mas deixava entrever um futuro risonho para o futebol de praia do país. Mesmo sem contar com Takasuke Goto, o Japão manteve um nível exibicional altíssimo e contou com o talento de um Akaguma cada vez mais experiente e um Yamauchi endiabrado, assim como um Ozu magistral que arrebataria a Bola de Ouro no mundial. A trajectória de crescimento era clara, mas poderia o Japão chegar à decisão final?

2021: a confirmação

A resposta surgiria já em 2021, em plena era de pandemia covid-19. Após a saída de Ruy Ramos, Ozu Moreira assumiria o comando técnico da formação nipónica, mas mantinha-se em campo, sendo auxiliado pelo histórico ex-jogador Teruki Tabata. E a fórmula resultou com sucesso, já que o Japão de Ozu se sagrou vice-campeão mundial em Moscovo, ao perder apenas para a anfitriã Rússia. Pelo caminho, Paraguai, EUA, Taiti e Senegal foram vítimas da supremacia técnico-táctica japonesa. A prestação nipónica em Moscovo enviou uma mensagem clara, contradizendo críticos de todo o mundo que insistiam em considerar o Japão uma equipa de segunda linha, cujo sentido de organização colectiva supria as carências técnicas dos seus jogadores. Tal ideia não correspondia à verdade e foi desmentida de forma contundente quando o Japão vulgarizou completamente o Senegal, a equipa fisicamente mais forte do mundo que fora responsável pela eliminação do Brasil e co-responsável pela eliminação de Portugal.

Pelo contrário, o Japão vulgarizou os Leões de Teranga numa partida inteligente, desnorteando a defensiva africana por meio de movimentações coordenadas e combinações rápidas por parte dos seus jogadores, possíveis graças a uma técnica de classe mundial que resultou em golos de belo efeito e na construção de um resultado dilatado (5-2). Além dos jogadores já anteriormente destacados, que continuaram a sua trajectória de crescimento colectivo, também o guarda-redes Kawai se revelou uma peça funamental no triunfo nipónico no mundial de Moscovo, constituindo-se como uma autêntica muralha defensiva e desempenhando de forma exímia as funções de distribuição de jogo que lhe foram incumbidas.

Ao Japão, falta apenas ultrapassar o enguiço para vencer a Rússia, algo que ainda não aconteceu em toda a História do futebol de praia. No entanto, tal não belisca em nada os feitos alcançados pela turma nipónica, a qual se afirma actualmente como uma das grandes superpotências mundiais ao lado de nomes como Rússia, Portugal e Brasil. Vale a pena relembrar o trajecto da equipa japonesa ao longo dos últimos 16 anos e reconhecer que o trabalho sério, com investimento numa liga competitiva e criação de condições de trabalho de excelência para os profissionais da modalidade, não pode deixar de dar frutos, mais cedo ou mais tarde.


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