Eddie Jones e RFU: justifica-se a renovação do projecto?

Francisco IsaacDezembro 17, 20207min0

Eddie Jones e RFU: justifica-se a renovação do projecto?

Francisco IsaacDezembro 17, 20207min0
Primeiro uma renovação até 2021 e, agora, até 2023 oferecendo assim uma extensão do projecto iniciado em 2016 por Eddie Jones. Mas justifica-se esta ligação entre o australiano e a RFU? Os motivos pelo "sim" explicados pelo Fair Play

Steve Hansen, Warren Gatland, Joe Schmidt, Michael Cheika, Rassie Erasmus (em certa medida), Jacques Brunel… o que é que todos têm em comum? Abandonaram o cargo de seleccionadores após o apito final do Mundial de Rugby 2019, encerrando os ciclos de projectos (no caso de Brunel a intenção nem era essa) para abrir espaço para uma nova era em cada uma dessas nações. Contudo, houve um nome que manteve o cargo mais importante na estrutura técnica de uma selecção, com Eddie Jones a inicialmente assinar uma renovação até ao ano de 2021 e, agora, até após o término do próximo Rugby World Cup. Ao jeito de Warren Gatland, Joe Schmidt ou Steve Hansen, Eddie Jones terá a oportunidade de permanecer o líder máximo de uma das selecções de topo durante 8 anos consecutivos, um feito no mínimo extraordinário, ainda por mais quando se trata da Inglaterra.

Mas há explicação lógica para esta renovação? Valerá Eddie Jones o esforço orçamental? Observando os méritos desportivos e depois os estruturais, é fácil perceber que australiano merece sem dúvida alguma esta extensão de contrato, uma vez que o projecto e revolução iniciada em 2016 tem vindo a dar frutos. Para quem já se esqueceu, a Inglaterra foi banalizada durante dois mundiais consecutivos (2011 e 2015), com a eliminação precoce nos quartos-de-final em 2011 na Nova Zelândia e a não passagem da fase-de-grupos em 2015, num evento por si organizado acrescentando insult to injury. A somarem-se a estas penosas campanhas na prova mais importante do Mundo do Rugby, a Rosa conquistou apenas uma Seis Nações entre 2004 e 2015, agudizando os problemas internos da RFU, para além de alimentar uma instabilidade a nível de planeamento do projecto da selecção inglesa, sem esquecer o facto de que os adversários da Inglaterra começaram a perder algum respeito quando entravam dentro de campo.

Quando Eddie Jones aceita o cargo de liderar uma das selecções mais emblemáticas de todo o sempre do rugby a confiança era nula, o espírito era nocivo a uma reviravolta total em que uma série de jogadores estavam praticamente descartados de alguma vez mais vestir a camisola da Inglaterra. Ou seja, o novo seleccionador teria não só o papel imediato de garantir resultados positivos, como de projectar uma estrutura vencedora, inovadora e essencialmente líder no contexto europeu e mundial, repondo a Selecção de Sua Majestade num patamar que não era seu desde 2010.

Por isso, resultados imediatos foram atingidos? O projecto é minimamente não só atractivo mas também estável e promissor? Em termos de vitórias/derrotas, Eddie Jones garantiu 47 vitórias em 59 jogos possíveis, o que lhe garante um rácio de 80% de resultados positivos, apresentando uma percentagem melhor que Rassie Erasmus, Joe Schmidt ou Warren Gatland, seleccionadores que ocupam um lugar de grandiosidade no hall of fame do rugby como técnicos. Se a questão do número de vitórias/derrotas e percentagem não é significativa para alguns leitores, então e troféus?

A Inglaterra conquistou três Seis Nações (2016 em forma de Grand Slam), três Triple Crowns, um vice-campeonato Mundial (2º melhor resultado atingido na história do rugby inglês em Campeonatos do Mundo, em pé de igualdade com a ida à final do Mundial de 2007, igualmente perdida para a África do Sul), uma Autumn Nations Cup, vários troféus nas Series quer de Verão ou Outono, para além de ter assumido o 1º lugar do ranking mundial durante algumas semanas em 2019. Ou seja, a Inglaterra passou de uma selecção altamente esquizofrénica em termos de resultados para uma nação extremamente competente, com um apetite voraz por conquistar vitórias e assumir um domínio de jogo asfixiante e que arrancava aplausos dos seus fãs e apupos e uma constante irritação dos seus adversários.

Rosa em 2019 foi definitivamente uma das três selecções dominantes no contexto internacional, ocupando esse pódio com a África do Sul (não sendo uma selecção apaixonada pela palavra estabilidade, é inegável o quão compactos são na defesa e incisivos em garantir pontos no ataque) e Nova Zelândia (de longe a selecção mais dominadora da Era Profissional e que nos últimos 10 anos praticamente não deu hipóteses aos seus adversários), sendo motivo de contínua análise e interesse da parte de técnicos profissionais e amadores.

O rugby pode não ser o mais vibrante e artístico possível, mas é impossível dizer que um jogo da Inglaterra não enche as medidas e motiva o espectador a marcar a hora e dia de jogo no calendário mental, de forma a não perder mais uma exibição galopante e agressivamente dura na placagem e no sistema de manípulos defensivos… ou que nem seja para puxar pelo adversário da Rosa.

Esse é outro elemento que foi reconquistado por Eddie Jones e a sua imensa equipa técnica (renovada agora em 2019, a maioria dos treinadores que estavam consigo na estrutura de 2016 estão agora como chefes máximo de equipas da Premiership, caso de Paul Gustard ou Steve Borthwick), o da Inglaterra ser profundamente odiada e “detestada”, com os seus rivais – sejam adeptos ou protagonistas – a criticarem a arrogância, a agressividade e a personalidade que os jogadores ingleses impõem desde o 1º minuto que jogam. Pode ser criticável a forma como Maro Itoje, Kyle Sinckler, Owen Farrell, Manu Tuilagi, Mako Vunipola ou Sam Underhill observam, analisam, actuam para com os jogadores adversários, mas é um elemento que pode desequilibrar mentalmente quem está do outro lado, dando um injeção de confiança a quem enverga aquela camisola branca com a rosa cozida ao peito.

Eddie Jones então muniu a Inglaterra de apontamentos mentais estruturalmente decisivos para a revitalização da Inglaterra, construiu um sistema de jogo que encaixa na forma de estar e jogar do rugby inglês projectando algumas novidades como na saída ao jogo ao pé e no rápido desdobrar do contra-ataque e formulou um projecto imensamente invejável que não acabava no Mundial de 2019, mas sim num futuro sem data anunciada, de forma a meter a Rosa como a nação dominante do Planeta da Oval. A Inglaterra passou de um grupo de jogadores fustigados por maus resultados e exibições cinzentas, para uma nação ameaçadora, ambiciosa e que já realizou algumas das exibições mais memoráveis da sua história ou, pelo menos, nos últimos 40 anos.

Não esquecer que foi com Eddie Jones que se viu a maior taxa de estreias pela Inglaterra, lançando uma vaga de novos jogadores que prometem vir a ser alguns dos maiores nomes da história do rugby inglês, caso de Maro Itoje, Sam Underhill, Kyle Sinckler ou Tom Curry. A verdade é que já vão mais de 50 estreantes no espaço de 4 anos e essa vontade de abrir o maior palco da modalidade que não é supostamente não é para todos, permitiu fornecer “ferramentas” para o crescimento acentuado que se vem a sentir nos últimos quatro anos – não significa que outros jogadores, como os irmãos Simmonds, não mereçam a atenção da Inglaterra, quando o mereciam.

A renovação não é só aceitável mas como fulcral para que a Inglaterra nunca mais – ou nos próximos 20 anos – volte a ser atirada para um patamar exibicional e de respeito inferior, como aconteceu entre 2009 e 2015. Claro que existem críticas ao trabalho de Eddie Jones que minaram certos momentos, como alguns mind games menos conseguidos – é um risco, mas faz parte do desporto – ou as decisões controversas tácticas que acabaram por desequilibrar a Rosa quando não devia (na final do Mundial, Eddie Jones admitiu que podia ter escolhido dois ou três jogadores para começar, tendo também confirmado que não colocou o seu melhor XV desde o 1º minuto), mas no overrall o que foi alcançado ascende largamente o grau de satisfatório e tem de ser admitido como um largo sucesso o que treinador nascido nas antípodas foi capaz de construir e conseguir pela Inglaterra.


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