Balanço de 2025 e desejos para 2026 no basquete feminino
O panorama do basquete feminino permanece com muitas continuidades em relação ao ano recém terminado. 2025 chegou ao fim indicando os caminhos para 2026: adentramos no segundo ano do ciclo olímpico rumo a Los Angeles, quando será disputado o Campeonato Mundial de seleções, em setembro na Alemanha. Antes, porém, teremos paradas em 4 sedes para os pré-mundiais, que fecharão a lista de participantes do Mundial.
Os países que seguem com sonho de chegar ao Mundial foram divididos em quatro grupos, com 6 seleções em cada, oriundos dos torneios regionais (Afrobasket, Eurobasket, Asia Cup e Americup). Com mais vagas disponíveis que no ciclo anterior, poucas foram as surpresas nos continentais. Em março, em Wuhan (China), as anfitriãs não devem encontrar resistência e juntar-se à Bélgica, campeã europeia e já classificada. A China é a atual vice-campeã mundial e, a despeito da campanha ruim em Paris, mantem a base exitosa – com o acréscimo de jovens valores de muito valor, como a ala Yang Shuyu e a pivô Zhang Ziyu (sensação devido aos seus incríveis 220 cm). Sobram 2 vagas em disputa por 4 seleções.
Tchéquia e Brasil contam com o peso da tradição, contra as seleções inexperientes no cenário internacional vindas do continente africano, Mali e Sudão do Sul. Absolutamente tudo pode acontecer nesse bolo. As tchecas possuem compostura que falta às demais, compensando o déficit de atleticismo e vigor; Mali cresce a cada ano e possui elenco versátil, com experiência nas grandes ligas da Europa. As sudanesas do sul almejam ampliar a história de cinderela – uma das principais histórias do basquete feminino em 2025.
Uma seleção montada na diáspora, de um país crivado por guerras civis, conseguiu chegar ao pré-mundial, devido à medalha de bronze em sua estreia no Afrobasket. A rotação é diminuta, a equipe carece de mais consistência tática, mas pode surpreender. Formada por atletas ágeis e com envergadura, a equipe deve incomodar, principalmente equipes pouco consistentes e intensas como o Brasil.
A seleção canarinha lutará contra uma desestruturação profunda do circuito de base e de formação de novas atletas. Os resultados são sentidos a alguns ciclos, sem grandes reações da CBB (Confederação Brasileira de Basquete). Assim, a técnica contratada Pokey Chatman concentra todas as esperanças em retornar ao circuito mundial; um dos poucos acertos da CBB, Chatman conseguiu extrair o melhor de nossas estrelas na Americup. Pouco para o Mundial: a técnica precisa de mais tempo de treinamento com o elenco completo, com objetivo de inserir as jogadoras da LBF na seleção. Na Americup, ficou evidente o desnível entre nossas estrelas Damiris Dantas e Kamilla Cardoso e o resto do elenco.

Em Lyon-Villeurbanne (França), cenário similar: a França deve classificar sem qualquer dificuldade, unindo-se à Alemanha (classificada por sediar o Mundial) e à Nigéria (campeã africana). A vaga derradeira ficará entre Coréia do Sul, Colômbia e Filipinas. Em San Juan (Porto Rico), estarão Estados Unidos (classificado), Espanha, Itália, Senegal, Porto Rico e Nova Zelândia (a última vaga deve ser concorrida entre as últimas três). Em Istambul (Turquia), a Argentina destoa do restante do grupo; Hungria e Turquia não vêm de bons resultados internacionais mas possuem tradição e elencos rodados. Austrália (campeã da Asia Cup), Canadá e Japão completam o grupo mais equilibrado.
Se podemos sonhar, seria pelo fim da hegemonia estadunidense. A última derrota data do longínquo 2006 – já é hora de alguém quebrar essa sina. A federação estadunidense confirmou a permanência de Kara Lawson como técnica no Mundial. A seleção, como sempre, deve se juntar em cima da hora, às vésperas da estreia, devido à sobreposição do calendário Fiba com a WNBA.
Outro fator que pode pesar contra os EUA é a batalha interna que a associação de jogadoras vem travando com a liga, nas negociações do novo Acordo (CBA – Collective Bargaining Agreement). Outra vereda visível em 2025, a disputa torna-se cada vez mais acirrada: de um lado, os proprietários querem manter a diminuta participação das jogadoras nos lucros, lançando mão de mentiras deslavadas na grande mídia; do outro, as jogadoras, cada vez mais experimentadas em organização de torneios, que querem ver seu trabalho reconhecido – com maior participação na receita.

A liga cresce a olhos vistos, os proprietários da NBA duelam entre si pelas franquias novas na WNBA e, ainda assim, mantem a cantilena de que a liga não gera lucro. Felizmente, depararam-se com um sindicato bem organizado, bem assessorado e disposto à luta. Os entraves ameaçam a temporada 2026 e podem impactar a seleção no Mundial.
Caso haja temporada na WNBA, difícil qualquer prognóstico. O Las Vegas Aces faturou o terceiro título, em uma arrancada final surpreendente, após iniciar 2025 com muitas derrotas e um basquete pobre. Becky Hammon mexeu no elenco, alterou seu quinteto titular e sua rotação e A’ja Wilson retornou ao nível surreal. New York Liberty e Minnesota Lynx seguem no primeiro escalão, mas a verdade é que a liga passa por muitas mudanças. Duas novas franquias estrearão e, na expectativa do novo Acordo e de aumento dos salários, praticamente não há contratos fechados. Toda a liga (exceto aquelas em contrato de calouras) espera o Acordo para definir seu futuro.
Ainda nos Estados Unidos, a Unrivaled está em sua segunda temporada. O torneio de 3×3, comandado por Napheesa Collier e Breanna Stewart, ocupa a primeira parte do ano, em concomitância ao circuito universitário, onde Uconn retomou a coroa após quase uma década sem título. Paige Bueckers formou-se, porém Sarah Strong e Azzi Fudd mantem o nível nas alturas, contando com um elenco de apoio ainda em formação e com muito potencial. South Carolina não repete a mesma força de anos recentes, apesar de ser uma das principais rivais de Uconn, junto com suas companheiras de conferência, Texas e LSU. Ainda assim, a distância para Uconn é gigante.
A Unrivaled e o mercado chinês varreram o mercado, deixando para a Euroliga as estrelas do continente e raros destaques da WNBA. O grande favorito à Euroliga, o turco Fenerbahçe, montou seu elenco com duas excelentes role players da WNBA, somadas a destaques da Europa e uma base de atletas turcas para fechar o elenco. A disparidade financeira berra na Europa e ninguém, chega perto do Fenerbahçe, que tenta retomar o título após a inesperada derrota na semi em 2025. Será preciso um time muito bem treinado, como era o USK Praga no ano passado (no melhor jogo do basquete feminino na temporada), para repetir o feito; desta vez, a lendária técnica Natalja Hejkova se aposentou e a temporada segue sem um grande rival.

Por fim, seguimos sem grande expectativa em relação à LBF (Liga de Basquete Feminino). A liga brasileira saiu do buraco financeiro devido ao patrocínio do banco estatal, mas não consegue estabilizar os participantes. O cenário no Brasil é assustador; sequer temos esperanças de jovens despontarem devido à corrosão da base. Para termos uma idéia, o Brasil consegui a proeza de perder para o Paraguai na base em 2025 e ficar fora da Americup da categoria. Qualquer avanço na LBF será bem-vindo.



