Travessia Integral da Serra de Montemuro – 7 pecados mortais

Fair PlayFevereiro 11, 20198min0

Travessia Integral da Serra de Montemuro – 7 pecados mortais

Fair PlayFevereiro 11, 20198min0
A serra de Montemuro foi palco da primeira edição da Travessia Integral da Serra de Montumuro nos dias 9 e 10 de Fevereiro. O Fair Play esteve lá

A serra de Montemuro figurou no calendário de provas de trail running de 2019 com a sua primeira travessia integral no fim-de-semana de 9 e 10 de Fevereiro. Uma ultra maratona de 110 km e a prova curta de 23 km eram as ementas servidas a partir de Cinfães. O editor de natação do Fair Play, João Bastos, esteve lá e conta na primeira pessoa todas as incidências da prova curta.


Depois da estreia numa prova de trail, no Louzantrail, a segunda foi a versão curta da Travessia Integral da Serra de Montemuro, uma prova mais curta – 23 km em oposição aos 29 km da Lousã – e com menos desnível positivo – 1200 vs 2100 – e daqui nasceu o pecado original e o que se viria a revelar o mais mortal de todos, a soberba de achar que lá porque tinha feito o Louzan, esta prova seria um passeio no parque chuvoso de Cinfães.

Este foi apenas o primeiro dos meus pecados mortais na abordagem a esta prova, mas houve mais…tantos que se fosse um gato, as sete vidas não me restavam.

Mas antes disso, retrocedamos ao dia anterior à prova para fazer referência àquela estóica gente que enfrentou os 110 km de distância do TISM. 66 super atletas, de entre os quais 3 amigos, o Flip, o Alex e o Boss. Como não vos consigo descrever a brutalidade de uma prova com esta distância, este desnível, esta lama, este nevoeiro e este frio, convido-vos a espreitar o blog do Flip (Quarenta e Dois) onde ele explica como é possível fazer-se uma prova de corrida em montanha com mais de 100 km…pela 14ª vez!

Com os três em prova, eu, o Rodrigo e o Pedro constituímos o piquete de apoio. Foi nesta condição que cometi o segundo pecado mortal consubstanciado numa bela posta arouquesa na Encosta do Moinho. Apesar de tudo, o cometimento da gula neste contexto nem foi muito grave, primeiro porque a posta estava – e parafraseando o mais conhecido crítico gastronómico da nossa praça – um espectáculo e depois porque a travessia era integral, logo não engordava.

Right?? | Foto: Arquivo Pessoal

Finda a prova dos 110 km, foi a vez de arrancar para os 23 km, no domingo às 10 horas. 4 km passaram rapidamente e, apesar de uma ligeira má disposição (nada relacionada com o parágrafo anterior), sentia que estava capaz de fazer uma boa prova.

Chovia com pouca intensidade, o que, por si só não era problema, mas lá à frente iria dificultar um terreno enlameado já antes da chuva. Lá à frente se veria…e não foi muito à frente. Aos 5 km, primeira dificuldade com uma escalada de barro onde o recurso aos braços foi mais frequente do que às pernas. Aqui preferi ser avarento no esforço e esperar que as 4 ou 5 pessoas que constituíam o meu grupo ultrapassassem essa subida e mais à frente a escorregadia descida onde era possível praticar um pouco de ski com a pequena contrapartida de se poder cair para um morro com uma altura bastante considerável.

Depois deste intróito, o prato principal estava prestes a ser servido. Era dos 8 aos 13 km que se situava o troço mais complicado da prova com uma subida ininterrupta e irregular. Era a altura de aplicar as minhas economias de esforço que tinha guardado nos km anteriores. E o plano estava a resultar. Comecei a ultrapassar alguns companheiros e, apesar de não ir folgado de forças, pensei que se a subida se mantivesse assim ultrapassá-la-ia sem que ela me provocasse mazelas de maior. Só que não manteve.

Chegado aos 10 km ergue-se diante mim uma autêntica parede. Um segmento que não tinha mais de 50 metros mas que eu não estava a conseguir sequer imaginar como o iria ultrapassar. Tinha de traçar um plano, isto quando os companheiros que tinha ultrapassado até ali voltavam a passar por mim e, com maior ou menor dificuldade, iam ultrapassando a parede. Tive muita inveja deles.

O final da Parede…aqui já é a chegar a Cascais… | Foto: Facebook Travessia Integral da Serra de Montemuro

Voltei costas à parede e nas minhas cogitações a estratégia estava definida: candidatava-me à presidência da Câmara Municipal de Cinfães, ganhava, e a primeira e única medida que tomava era mandar terraplanar aquele bocado de terra…depois então passaria.

O plano era bom, não fossem as autárquicas ocorrer em 2021 e haver um tempo limite de 10 horas para concluir a prova.

Lá tive de meter literalmente mãos à obra e gatinhar por aquela subida acima. Assim que volto a adoptar a posição de homo erectus soaram as sete trombetas do apocalipse. Estava com cãibras em ambos os quadríceps e ainda tinha 3 km de subida pela frente. Com cerca de uma hora e quarenta e cinco de prova, estava na altura de ser luxurioso: comi uma barra de sal, meti um gel, bebi isotónico e meio litro de água e os danos foram controlados. Era impensável voltar a conseguir correr naqueles 3 km e o pensamento dominante era ficar no abastecimento de Marcelim aos 12,5 km, mas já imaginaram o quanto eu ia ser gozado pelos meus amigos dos 110 km quando lhes dissesse que tive de parar aos 12?

Quando a nuvem da desistência se começava a dissipar, eis que, a 200 metros do abastecimento, saio de um trilho, olho em frente e tenho uma vaca a encarar-me, preparada para investir (confiem em mim que sou zootécnico…a bastarda ia mesmo investir). No final daquele calvário, a machadada final vinha com cornos. Lá vinha a besta negra a correr para mim, até que a 2 metros de distância deve ter percebido que sou ribatejano e desviou-se (desculpem não vos conseguir dar um final de história com maior grau de comicidade).

Imagem meramente ilustrativa | Foto: Facebook Travessia Integral da Serra de Montemuro

Depois da adrenalina da vaca (it’s a thing) e do chá do abastecimento, sentia-me capaz de continuar. O pior já tinha passado e tinha pela frente 2,5 km de descida suave, ideais para os cuidados paliativos que necessitava antes de atacar a última subida aos 15 km.

Por esta altura não estava muito preocupado com mais nada, se não chegar ao fim (até porque já não tinha outro remédio). O pior foi mesmo que assim que o terreno voltou a subir, as cãibras voltaram e em força. Agora mais massacrantes na perna direita onde o quadrícepe e o adutor estavam a sair do sítio à vez. Mais uma paragem para ingerir tudo o que ainda tinha para ingerir, mas desta vez não estava a resolver como da primeira. Fazia-me falta uma vaca (quem nunca?).

Até aos 17,5 km a subida foi feita a coxear, uma subida que noutras circunstâncias facilmente faria toda a correr, o que me estava a provocar uma tremenda ira porque, de facto, esta era uma prova que, exceptuando do km 7 ao km 12, daria para ser bem rápida.

Depois desta última dificuldade a prova estava feita, era em descida ligeira até à E,B 2, 3 de Cinfães. Depois de um km a andar para os músculos se acomodarem, lá me aventurei a fazer algo parecido com correr. E lá fui indo até à meta onde estava o pessoal todo à espera, uma hora depois do Rodrigo ter arrancado um excelente 10º lugar, ali chegava eu ao ponto de partida, volvidas 4 horas.

E agora perguntam vocês: “então e a preguiça?”. Bom, a preguiça veio na 2ª feira para tentar sair da cama depois desta sova.

A conclusão óbvia depois deste relato devia ser que vim de Montemuro traumatizado, que a prova foi um suplício físico e mental e que tão cedo não me meteria noutra destas, mas o trail tem destas coisas: mesmo correndo tudo mal, fica tudo bem, fica, fica, fica tudo bem e no final de contas foi um fim-de-semana do caraças!

Aqui fica a actividade no Strava

Os restos mortais de um pecador | Foto: Filipe Torres

* Foto de capa: Susana Luzir


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