Super Liga Europeia: o espelho da irresponsabilidade e desigualdade

Francisco IsaacAbril 20, 202115min0

Super Liga Europeia: o espelho da irresponsabilidade e desigualdade

Francisco IsaacAbril 20, 202115min0
A UEFA e 12 clubes estão a ferro-e-fogo devido à Super Liga Europeia que abre caminho para um cenário de desigualdade sem precedentes. Qual o futuro do futebol europeu?

Equidade e igualdade, conceitos que complementam-se e que significam, acima de tudo, um avanço claro nas sociedades e civilizações actuais, moldando um futuro para todos, independentemente da sua origem humana, financeira e religiosa – sem extremismos, claro. A revolução da Super Liga Europeia é um xeque-mate completo a estes dois conceitos, numa atitude de tentar centrar todas as grandes atenções desportivas em 12/15 clubes de craveira europeia, numa tentativa de também maniatar as instituições que regem o futebol europeu, tornando-se assim donos e senhores incontestados do Desporto-Rei do Velho Continente.

OS ACHISMOS E A FALTA DE SOLIDARIEDADE

Para quem não vê qualquer problema nesta cisão desportiva europeia, e sinta que os mais fortes ou aqueles com mais poder merecem ganhar mais e ter outro tipo de atenção e lucro, basta pensar no seguinte exemplo histórico (há vários): a comunidade colona inglesa e, na sequência, os afrikaans dominou a África do Sul durante mais de dois séculos (os boers estão na origem dos afrikaans) e mesmo sendo a minoria, como detinham o poder económico sentiam-se no direito de deter todo o poder político, administrativo e legislativo, promovendo assim uma ditadura total.

O bastião da elite promoveu a desigualdade, fazendo uso de argumentos como o de terem investido naquele território, de terem mais capacidades para fazer melhor uso dos recursos naturais e artificiais e que sendo, supostamente, mais competentes deveriam ser eles os júris, juiz e carrasco do futuro da África do Sul. A isto se chamou a apartheid, um período de domínio racial de uma minoria abastada sobre a maioria; a isto se adjectiva da inexistência quer dos elementos de equidade e igualdade, ou de que todos uns detinham as mesmas oportunidades de vida. O achar que deter o poder económico determina todo o caminho de uma massa colectiva, é o caminho directo para a supremacia económica, racial ou religiosa, que cria conflitos, disputas e guerras de uma escala titânica.

Para quem ache que isto “é só futebol”, desengane-se dessa afirmação pois toda esta acção da Super Liga Europeia ataca precisamente a vida de vários milhares de pessoas centenas de instituições e entidades, que vivem desta prática desportiva e económica profissional, semiprofissional e amadora. O relegar de importância porque se trata de uma modalidade desportiva é um erro tão complicado como o achar que a igualdade e equidade não se aplicam neste universo, quando esta situação afectará pesadamente o sistema do futebol seja ele o masculino ou feminino.

Igualmente, para aqueles que dizem “Mas a Liga dos Campeões e a Liga Europa continuam a existir, qual é o problema?” é o facto de que ao existir uma nova competição rival e com o olhar posto em tirar a importância da Liga dos Campeões para a Super Liga Europeia, desvaloriza-se o futebol como um todo. Isto significa que, nem os que estão numa competição nem os da outra acabam por sair a ganhar e a longo-prazo comecem a sentir problemas de ausência competitiva e de abertura de oportunidades a todos, mesmo a clubes que não tenham 5% do orçamento de um FC Barcelona ou Manchester United.

O produto da Super Liga Europa fica tingido pelas cores do elitismo, arrogância económica e de concordância com a existência de um cenário do “primeiro nós e, depois, eles”, enquanto o das provas da UEFA ressente-se da ausência daqueles 10 clubes que são marcas fortes do futebol desportivo europeu, tirando-se da equação o Tottenham Hotsupr FC e FC Arsenal, clubes que por uma razão ou outra não podem ser vistos como titãs ou gigantes (o mesmo poderia e poderá ser dito do Manchester City e Atlético de Madrid).

Contudo, enquanto a UEFA tem o apoio dos restantes emblemas europeus todos, que ultrapassam quase um milhar de clubes, os membros da Super Liga Europeia só têm a si próprios como rede de segurança, esperando que a JP Morgan seja sempre o seu padrinho nos momentos positivos e negativos, intervindo sempre que necessário. Este é um dos perigos da dependência completa de um só mega investidor, transformando-se em autênticas marionetes de um banco de proporções anormais (partilha parte da culpa pela recessão de meados da primeira década do Século XXI, tendo dado carta-branca a Bernie Madoff e aos investimentos que o recém-falecido economista realizou ou ajudou a realizar), ficando a viver sob um sol que brilha de forma intensa, mas com grande possibilidade de queimar o receptor.

A FUGA ÀS RESPONSABILIDADES E A PERPETUAÇÃO DA GESTÃO DANOSA

Acima de tudo, o oferecer de 400M€ pela entrada a cada um dos 12 clubes fundadores da Super Liga Europeia deve ser entendido como uma espécie de bailout, seja ele financeiro ou desportivo. O caso do FC Barcelona é um exemplo claro de necessidade de rapidamente garantir fundos para resolver os problemas económicos gerados por anos de má gestão da administração, colocando assim um ponto final na novela com Lionel Messi e, por outro lado, garantir fundo de maneio para reestruturar a equipa principal. Já o Arsenal FC, apesar de ter as finanças em boa situação, a gestão desportiva tem sido ruinosa a todos os níveis, tendo acabado longe dos primeiros dois lugares nos últimos quatro anos, com uma lista longa de treinadores demitidos, diversos negócios mal concebidos e um plantel longe dos tempos áureos dos anos 90 e início de 2000.

A ida de ambos para a Super Liga Europeia é como um fugir às responsabilidades das más gestões económicas e desportivas, esquivando-se das consequências dessas acções negativas e censuráveis, fazendo as suas direcções uso da sua marca e história. Isto significa que a atitude de desresponsabilização e incompetência administrativa não é só admissível como premiada com ano após anos de jogos altamente vendáveis ao público não-afecto aos clubes, pondo fim ao “fantasma” de poderem ficar de fora da Liga dos Campeões ou de qualquer competição europeia devido à sua prestação negativa na liga interna.

Voltando ao caso dos blaugrana, lembrar que entre 2000 e 2003 viveram anos sem conquistar qualquer título interno ou europeu, abriram um buraco financeiro e orçamental profundo e viviam numa inconstância administrativa sem igual, que só acalmou com a chegada de Joan Laporta, que acabou por ser uma das chaves dos sucesso do Barcelona, a par de Frank Rijkaard e Pep Guardiola. Foi só através de uma travessia de quatro épocas sem somar qualquer título e de perderem protagonismo a nível local, europeu e mundial, que houve espaço para uma reestruturação e mudança de rumo, para depois retornar aos títulos e hegemonia nas provas da UEFA.

Por si, isto também implica que os campeonatos nacionais percam importância na luta pelo título nacional, uma vez que o dinheiro e poder está supostamente residido naquele conclave desta elite da Super Liga Europeia, retirando também poder de decisão às federações e organismos que tutelam a actividade desportiva, onde se inclui o futebol.

Para os defensores da posição de que a Premier League é só Premier League devido à existência e dimensão dos 6 cofundadores da Super Liga Europeia, então porque não ver pela perspectiva de que Manchester United, Arsenal FC, Chelsea FC, Manchester City, Tottenham Hotspur FC e FC Liverpool só atingiram esta dimensão devido ao crescimento e sustentabilidade da liga inglesa? Os dois lados completam a mesma moeda e, infelizmente, os clubes querem que deixar de coexistir no mesmo nível de igualdade para passarem a ser eles a fazer girar a tal moeda.

A somar à destruição dos princípios da equidade e igualdade, soma-se assim a desresponsabilização nos erros cometidos e a má gestão, mostrando que claramente esta nata do futebol europeu não obedece a valores minimamente aceitáveis e que ultrapassa mesmo o pior lado do sistema económico actual. O rasgar de contratos e acordos, como foi mostrado pelo presidente da UEFA, prova essa posição de uma dúzia de emblemas que não aceitam ter de partilhar o palco com os restantes, ou daqueles que de acordo com a sua visão nada fizeram para chegar à fase-de-grupos ou eliminatória das competições europeias, querendo forçar um elitismo desportivo doente e que se assemelha ao conclave de monarquias absolutas dos séculos XVI-XVIII, detentoras de um poder que cria desigualdade e diferenciamento de tratamento.

O mérito desportivo não tem lugar nesta Super Liga Europeia e essa a mensagem que os 12 “pais-fundadores” desejam passar aos seus pares, de que o mérito não pode ser o primeiro elemento a ditar o apuramento (colocação na classificação das ligas nacionais), mas sim que há que ter em conta o poderio económico ou de marca, submetendo assim uma ideia que governou em países como os Estados Unidos da América ou Reino Unido, de que todos são cidadãos mas só uma parte teria os direitos máximos e proteção total do Estado, enquanto os outros devido à sua situação racial ou humana teriam de aguardar a sua vez, no fim do autocarro ou da fila preferivelmente.

A comparação com a desigualdade racial e étnica vivida durante largas décadas nos séculos passados (e que ainda perdura em alguns sítios nos dias de hoje, continuando a ser uma das batalhas actuais de tudo e todos) é suficiente para explicar o posicionamento de umas quantas entidades desportivas que não vêm meios para atingir os fins desejados, de assegurar um lucro desproporcional com a realidade e de serem eles mesmos a ditar regras e leis para os restantes.

A UEFA, OS GRANDES, OS PEQUENOS E OS OUTROS

A UEFA é parte do problema, não há dúvidas, uma vez que foram e são os clubes que fazem a UEFA e vice-versa, tendo transformado a instituição europeia num empecilho para o progresso durante um período de tempo, para depois vagarosamente abrir a cortina aos restantes, mas desde que o poder não fugisse a quem estava no topo. Contudo, a UEFA de Aleksander Ceferin tem se vindo a transformar radicalmente e a escapar do controlo dos maiores emblemas de topo, já não sendo eles os únicos a ser ouvidos na hora de formatar competições, de reformular leis de transferência e de mercado ou em outras questões, tendo instalado uma democracia plena, ainda que algo instável e, por vezes, doente, no futebol europeu.

Ninguém pode censurar o futebol-negócio uma vez que trouxe largas melhorias para os seus artistas, desenvolvendo mecanismos positivos para o profissionalismo, oferecendo oportunidades de carreira, etc, sem deixar de lembrar que também surgiram várias situações negativas de falhas de pagamento, mercantilização excessiva dos activos e um abuso de poder por quem se sente no direito de governar a vida de outrem. O que esta Super Liga Europeia tenta impor é algo que extravasa os limites do exequível e da procura de melhorar o negócio, é o simples aumentar do lucro pelo lucro para só uma minoria muito reduzida de intervenientes, que não aceitam o criar de equilíbrios entre ou dentro das ligas e competições nacionais e europeias, preferindo reduzir e serem eles a se governar.

O próprio anúncio do início da mudança para a Super Liga Europeia chegou pelo silêncio da noite de Domingo de 19 de Abril, numa clara demonstração de má vontade e de intenções nada positivas, que também veio com a intenção de menosprezar e menorizar as mudanças a serem anunciadas poucas horas depois pela UEFA em relação às competições europeias. Isto é a prova clara da tentativa de usurpar poderes não só à instância mais alta do futebol europeu, como de ombrear com as federações locais pelo poder de decisão e de mostrar que o poder quer económico ou de marketing devem ostentar no topo e, em contrapartida, o mérito desportivo não ter o mesmo peso, principalmente quando um clube menos conhecido ou com com menor orçamento consiga fazer o improvável, quer local ou internacionalmente.

Portanto, apoiar ou dar permissão ao surgimento prático desta Super Liga Europeia é dar força a uma supremacia económica nociva para o democratizar no futebol, no criar de uma balança equilibrada e de dar méritos e fundos a todas as ligas, mesmo as que detêm um impacto menor no crescimento total do futebol europeu.

Gostando-se ou não da gestão da UEFA ou FIFA nos últimos 30 anos, a verdade é que as principais competições têm aumentado o número de vagas, o futebol tem se expandido em larga escala, independentemente do género, e continua a aumentar o número de atletas federados quer na formação ou nos séniores, e estes avanços devem-se aos esforços destas duas instituições, das federações, dos clubes de primeiras, segundas e terceiras ligas, e os restantes emblemas nacionais, regionais ou distritais. Noutro ponto, ouvir comentadores e “jornalistas” desportivos a postular que a UEFA e FIFA não têm soluções e não podem impor sanções ou decisões como expulsão da Liga dos Campeões, etc, é no mínimo estranho, uma vez que ambas as instituições sabem as suas competências e detêm anos de experiência em lidar com este tipo de problemas e questões. Não é possível crer na ingenuidade ou falta de capacidade legal, jurídica, económica e política quer da UEFA, FIFA, Comissão Europeia (na pasta do desporto) e restantes federações, e achar que estes 12 emblemas detêm um poder superior perante qualquer outra instituição, o que é um pensamento não só errado como revela também alguma toxicidade apocalíptica.

O exemplo do que aconteceu com a FIBA e a EuroLeague no basquetebol é algo que poderá ajudar a UEFA e os restantes, porque essa situação gerou-se no início dos anos 2000 (1999) numa altura em que o direito desportivo a nível da União Europeia ainda estava nos seus inícios ou não tão preparada para a super revolução económica desportiva e para a entrada de investidores de alta dimensão mundial.

O mesmo pode ser replicado nas Seis Nações, evento do rugby europeu, que não tem descidas de divisão, pois o modelo competitivo foi montado neste sistema e cada federação detém uma percentagem do investimento, sendo não um Campeonato da Europa, mas sim uma liga privada e gerenciada quer por administradores não afectos à Rugby Europa (a UEFA do rugby) e pelas federações locais. As leis no entretanto endureceram, o sistema legal desportivo ganhou outras proporções e as federações europeias detêm uma quota do poder para permitir ou não o funcionamento total dos clubes, sendo isto um claro início de desafio entre todos os lados.

O que os 12 membros da Super Liga Europeia desejam impor é uma diferença total entre uns e outros, de criar uma onda de desigualdade profunda não só a nível orçamental como de plantéis (nada os impede de aumentar os plantéis para 40 jogadores e adquirir os dos seus adversários extra-Super Liga Europeia por preços exorbitantes, apoiados pelos biliões da JP Morgan) e de instalar um monopólio imprático e salubre para um desenvolvimento melhor desta prática desportiva. Sendo um simples bluff, que a ser é algo, no mínimo, pitoresco, a UEFA não pode ceder por completo sob consequência de ficar totalmente dominada pelos interesses de uma minoria no destino da maioria, algo que a longo-prazo irá quebrar o sistema actual.

Uma ruptura promovida e liderada por Florentino Pérez e Andrea Agnelli, dois presidentes do futebol europeu conhecidos pela sua forma nada positiva de negociar ou gerir (lembrar o tratamento dado a Iker Casillas pelo dirigente máximo do Real Madrid, como exemplo claro do tratamento dado quando os jogadores perdem a utilidade), demonstra o quão vazio é a paixão, visão e vontade daqueles que desejam submeter a maioria à sua vontade. Quem prefere estar do lado da barricada dos 12 ou ficar no centro alegando que todos são iguais e que não há mal menor, então decerto não compreende as consequências deste tipo de postura, tendo bons exemplos como o Brexit e a passagem de Donald Trump pela política nos Estados Unidos da América para perceber o que é apoiar este tipo de acções ou devaneios que visam só desmontar, destruir e incapacitar a maioria, para beneficiar (que nunca beneficia) uma minoria selecta ou, se quisermos, uma elite.

 


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