Sérgio Conceição: como se explica a queda do FC Porto em 3 meses?

Francisco IsaacAbril 29, 20197min0

Sérgio Conceição: como se explica a queda do FC Porto em 3 meses?

Francisco IsaacAbril 29, 20197min0
O título está praticamente entregue ao SL Benfica e Sérgio Conceição apontou para si próprio todas as culpas. Mas será bem assim ou haverá outra "história" para contar?

E o FC Porto volta a ver um troféu fugir numa época que até parecia fadado a terminar em glória, honras e recordes inesquecíveis em Portugal e com promessa de chegar mais longe na Europa. Como o que aconteceu na Taça da Liga, o FC Porto foi forte o suficiente para se afirmar num 1º momento (a vitória mais que merecida frente ao SL Benfica, apesar de “nublada” por questões técnicas de arbitragem) para depois perder nos detalhes num 2º, com uma infantilidade provocada por Óliver Torres (que adveio de outra de Éder Militão), deixando escapar tudo no fim.

A descrição acima é uma explicação singela para o desastre final que se está a verificar para os “dragões”, incapazes de manter a mesma fibra, raça e cabeça, depois de 18 vitórias consecutivas e de terem chegado a estar na frente do Campeonato com 7 pontos de avanço, para deixarem o SL Benfica roubar a liderança de uma forma apática e imperceptível.

Em Vila do Conde registou-se o último destes “desastres” num empate a duas bolas frente à equipa local, depois dos dragões terem saído para o intervalo na frente sem que ninguém sonhasse ou imaginasse tal “escorregadela” na segunda metade do encontro.

Mas este problema já se tinha observado frente ao Liverpool FC por exemplo, quando estavam a carregar e a dominar o encontro ante os reds, para depois um golo destruir por completo a confiança dos azuis-e-brancos, terminando em nova goleada sofrida pelo 2º ano consecutivo, quando as promessas por parte de Sérgio Conceição eram outras.

A equipa perdeu o “apetite”, os erros na defesa foram-se multiplicando (será que na realidade era Militão que conferia liderança e calma a Felipe e a entrada de Pepe voltou a destabilizar o central brasileiro?), o meio-campo pareceu desconexo apesar da entrega de Danilo Pereira e o ataque parco em golos, isto quando Marega e Soares juntos conseguiram fazer 40 golos e 21 assistências em 2018/2019.

Noutra dimensão, a liderança imposta por Sérgio Conceição foi algumas vezes minada por discursos pouco esclarecidos, transitando de uma agressividade total (que pode ser encarada como afirmação do seu querer enquanto “portista”) para uma abordagem pouco saudável no lidar dos maus momentos, como aconteceu na final da Taça da Liga (o FC Porto não ficou para honrar os campeões, por menos demérito que esses tenham tido na conquista), ou no pós-derrota em casa frente ao SL Benfica.

O discurso de “instigar” os jogadores a provarem que são os melhores e que conseguem superar quaisquer problemas já não serviu em 2018/2019, verificando-se uma ausência de paixão em certos momentos e por certos jogadores que tem de lançar dúvidas no papel de líder e comandante por parte de Sérgio Conceição.

Nova derrota pesada frente ao Liverpool. agora em 2018/2019

Alguns poderão defender a posição do treinador pela forma como se colocou à frente dos seus jogadores após o empate comprometedor em Vila do Conde, numa tentativa de servir de escudo aos seus atletas, atacados pela fúria dos adeptos. Fúria essa que deveria ser investigada pelo clube, uma vez que a direcção de uma das principais claques do FC Porto pareceu estar numa posição de poder “assustar” os jogadores do clube, com uma legitimação atemorizante.

Mas voltando ao tema do artigo, como se explica uma queda de um clube que há até há 3 meses sentava-se no 1º lugar da classificação, completamente dependentes de si próprios para fecharem a época como bicampeões, munidos de uma total confiança que parecia à altura inabalável perante uma queda total dos seus adversários internos?

Já falámos de algumas questões neste artigo, desde a liderança semi-fracassada de Sérgio Conceição, de uma defesa tépida e que de repente começou a complicar nos lances mais simples possíveis consentido golos “infantis”, mas vejamos outras como a frente ofensiva e o trabalho no “miolo” de jogo.

Moussa Marega tem sido atacado constantemente pelos críticos pela quantidade alarmante de golos falhados, apesar de apresentar 20 golos em 40 jogos pelos dragões, não sendo o maliano um verdadeiro “ponta-de-lança” ou o típico goleador. Tiquinho Soares, que também está nos 20 golos, é o jogador no plantel (a par do lesionado Aboubakar) que se encaixa no protótipo de ponta-de-lança, fadado para decidir dentro da área com um assinalável reportório que merece destaque.

Todavia, a pareceria desenvolvida entre Soares e Marega não foi de toda harmoniosa, com os dois avançados a desencontrarem-se na maneira de atacar a área ou de gerir aquele compasso de espera antes de receber o passe um do outro, algo que não acontecia quando Marega tinha Aboubakar junto de si.

E esse problema da ausência de um verdadeiro homem-golo (ao jeito que o Benfica tem em Seferovic ou o Sporting CP em Bas Dost), com um conhecimento de área total e que faça diferença nos momentos capitais, como Falcao, Jackson Martínez fizeram nos últimos 8 anos.

E aqui entramos noutra questão: a falta de reforços. Sérgio Conceição esperaria um apoio total da direcção depois de conquistar o título nacional sem qualquer jogador contratado, numa demonstração de total força e genialidade que poucos conseguiram fazer. Contudo, em duas janelas de contratações só chegaram dois reais reforços: Pepe e Éder Militão. Fernando Andrade, Jorge, Bazoer, Loum N’Diaye, Manafá, Janko, Mbemba foram as restantes caras-novas, mas nenhum destes jogadores apresenta a qualidade mínima exigida para um clube da dimensão dos dragões.

A SAD azul-e-branca arrecadou entre vendas e sucessos na Liga dos Campeões nestas duas últimas épocas uma módica quantia de quase 300M€ (entre 268-293€), sendo que só gastou em compras cerca de 57M€, colocando várias dúvidas no porquê de Conceição não ter recebido os jogadores merecidos para atacar o bicampeonato, uma situação que até levantou algumas “bocas” entre a direcção da SAD e o treinador.

A entrada de reforços de qualidade medíocre-fraca e/ou questionável, a pouca intervenção de sucesso da SAD (curiosa ou ironicamente, quase sempre que Jorge Nuno Pinto da Costa falou o FC Porto falou, a equipa sucumbiu e averbou resultados negativos) no plantel e a falta de soluções dispostas internamente (há atletas que estão visivelmente esgotados, como Alex Telles, Yacine Brahimi, Jesus Corona, Moussa Marega ou Felipe) ajudaram a “matar” o bom ciclo vivido até final de Janeiro.

Sem a chama do “temos que voltar a conquistar o título” e de o FC Porto ser o underdog, sem a capacidade de Brahimi ser um jogador mais preponderante e constante na criação e execução de lances de perigo (o argelino continuou a mostrar a sua faceta de “solitário” durante vários períodos da época, como se estivesse a “mostrar” a possíveis pretendentes), sem a mesma clarividência para colocar os jogadores que a equipa precisava dentro das quatro-linhas (questiona-se o uso exagerado por Hector Herrera, um jogador que começou francamente mal a temporada e que só por momentos agarrou na batuta no meio-campo) e sem o toque de “midas” do passado, Sérgio Conceição é ao mesmo tempo culpado e vítima do estado actual dos dragões.

Sem potencialmente campeonato para mostrar, falta disputar a Taça de Portugal contra um Sporting CP cada vez mais animado (não significa isto que se pratique bom futebol em Alvalade, contudo o “gigante” Bruno Fernandes e os heróis mais improváveis têm se feito sentir nos leões) com a possibilidade de Conceição chegar ao fim da linha no final da época.


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