A queda para o CNS poderá “salvar” ou condenar o Vitória FC?

Francisco IsaacSetembro 1, 20206min0

A queda para o CNS poderá “salvar” ou condenar o Vitória FC?

Francisco IsaacSetembro 1, 20206min0
O Tribunal Arbitral do Desporto decidiu e o emblema sadino vai jogar no CNS já esta temporada. O que representa este desfecho para o Vitória FC?

Desde 2004 que os sadinos do Vitória FC não conheciam o sabor de jogar fora da Primeira Liga portuguesa, quando na altura lutaram e conseguiram uma subida de divisão sob a batuta de Carlos Carvalhal, regressando agora não para a Segunda Liga mas sim para o Campeonato Nacional, uma descida decidida na secretaria devido a não terem garantido os pressupostos financeiros necessários para se inscrever quer na Liga NOS ou na Ledman LigaPro. Depois de uma temporada completamente imersa numa situação caótica e aflitiva, com o “fantasma” da descida a pairar em todas as jornadas, o emblema de Setúbal acabou por garantir a permanência na última jornada e parecia ter conseguido o tal balão de oxigénio que tanto necessitava após um 2019/2020 que não foi só desportivamente instável, lembrando que decorreram eleições nada pacíficas, com Paulo Gomes a conseguir a eleição para a presidência do emblema sadino – em Janeiro de 2020 -, que nos últimos 10 anos teve quatro diferentes presidências.

A situação financeira catastrófica, as constantes ameaças de demissão (e que em alguns casos aconteceram mesmo) dos presidentes e estrutura adjacente à presidência, as falhas na coordenação do futebol profissional e restantes modalidades e até os problemas com o municipio, foram elementos que iam tornando a situação do histórico emblema português cada vez mais preocupante e quase impossível de alterar e, por fim, acabou por significar uma descida administrativa.

Para perceber o porquê da descida da Liga NOS para o Campeonato de Portugal, é importante ter noção das questões legais e financeiras apontadas pela presidência da Liga de Clubes. O órgão que tutela as divisões profissionais do futebol português apontou diversas falhas nos comprovativos de não-dívida para com atletas, staff ou entidades desportivas, para além dos pressupostos financeiros não estarem de todo bem esclarecidos, perdendo a licença para continuar a fazer parte do elenco de 18 clubes da Primeira Liga. Para além dos sadinos, também o CD Aves recebeu também a mesma ordem de despejo, mas os avenses ao contrário do Vitória FC nunca apresentou recurso para alterar o rumo dos acontecimentos, optando por descer e recomeçar um projecto que terminou da pior forma possível em 2020.

Paulo Gomes, líder dos vitorianos, entregou o recurso a tempo tendo o processo sido conduzido pelo Tribunal Arbitral do Desporto (TAD) depois do Conselho de Justiça da Federação Portuguesa de Futebol ter se considerado “materialmente incompetente” para ajuizar o caso. O TAD iria acabar por dar razão à Liga de Clubes, por efectivamente não estarem encontrados os pressupostos necessários para o Vitória FC poder obter o licenciamento, com a documentação apresentada a ser inconclusiva e que a providência cautelar não tinha valor.

Pela primeira vez em várias décadas, o Vitória FC caiu para uma terceira divisão, vivendo num estado financeiro extremamente preocupante e sem grandes soluções à vista, com Paulo Gomes a declarar o Estado de Emergência. Posto isto, poderão os sadinos aproveitar esta nova realidade para reformular, reestruturar e reerguer com outra força? Ou como aconteceu com emblemas históricos, como Beira-Mar, Estrela da Amadora ou Salgueiros, será que vai cair em direcção a divisões ainda mais secundárias?

Não podendo vislumbrar o futuro próximo ou longínquo, a verdade é que os vitorianos têm de ver a situação como uma oportunidade e há alguns pormenores importantes que podem ajudar a combater a depressão de descer até ao Campeonato de Portugal. Comecemos pela situação geográfica que se encontram: Setúbal. Ao contrário das cidades de Lisboa ou Porto, Setúbal não tem mais nenhum clube desportivo do mesmo calibre que o Vitória FC, o que permite obter um apoio mais lato e constante, dependendo das negociações e das metas estabelecidas.

Efectivamente tem de haver um reaproximar do clube com os seus associados e gentes, um factor que criou diversos problemas e que foi minando a confiança da massa associativa na capacidade de gerir dos antigos presidentes, seja de Carlos Costa ou Fernando Oliveira, especialmente no que toca às dívidas tanto a elementos da equipa de futebol profissional ou do andebol, e também de falhas de pagamento a SAD’s rivais pela contratação do atleta X ou Y.

Os salários em atraso foram um tema recorrente dos últimos 15 anos, que mesmo sendo um problema algo geral aos clubes portugueses, a verdade é que no clube sadino as constantes reincidências sofreram um agravamento contínuo e que afectou tanto a sua imagem pública como na capacidade atrair jogadores de outro calibre, caindo a equipa de valor de época para época – em tom de curiosidade, o Vitória FC esteve perto da descida de divisão em quatro das últimas seis temporadas. Mas o que se pode tirar do afastamento dos associados, dos salários em atraso e das dívidas com parceiros desportivos?

Que o novo Vitória Futebol Clube deve procurar um caminho diferente do que até agora seguido, optando por reequilibrar o orçamento, saldar contas negativas mesmo que isto signifique a manutenção do clube no CNS ou, caso o plantel tenha força suficiente já nesta época para subir à segunda liga, aguentar por algumas épocas na Ledman LigaPro de modo a solidificar processos e garantir um princípio de confiança estável para evitar o surgimento de uma situação similar dentro de alguns anos – como se verificou com o CF “Os Belenenses”, que acabou vítima de uma divisão interna entre o clube e a SAD.

É utópico os adeptos pedirem um Vitória dependente da formação, jogando nos campeonatos profissionais com só atletas das suas escolas, sendo mais importante que se procure construir um plantel entre jogadores locais e atletas jovens, garantindo alguns reforços interessantes para que estes possam crescer dentro do clube e se tornar valências de grande qualidade no futuro, fugindo assim a negócios de empresários mais complicados e que não têm revelado bonança para os sadinos.

É imperativo que o emblema de Setúbal não sofra o mesmo destino final que o Estrela da Amadora, Beira-Mar ou União de Leiria, e apesar do caminho ser actualmente mais moroso e que forçará um reunir de forças de outro nível sem divergências ou divisões, a verdade é que será mais produtivo e importante optar por refazer o projecto, do que andar a lutar constantemente para não ser um dos últimos classificados da Liga NOS.


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