Quase 10 anos após a última Premier league: será ten Hag a solução?

Fair PlayJulho 19, 20228min0

Quase 10 anos após a última Premier league: será ten Hag a solução?

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Mudança de paradigma ou vai se manter a núvem negra no United? Ten Hag é o treinador que pode alterar o rumo dos Red Devils nesta análise de Henrique Sá

Artigo de Henrique Sá sobre a chegada de Erik Ten Hag ao Manchester United e as possíveis mudanças que poderão chegar aos Red Devils nesta temporada.

Erik ten Hag chega ao gigante inglês Manchester United com a missão quase “impossível” de renascer o clube quase após 10 anos da saída de sir Alex Fergusson, mas vamos por partes, para perceber as dificuldades que o treinador neerlandês enfrantará desde o 1º dia de competição oficial.

O momento actual: saídas (muitas saídas) e desorganização

Na época transata, somaram 49 jogos (20 vitórias, 14 empates e 15 derrotas), tendo marcado 71 golos contra 69 sofridos. Terminaram em 6º lugar no campeonato, falhando, assim, o apuramento para a Champions League, competição em que acabaram eliminados nos oitavos de final da maior prova europeia de clubes pelo Atlético de Madrid. A somar a estes dois maus resultados, perderam na primeira eliminatória da Carabao Cup para o West Ham e, ainda, a saída prematura na quarta ronda da FA cup pelo “modesto” Middlesbrough da segunda divisão inglesa. Como é percetível, uma prestação muito aquém do espectável, mas, para os mais atentos, um reflexo do que se passa dentro do clube inglês. Um emblema desorganizado em que os adeptos estão constantemente contra a direção (sem ganhar um troféu há cinco anos e uma Premier League há nove) e contratações por valores elevadíssimos com pouco, ou nenhum retorno desportivo.

Em relação ao mercado atual de transferências, alguns jogadores deixaram o clube inglês, como Paul Pogba (assinou pela Juventus), Nemanja Matic (assinou pela Roma), Dean Henderson (empréstimo ao Nottingham Forest, recém-promovido ao principal escalão do futebol inglês), Andreas Pereira (assinou pelo Fulham), Jesse Lingard, Edison Cavani, Juan Mata e Lee Grant (todos estes terminaram contrato com os red-devils, no passado dia 30 de junho, sem terem recebido qualquer proposta para renovar).

Soma-se ainda a isto algumas especulações, como de que o astro português Cristiano Ronaldo poderá estar de saída (ainda não se apresentou aos trabalhos após as férias), assim como Alex Telles (Futebol Clube do Porto), Phil Jones, Aaron-Wan Bissaka, Marcus Rasford (muito aquém na época passada, repleta de lesões e falta de confiança) e Eric Bailly (jogador que nunca encontrou regularidade depois da sua chegada a Inglaterra).

Outros dossiers, como o de Tahith Chong (Birmingham, 20 jogos, 1561 minutos, 1 golo e 2 assistências); Facundo Pellistri (Alavés, 23 jogos, 752 minutos); Brandon Williams (Norwich, 29 jogos, 1 assistência, 2334 minutos); Amad Diallo (Rangers, 13 jogos, 3 golos e 500 minutos); James Garner (Nottingham Forrest, 49 jogos, 4 golos marcados, 4003minutos) efetuam a pré-época, mas devem sair por empréstimo devido à tenra idade dos mesmos e porque devem ter minutos de jogo para evoluir, o que não deve acontecer no conjunto inglês. A estes ainda considera-se Axel Tuanzebe (Nápoles) que não conta para o técnico dos Países-Baixos e, consequentemente, deverá abandonar Old Trafford nos próximos dias

Os últimos dois regressos, tendo estes dois atletas efetuado a primeira parte da época em Manchester e, posteriormente, rumaram a outros clubes em janeiro: Donny Van de Beek (Everton, 7 jogos, 1 golo, 483 minutos), e de Anthony Martial (Sevilla, 12 jogos, 1 golo, 1 assistências, 673 minutos). Estes casos são diferentes dos anteriores, pois são jogadores mais “cotados” e que devem ter especial atenção do técnico neerlandês, sendo que Van de Beek já foi treinado no Ajax por Erik ten Hag em que numa das épocas atingiram as meias-finais da Champions League em 17/18.

O que é que Erik ten Hag poderá trazer ao estilo de jogo do Manchester United?

O técnico neerlandês apresenta um esquema tático 4-2-3-1 com muita permuta entre os pivôs e o dito “número 10” que dá apoio ao ponta-de-lança.

Um dos problemas apresentados pelos red devils é a consistência defensiva, mais concretamente, as transições e nas “entrelinhas” (zona entre a linha defensiva e o meio-campo) que é facilmente aproveitada pelo adversário devido à distância entre estas 2 linhas.

A dupla que mais jogou no duplo pivô (Fred e Mctominay), são dois médios box-to-box, como se diz na gíria do futebol, o que é prejudicial, a meu ver, visto que os dois eram muitas vezes apanhados em contrapé em ataque organizado devido a uma perda de bola de um colega concedendo espaço nas costas e, consequentemente, deixando a linha defensiva à mercê do adversário.

Ten Hag é um treinador que procura sempre que as suas “3 linhas” (atacante, média e defensiva) estejam muito juntas possibilitando a rápida reação à perda de bola. Edson Alvarez, atualmente jogador do Ajax, encaixaria perfeitamente no modelo do técnico dos Países-Baixos – trabalhou largos anos com atual treinador dos red devils – e conhece a sua filosofia de jogo. É um jogador que cobre muito bem os espaços (“resolvendo” algumas das lacunas nas transições), bom com bola e com chegada à área em alguns momentos do jogo.

O par perfeito seria completo com Frenkie De Jong que trabalhou com o treinador neerlandês no Ajax antes de rumar à Catalunha, pois este oferece a mesma capacidade de Fred e Mctominay, mas ao contrário destes dois, consegue apresentar muito mais critério com a bola nos pés e, ainda, na criação de oportunidades (papel quase sempre “delegado” a Bruno Fernandes).

A chegada de Lisandro Martinez (atua normalmente a central, mas é muitas vezes “chamado” a tarefas no meio-campo) dará uma melhor saída de bola (à exceção de Varane, os restantes centrais tem alguma dificuldade na primeira fase de construção) e apresenta, ainda, um excelente controlo de profundidade devido à sua velocidade.

Em ataque organizado, o clube inglês recorria excessivamente à saída por bola longa, quer pelos centrais, quer pelos laterais o que numa equipa como esta é impensável. Ten Hag trará uma saída deste género (exemplificando com o que foi o Ajax na época transata):

Esta saída de bola recorre à largura, como à profundidade, o que não acontecia no Manchester United, visto que a bola longa era muitas vezes a “solução”.

Como constado pela imagem, veem-se 5 triângulos. O que é que isto signfica? Cada jogador tem 2 linhas de passe curtas e sempre com a opção de “utilizar” os 3 jogadores mais adiantados como terceira linha de passe. Imaginemos com a bola saiu para o Timber e o Mazraoui está com marcação apertada, o central tem a possibilidade do “triângulo” com Alvarez e Gravenberch, ou seja, o atleta terá sempre dois ou mais linhas de passe disponíveis, o que possibilita uma saída curta e mais objetiva do que o “despejo” de bola na frente. A saída do Machester United creio que irá passar muito por isto (com algumas variantes claro).

No capítulo ofensivo, o conjunto inglês apoiava-se muito em Bruno Fernandes para decidir (muitas vezes mal dado a constante solicitação dos colegas), para além de Cristiano Ronaldo que foi extremamente solicitado (fazendo trabalho “a mais” para a sua posição) ou em rasgos de genialidade dos extremos, numa primeira fase por Greenwood (afastado por completo da equipa) e numa segunda fase quer por Sancho ou por Elanga. Para combater tais problemas são preciso mais “criativos” no meio-campo para “ajudar” Bruno Fernandes.

Os reforços que podem ajudar a mudar o paradigma

Christian Eriksen, experiente médio de 30 anos (passagem pelo Brendford na última época) é uma mais-valia para o plantel visto que passam a ter um jogador com mais maturidade, à semelhança de Mata, que consegue pautar mais o jogo que Bruno Fernandes e percebe melhor os momentos de aceleração ou pausa.

Victor Osimhen, ponta-de-lança do Nápoles, seria uma boa contratação, na medida em que iria preencher, e bem, a “posição 9” porque apresenta um poderio físico de outra dimensão que faria a diferença na área e com qualidade acima da média a jogar de costas para a baliza. Dois outros jogadores que possivelmente seriam peça chave: Anthony (Ajax), pela irreverência no 1 contra 1, mas com a capacidade de explorar espaços interiores com tabelas curtas ou mesmo a forçar a zona exterior, sendo assim muito mais imprevisível, à semelhança de Greenwood.

E em segundo lugar, alguém como Pablo Sarabia (excelente época 21/22 ao serviço do Sporting) que está de saída da capital francesa. Um jogador com experiência nos principais campeonatos que traria, à imagem de Eriksen, um ataque mais pautado e mais cerebral, “combatendo”, assim, o “excesso” de verticalidade imposto na última época.

Será que Erik ten Hag terá a capacidade de rejuvenescer este colosso do futebol mundial? Ou terá o mesmo destino de todos os que passaram pelos red devils? Só o tempo dirá…


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