O querido genro

Virgílio NetoMarço 29, 20193min0
Sem experiência no desporto, Ricardo Teixeira é lançado candidato a presidente da Confederação Brasileira de Futebol no fim dos anos 80. E vence. Assume em 1989 e fica no cargo por 23 anos. Confiram como ele chegou até lá e o que o levou à renúncia.

O ano era 1987 e lançavam-se as candidaturas para as eleições à presidência da Confederação Brasileira de Futebol. Era tudo ou nada para a entidade máxima do futebol do Brasil. Duas “dolorosas” eliminações nos mundiais (1982 e 1986). Sem recursos financeiros para realizar o campeonato brasileiro de 1987 (o artigo anterior sobre a história do futebol do Brasil foi sobre este tema). Concorriam ao cargo: de um lado, Nabi Abi Chedid, candidato da situação, já que era o vice-presidente. Do outro, o empresário Ricardo Teixeira, também genro de João Havelange, então presidente da FIFA.

Por não ser do futebol, o genro de Havelange era visto pelo universo do futebol brasileiro e pela opinião pública como o homem que daria uma nova cara para a entidade, torná-la voltada para o mercado e romper com a imagem de burocrata e retrógrada. O grande título dele era mesmo ser marido da filha do presidente da FIFA. Entretanto, apenas isto não bastava. Era ele também um excelente relações públicas, começou a construir a sua esfera de influência com os presidentes das federações estaduais e viajou por todo o Brasil a fim de vencer as eleições.

Assim foi. Teixeira foi eleito no início de 1989 e assumiu uma CBF deficitária. Não demorou muito para as coisas começarem a avançar: o Brasil conquistou a Copa América daquele ano (a última vez havia sido em 1989) e começaram a aparecer os primeiros patrocinadores, como a Pepsi, cujo cachê foi alvo de disputa entre a confederação e os futebolistas da seleção, às vésperas da Copa do Mundo da Itália, em 1990. Para Teixeira, o fiasco no mundial da Itália foi porque a equipa estava mais preocupada com o dinheiro do patrocínio do que com os jogos e acabou por responsabilizar Alemão, líder dos jogadores, que naquela altura actuava no Napoli. Era só a primeira polémica.

É inegável que com Ricardo Teixeira na Presidência da Confederação o Brasil teve muitas conquistas, como no futebol feminino, além dos mundiais de 94 e 2002, as Copas América e os torneios de base, como mostra a publicidade abaixo, veiculada na TV do Brasil quando ele renunciou à presidência da entidade, em 2012, após 23 anos:

No entanto, ao mesmo tempo que o palmarés da Canarinha ‘engordou’, a CBF não escapou das atenções da opinião pública: a Seleção Brasileira de futebol é fator importante do Estado Nação brasileiro, é meio por onde o país historicamente sentiu-se representado. Hoje, não mais como antes. A presidência de Teixeira envolveu-se com inúmeras controvérsias que o levaram à renúncia. Foram denúncias e indícios de corrupção na Confederação Brasileira de Futebol, com direito à Comissão Parlamentar de Inquérito do Congresso Nacional, denúncia de lavagem de dinheiro pela Polícia Federal, superfaturamento de contratos, além da disputa de poder na FIFA e o seu nome envolvido nas investigações do FBI norte-americano que culminaram no “FIFA Gate” de Maio de 2015.

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Teixeira hoje não tem mais um papel importante no futebol: está livre, mas o seu sucessor, José Maria Marin, em prisão domiciliária em uma das zonas mais caras do mundo: em um apartamento de Nova York, na Quinta Avenida. Suspeita-se de que foi comprado com dinheiro resultado da corrupção. Havelange morreu em 2016 – durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro – mas já não era seu genro. Divorciara-se da esposa anos antes.


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