Quem não quer ser como o Friburgo?

Gonçalo MeloNovembro 26, 20197min0

Quem não quer ser como o Friburgo?

Gonçalo MeloNovembro 26, 20197min0
O Friburgo é uma das equipas mais modestas da Bundesliga alemã, e os baixos orçamentos poderiam ser encarados como um problema. No entanto, os homens do sudoeste alemão vão fazendo o seu trabalho, estando neste momento num soberbo quarto lugar.

Comecemos este artigo com factos. O SC Friburgo, fundado em 1904 na cidade com o mesmo nome, é uma das equipas com menos expressão na principal liga germânica, muito graças à sua ausência de história e de títulos. Foi já no novo milénio que esta equipa deu o salto, pois desde a época 2000/2001, o Friburgo passou 13 épocas entre os grandes do futebol alemão, e apenas 6 na Bundesliga 2, onde foi campeão por 4 vezes (a primeira conquista foi em 1993, as restantes todas a partir de 2001).

Mas foi desde o regresso do homem da casa, Christian Streich que o Friburgo se afirmou como uma força a ter muito em conta em solo germânico. Regressado ao clube em 2011, o técnico conseguiu desde esse ano a proeza de apurar a equipa para as competições europeias pela primeira vez na sua história, após um soberbo 5º lugar na época 2012/2013. Com Streich, a equipa apenas por uma vez abandonou o convívio dos grandes, para logo na época seguinte carimbar o regresso com a conquista do título da segunda divisão, o quarto troféu da história do clube.

Tudo isto é ainda mais assinalável quando olhamos para o baixo investimento feito na equipa época após época. Já esmiuçámos em 2017 a forma de estar deste clube no futebol, clube que preza a aposta em elementos jovens da sua formação ou em jovens que procurem o seu espaço no futebol de topo, sendo raro vermos investimentos avultados por parte da direção do Friburgo.

Neste ano, mais uma vez a equipa de Christian Streich parte com uns dos planteis com menor valor de mercado na Bundesliga, sendo que apenas o Colónia, Fortuna Dusseldorf, Union Berlin e Paderborn têm planteis menos valiosos segundo o Transfermarkt (não esquecer que destas 4 equipas, apenas o Fortuna já estava na primeira divisão na época passada).

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Christian Streich, o homem de Friburgo ( Foto: Bundesliga)

Colocando à parte os jovens promovidos da formação, aos quais juntamos os elementos que foram contratados mas que acabaram emprestados, o Friburgo gastou apenas 20 milhões de euros no reforço do plantel, em 5 reforços. Hertha, Mainz e Augsburgo, equipas que costumam ter objetivos semelhantes, gastaram todas mais que o Friburgo, estando todas muito próximas da zona de despromoção.

Ora, mas nem só de uma boa gestão económica e de recursos humanos se faz uma equipa de futebol. Christian Streich é um técnico muito experiente, sendo conhecido pelo rigor tático e capacidade defensiva das suas equipas. Outrora fã confesso do 4-4-2 clássico, o timoneiro de 54 tem apostado este ano numa tática mais conservadora. O 5-4-1 já pouco visto no futebol tem garantido resultados e parece estar para ficar, ou não estivesse a equipa no quarto lugar a apenas 3 pontos da liderança, estando à frente de equipas como Borussia Dortmund, Bayer Leverkusen, Wolsfsburgo ou Schalke 04.

Na baliza permance Alexander Schwolow, dono da baliza desde 2016. Aos 27 anos, o internacional jovem pela Alemanha apresenta características que se encontram na maioria dos guarda redes da nova geração do futebol germânico. Confiança a jogar com os pés, à vontade nas saídas da baliza e excelentes reflexos, tornam Schwolow um dos mais interessantes keepers na Alemanha, que teve o azar de nascer no mesmo ano de Ter Stegen ou Bernd Leno.

O trio de centrais tem sido quase sempre o mesmo, formado por Dominic Heintz, Phillipe Lienhart e Robin Koch, sendo que os três custaram em conjunto, apenas 12 milhões de euros. Heintz, de 26 anos, foi internacional por todos os escalões jovens da seleção alemã, enquanto Koch e Lienhart, ambos com 23 anos, têm esta época confirmado a sua qualidade e o seu potencial, como comprovam as recentes convocatórias de ambos para as seleções alemã e austríaca, respetivamente. Altos, rápidos, dominantes no jogo aéreo e com grande à vontade na primeira fase de construção (sobretudo Koch), prometem trazer dificuldades para Friburgo na tentativa de os segurar nos próximos anos.

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Robin Koch tornou-se recentemente internacional alemão ( Foto: Transfermarkt)

Nas laterais, esta época fica marcada pelo regresso de Jonathan Schmid, outrora extremo, mas que nos últimos anos ao serviço do Augsburgo se tornou um lateral direito muito interessante. À esquerda continua Christian Gunter, capitão de equipa aos 26 anos. Formado no clube, Gunter foi também presença assídua nas camadas jovens da seleção alemã, tendo apenas um jogo pela seleção principal. Um lateral não tão dotado tecnicamente como Schmid, mas altamente competitivo, agressivo e disponível fisicamente, fazendo todo o corredor com muita facilidade, ele que já fez o gosto ao pé neste campeonato, destacando-se no entanto pelas 6 assistências.

Na zona central do meio campo, Streich tem muitas e boas opções, não sendo fácil apontar uma dupla titular. Nicolas Hofler tem sido o mais utilizado, somando já 12 partidas, contra 11 de Jerome Gondorf, e 10 de Mike Frantz e Janik Haberer. Hofler e Gondorf destacam-se mais pela intensidade e capacidade defensiva, enquanto Frantz e Haberer apresentam outro nível técnico.

Este último é maioritariamente utilizado como extremo direito, embora apareça com alguma frequência em terrenos interiores, sendo claramente o médio mais criativo da equipa. Contratado por apenas 1 milhão de euros ao Hoffenheim, Haberer é a personificação do modelo de negócio do Friburgo, comprar jovens por valores baixos, e fazê-los atingir outra dimensão, como comprova o atual valor de mercado de Haberer, cifrado nos 10 milhões de euros.

No esquema tático do Friburgo, Streich utiliza ainda dois extremos, que muitas vezes procuram zonas interiores para fazer a diferença. O já mencionado Haberer é muitas vezes titular à direita, tendo a concorrência do internacional hungaro Rolland Sallai e do coreano ex-Dijon Kwon Chang-Hun. À esquerda, o jogador mais utilizado tem sido Lucas Holler, ponta de lança de raiz, que tem beneficiado de um abaixamento de forma do internacional italiano Vincenzo Grifo para se ir destacando, somando três golos em 14 aparições.

Na frente de ataque, Streich tem duas opções de qualidade superlativa. Luca Waldscmidt teve um início de época brutal, que culminou com a sua chamada à seleção principal alemã. Utilizado na frente ou em qualquer uma das aulas, Waldschmidt soma 10 partidas e 4 golos na Bundesliga, tendo neste mês de Novembro somado alguns problemas fisicos que o têm impedido de dar o melhor contributo.

A outra opção de ataque é o experiente Nils Petersen. Internacional alemão, Petersen continua, aos 30 anos, a fazer a diferença no último terço, como comprovam os 6 golos em 14 partidas no campeonato, sendo assim o melhor marcador da equipa. Se Waldschmidt se destaca pela técnica e precisão no seu pé esquerdo e pela capacidade de aparecer em qualquer zona do ataque, Petersen faz a diferença com a sua imponência fisica, jogo aéreo e posicionamento, sendo letal dentro da área a contribuindo para o jogo da equipa através de tabelas, bolas aéreas ganhas ou até ataques à profundidade.

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Petersen e Waldschmidt, uma dupla de sucesso (Foto: Bundesliga)

Um plantel barato e jovem, mas altamente equilibrado e com jogadores de enorme qualidade, que promete continuar a dar dores de cabeça aos mais históricos clubes do futebol alemão. Streich e os seus meninos continuam a fazer das suas, e, mesmo que estes saiam, outros tomarão os seus lugares. É assim que está estruturado o Friburgo. Gastar pouco e bem, trazer a experiência necessária e apostar em jovens motivados à procura do seu espaço. E que jovens tem este Friburgo.


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