Liberdade que não tem preço

Virgílio NetoOutubro 29, 20184min0

Liberdade que não tem preço

Virgílio NetoOutubro 29, 20184min0
Pioneiro na “Lei do Passe” no Brasil, lutou de maneira solitária e não foi bem visto pelos dirigentes, o que comprometeu em parte uma internacionalização pelo Brasil. Mas venceu.

Afonso Celso Garcia Reis, popularmente conhecido como “Afonsinho”. Provavelmente os portugueses nunca ouviram falar deste brasileiro. Muitos brasileiros, também não. Entretanto, ele possui uma grande importância para o futebol do Brasil e sua história. Lutas, direitos, deveres. A importância e protagonismo do atleta em uma sociedade. Muito antes de Bosman e tantos outros que ‘levantaram bandeiras’, Afonsinho possui uma história única. Algo que merece ser sempre lembrado e compartilhado.

Revelado por modesto clube do interior de São Paulo, partiu para o Rio de Janeiro em meados dos anos 1960 e fez parte do plantel do grande Botafogo de Futebol e Regatas que, juntamente com o Santos, formavam a base da selecção brasileira. Além de futebolista profissional, era estudante de medicina e preocupavam-lhe as questões sociais. Seus cabelos longos e a barba por fazer chamavam a atenção e cada vez mais achavam-no parecido com Ernesto ‘Che’ Guevara (coincidência ou não, médico e bastante engajado nas causas sociais). Era também protesto em relação ao regime de excepção pelo qual o Brasil passava. 

Por conta disso, o treinador do Botafogo à época, Mário Zagallo (que seria o míster da Canarinha no Mundial de 1970), exigiu que ele cortasse o cabelo e fizesse a barba, a fim de cumprir código disciplinar do clube. No entanto, nunca se soube deste código quando da assinatura do contrato profissional. Era mais controlo do governo a uma suposta subversão por parte do futebolista. Resultado: Afonsinho fora afastado do elenco por Zagallo. O Botafogo o emprestara ao Olaria, de zona homónima do Rio de Janeiro, sem o mesmo palmarés e visibilidade que o clube da “estrela solitária”. O bom desempenho no Olaria o fez retornar ao alvinegro. Entretanto, manteve os mesmos cabelos longos e a barba por fazer. Novamente fora afastado do plantel. Fazia os treinamentos separadamente e, ao mesmo tempo, entrou com processo na Justiça do Trabalho contra o clube, para ter o seu ‘passe’ (naquele tempo o atleta era vinculado ao clube mesmo após o término do contrato) liberado, sob a alegação de que impediam-no de trabalhar. O ‘passe’ era uma garantia dos investimentos financeiros que o clube teve em seus atletas. 

Em 1971 a Justiça dá-lhe ganho de causa e Afonsinho, aos 27 anos, era autorizado a emprestar o seu ‘passe’ a diversos clubes, a ganhar a vida onde bem quisesse. Situação que sequer Pelé tivera e que uma vez o fez declarar à imprensa: “O único homem livre no Brasil é o Afonsinho”. Em sua homenagem, Gilberto Gil (conhecido cantor e compositor brasileiro) fez uma canção a Afonsinho, gravada pela grande Elis Regina:

Prezado amigo Afonsinho / Eu continuo aqui mesmo / Aperfeiçoando o imperfeito /

Dando um tempo / Dando um jeito / Desprezando a perfeição /

Que a perfeição é uma meta / Defendida pelo goleiro / Que joga na Seleção /

E eu não sou Pelé (…) / Se muito for eu sou um Tostão /

Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão.

Afonsinho continua a exercer a medicina e tem todo um trabalho voltado às questões sociais. Infelizmente não teve espaço nas equipas do Brasil nos Mundiais de 1974 (Alemanha Ocidental) e 1978 (Argentina), muito por conta da briga na justiça contra os dirigentes. Com tudo isso, a verdade é que ele foi pioneiro e página importante da história do futebol do Brasil.

Em tempo: Afonsinho é conterrâneo do autor deste texto. Por isso e por todas as suas lutas, motivo de orgulho.

* “Clube da Estrela Solitária” como também é conhecido o Botafogo de Futebol e Regatas, cujo emblema tem a estrela d’alva, em referência aos remadores que fundaram o clube.


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