A “histórica” não-dança de cadeiras na Liga NOS 2018/2019

Francisco IsaacOutubro 27, 20189min0

A “histórica” não-dança de cadeiras na Liga NOS 2018/2019

Francisco IsaacOutubro 27, 20189min0
Sem demissões à vista até à 9ª jornada, a Liga NOS 2018 está a ser histórica nesse ponto. Mas a que se deve esta paciência dos clubes portugueses?

Se a Liga NOS competisse num duelo de quem dispararia a primeira “bala” certeira na direcção de um treinador, não há dúvidas de que estaria no top-3 europeu, pois nos últimos 10 anos foi dos campeonatos europeus principais (contamos para lá das Big-5) que mais facilmente despediu um treinador logo nas primeiras jornadas.

CS Marítimo, Vitória SC, Académica de Coimbra ou Clube Desportivo Nacional foram os principais “carrascos” de treinadores em inícios de campeonatos, com um destaque especial para as formações madeirenses que mal aguentam treinadores no arranque de temporada. O Sporting Clube de Portugal não surge nesta lista, todavia é de entre os principais emblemas nacionais que mais despede durante a época (Ricardo Sá Pinto, Oceano, Paulo Sérgio, Franky Vercauteren, Paulo Bento, José Peseiro, etc).

O ESPECTRO ACTUAL DE… PACIÊNCIA

Curiosamente, ao contrário do que vinha a acontecer no passado-recente, a Liga NOS 2018/2019 tem mudado o quadro-geral de acontecimentos… à passagem da 8ª jornada de Campeonato, nenhum dos técnicos que começou a época foi demitido (ou se demitiu) mantendo-se uma coesão minimamente estranha. Será que vale a pena enaltecer a “paciência” dos dirigentes nacionais? Ou a chicotada psicológica não se dá devido à quase inexistência de opções imediatas para substituir os técnicos em pior “forma”?

Veja-se o caso do CD Nacional e CD Aves, donos actuais dos últimos lugares da tabela… mas de forma justa? Se no caso dos avenses existe alguma falta de engenho para segurar o resultado e um pouco de “azar” acumulado em certos momentos do jogo, já o dos alvinegros é praticamente o contrário, uma vez que a equipa liderada por Costinha tem somado jogos “pobres”, uma defesa atónita e sem agilidade suficiente para agarrar os adversários (Felipe Lopes e Júlio César são bons pelo ar e pouco mais) e um ataque escasso, que vive da “inspiração” de Camacho e Rochez.

A somar-se à falta de opções da formação madeirense recém-subida à Liga NOS (depois de uma temporada na Ledman LigaPro), está também a falta de tacto do próprio treinador, que insiste em manter uma estratégia de jogo excessivamente ambiciosa e sem a solidez necessária para dar outros frutos. Por isso, José Mota e Costinha em outras épocas poderiam já não constar no banco de suplentes e os argumentos para a manutenção de ambos são iguais num ponto: lealdade.

Se José Mota foi o responsável pela manutenção na Primeira Liga e pela conquista da Taça de Portugal, já Costinha levou os nacionalistas ao título na Ledman LigaPro, numa segunda-volta quase imaculada.

O Desportivo de Aves não se encontra em dificuldades económicas e, possivelmente, tem as condições para contratar um novo treinador de qualidade mínima para suplantar José Mota. Já o CD Nacional vive num momento delicado a nível de finanças e a contratação de um novo treinador implicaria um esforço suplementar no orçamento… para além de que poucos treinadores de nível da Liga NOS aceitariam o plantel actual dos alvinegros.

AS DÚVIDAS EM EQUIPAS QUE NÃO CONSEGUEM ATINGIR O POTENCIAL

Existem mais uns quantos casos para além destes, como o Moreirense de Ivo Vieira, o Tondela de Pepa, o Boavista de Jorge Simão e o Marítimo de Cláudio Braga. Em Moreira de Cónegos, Ivo Vieira tem ainda muito que provar e os 10 pontos inicias vão “defendendo” o treinador até porque o plantel não é dos mais equilibrados da Primeira Liga. Contudo, há um aspecto negativo a realçar… 6 golos em 8 jogos.

A formação nortenha é das que mais remata à baliza, com uma média de 10 remates (só 18% são enquadrados com a baliza) mas é das que marca menos… falta de opções, falta de ideias do treinador para trabalhar esta área ou erros dos atletas no momento de decidir?

Já o Tondela de Pepa é das formações mais lutadoras e dinâmicas a jogar, só que tem caído no “erro” de conceder demasiado espaço aos seus rivais em momentos inoportunos, com golos de contra-golpe e contra a corrente do jogo. Falta tempo a um plantel que pode causar outro tipo de estragos… se for concedido essa “oportunidade”, aliado à forma como Pepa motiva e une a equipa, não há dúvidas que estão fadados para a permanência.

Contudo, já nos casos do Boavista FC e CS Marítimo a “defesa” a favor de Jorge Simão e Cláudio Braga, respectivamente, não é tão segura. O técnico que já passou por vários emblemas da Liga NOS tem demonstrado uma clara estagnação na qualidade de jogo, com os axadrezados a apresentarem uma forma de actuar pouco fluída, com erros estranhos em diversos períodos de jogo.

O plantel perdeu duas ou três peças importantes (Renato Santos e Rossi por exemplo), mas recebeu atletas interessantes como André Claro, Rafael Costa, Frederico Falcone e Raphael Silva, sem que estas peças conseguissem dar um salto qualitativo no colectivo portuense.

Jorge Simão tem tido claras dificuldades em demonstrar outras ideias que proporcionem um futebol mais “agressivo” ou de uma identidade presente no Boavista FC… no entanto, não está a comprometer e vai garantindo os pontos necessários para respirar. Há pormenores no ataque bem interessantes e a seu tempo podem catapultar a equipa para outro nível.

Cláudio Braga é que pode ser mesmo o primeiro a abandonar tanto os Barreiros como a Liga já antes da próxima jornada do campeonato português e muito por culpa própria. O técnico teve um ano de sucesso na Holanda, com a promoção do Fortuna Sittard à Eredivise numa temporada que nem esse era o objectivo final. Convenceu Carlos Pereira mas não conseguiu fazer o mesmo com os adeptos madeirenses e, mais uma vez, por culpa própria.

O Marítimo tem tido desempenhos bem abaixo do que se “exige”, em que pelo menos três vitórias (CD Santa Clara, GD Chaves no Campeonato e Moura, para a Taça de Portugal) foram garantidas já nos 90 ou para lá mesmo desse período. Mas o pior está na falta de inteligência e excelência na estratégia, evidenciando-se erros infantis na defesa (constantes más comunicações entre os centrais e o médio mais recuado, ou de subidas mal desenhadas pelos laterais) ou de falta de confiança no plantel (já aconteceu em mais que duas ocasiões não realizar qualquer substituição ou só proceder a trocas para lá dos 80 minutos).

Com a mais recente derrota no campo do Moreirense e com já alguns sinais dados pelo presidente do clube verde-rubro, pode ser que haja a primeira mexida antes da 9ª jornada da Liga NOS.

RAZÕES PARA A PERMANÊNCIA… ALGUMA FARÁ SENTIDO?

Posto isto, há alguma razão/motivo para os clubes não trocarem tanto de treinadores? Apontamos três possíveis explicações, sendo que a terceira irá abrir discussão para um artigo novo a sair nas próximas semanas:

1- A fluidez financeira dos clubes está mais ténue e desequilibrada que em anos anteriores. Registam-se mais transferências e mais gastos em contratações de forma geral, com 2018/2019 a ser a temporada em que se mais no mercado de transferências (116M€) e só a sexta em que se vendeu melhor (197M€). FC Porto, SL Benfica foram os “reis” das compras e vendas, mas igualmente os clubes de menor divisão também fizeram um esforço maior.

De igual forma que hoje em dia, a voz do treinador tem muito menos impacto nas decisões de reforços o que dá uma margem de erro maior. O esforço financeiro em salários, contratações, poderá tirar margem para recrutar treinadores com outra validade qualitativa, mas que exigem um esforço financeiro maior.

2- Os clubes tentam dar mais tempo de adaptação e trabalho aos treinadores, uma vez que há claros clubes que precisam de um período de adaptação ao novo timoneiro. Veja-se o caso do Rio Ave FC e José Gomes. Início de época pouco positivo, eliminação precoce nas eliminatórias da Liga Europa e algumas derrotas nas competições nacionais. Foi notório que alguns adeptos pedissem a demissão do novo treinador, mas a direcção não abandono José Gomes.

Felizmente, foi uma decisão acertada e o Rio Ave já está de volta ao seu melhor, tendo mesmo sobrevivido ao SC Braga, ocupando um bom lugar na classificação. Isto deve-se a um maior profissionalismo das direcções e departamentos de futebol? Ou a faltas de opções credíveis para entrarem para o lugar não forçaram uma decisão ?

3- Em correlação com o ponto anterior, o factor de existirem menos opções que possam entrar e dar, logo no imediato, uma injecção positiva são cada vez mais raros. Veja-se que nos últimos dois anos, foram raros os treinadores que conseguiram catapultar as suas equipas para outro patamar: Daniel Ramos (do Santa Clara para o Maritimo), Luís Castro (Rio Ave FC), Abel Ferreira (SC Braga “B” – SC Braga), Nuno Manta (treinador-adjunto do CD Feirense para técnico principal), Pedro Emanuel (Estoril-Praia) em 2016/2017 e Jorge Simão (Boavista FC) e Silas (começou a carreira de treinador nos CF “Os Beleneneses”) em 2017/2018.

A taxa de sucesso é muito abaixo dos 50% e a época transacta é demonstrativa de que nem sempre substituir corre bem: Ivo Vieira (não evitou a descida do Estoril), João Henriques (boas intenções no Paços de Ferreira, mas o plantel não era o adequado), Sérgio Vieira (aguentou 7 meses no Moreirense, mas foi um sufoco até ao final), Manuel Machado, Petit, etc.

Ou seja, as opções são cada vez menos estáveis e credíveis e a própria Ledman Liga Pro tem trazido poucos treinadores com sucesso à Liga NOS, ficando para já na retina Daniel Ramos, Luís Castro, João Henriques (impressionante a qualidade do CD Santa Clara na temporada actual), Abel Ferreira (veio da formação secundária dos bracarenses) e Pepa.

João Henriques, um dos últimos casos de sucesso da Ledman Liga Pro na Liga NOS (Foto: Lusa)

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